Brasil

Osório Coutinho, o coletor que deu lições de coexistência pacífica,

Redação DM

Publicado em 13 de abril de 2016 às 03:03 | Atualizado há 10 anos

Todas as vezes em que passo em frente a um guichê de banco, de loja ou de repartição pública, lembro-me de Osório Coutinho, o coletor do Estado em minha cidade.

Paradoxalmente, recordo-me dele justamente porque sua coletoria, não tinha guichê, contrariando a praxe desse tipo de repartição. Sua Coletoria funcionava num cômodo fronteiro da casa, contíguo ao alpendre de chegada.

Escuro, baixote, risonho, risinho de gargalhada fina, Osório era amigo de todo mundo, passeando sua calma nas pontas de rua à procura de algum carregamento de mercadoria com nota branca, para com seu jeitinho maneiroso de sempre, mandar o contribuinte passar na Coletoria para cortar o talão do imposto, que ele era honesto e incorruptível.

Sempre vestido com camisa branca de manga comprida, Osório era calmo, paciente e de bom trato com as pessoas. Casado com Minervina, morava com eles a irmã, Ambrosina, muito parecida com ele, só diferindo no conversar: enquanto Osório era calmo e conversava baixo, Ambrosina não tinha papas na língua, e sua voz de taquara rachada atravessava a praçona, onde moravam, sendo ouvida do outro lado.

Como não tinham filhos, Osório e Minervina criavam o filho de Iaiá Deuselina, o caçula, Zé Leal, que de tanto ser cuidado por Ambrosina, que se enviuvara aos 15 anos, passou a ser conhecido por Zé de Ambrosina, até hoje, homem feito. Morando ao lado da igreja de São José, vez por outra a voz de Ambrosina estava interrompendo a concentração solene do vigário, quando irrompia janela adentro o som hilariante:

– Ô, José, vai pegar o urinol, seu murcho!

E Zé, criado como filho, acabou despertando em Osório o instinto paterno, levando-o a arranjar com Ondina, costureira de boa procedência moradora a cem metros, na mesma praça, um filho, que veio acender no íntimo do coletor a chama da felicidade, e Osório pegou uma revista cheia de retratos de homens ilustres, e escolheu o nome: Charles, para homenagear De Gaulle; mas Ondina, cuja primogênita se chamava Reny, queria que o menino fosse Renivan. Tentou-se uma composição com um Charles Renivan, mas acabou vencendo Ondina, e o menino foi registrado como Renivan, mas é conhecido por Charles, como o pai queria e como o chamava.

De pequeno, o menino passou a morar nas duas casas, pois Minervina, apesar de uma inicial e natural repulsa em conviver com aquele bastardinho, acabou aceitando-o e tendo-lhe muita afeição, talvez para compensar sua esterilidade. Até casar-se, Charles/Renivan gozou de todos os privilégios na casa de Minervina, a quem chamava de Mãe Ina.

Encapetado, o menino pintava e bordava, com o beneplácito de Osório, que se extasiava e nem ligava para as artes do rebento, pródigo em fazer trampolinagens. Mas quando, nas brigas de todo santo dia, o menino levava a pior, Osório não relutava em ir à mais longínqua ponta de rua para discutir com o agressor, também menino. E diante de todo mundo, não se constrangia em agir meninamente respondendo no mesmo nível aos desaforos:

– Você que é feio, seu moleque atrevido!

Quando o primogênito estava grandinho, e vendo que não houvera reações no lar, Osório arranjou o segundo, Ubiraci, que ele tratava de “Seo” Bira e que lhe herdou a cor da pele, passando logo para debaixo da asa da tia Ambrosina, com quem muito se parecia. Bira era os dengos da tia: dormia com ela, comia pela mão dela e manobrava Ambrosina como queria, satisfazendo-se os mínimos gostos.

Por derradeiro, nasceu Zeila, que veio trazer o toque feminino à família. Os três foram criados com a mãe e com “Mãe Ina”, que lhes deu educação, carinho, afeição, como se eles tivessem brotado de seu estéril leito.

Na casa de Osório todo mundo aprendeu uma lição de coexistência pacífica, da compreensão, e após a morte de Osório Minervina e Ambrosina mudaram-se para Goiânia, carregando Charles, Bira e Zeila. Os filhos dos três chamavam a ambas de vovó.

Finado Osório deixou muitas amizades no Duro. Políticos em visita à cidade costumavam ir a casa dele para bater papo, embora eu nem saiba ao certo que partido ele seguia. Prestativo, vez por outra estava levando uma pessoa ilustre para almoçar ou jantar com ele, o que gerava certa estranheza, pois todo mundo o conhecia como canguinho, que não gastava dez tões, a não ser forçado. E indagaram, certa vez a um médico chegante por que fora convidado para o almoço. E veio a explicação:

– Quando acabei de almoçar, ele, como quem não queria nada, me fez examinar todo mundo de graça: ele, a mulher, a irmã os filhos e até a empregada.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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