Brasil

Será que feiticeiro ainda existe?

Redação DM

Publicado em 12 de abril de 2016 às 03:11 | Atualizado há 10 anos

Está desaparecendo a figura do feiticeiro. Creio que, mortos aqueles notórios mandraqueiros, que inspiravam terror a toda a comunidade de uma região, ficou mais fácil aos novos manterem-se no anonimato para lograr uma certa impunidade, representada pela proscrição do povo (quem é que quer amizade com eles? Num deslize qualquer uma palavra mal compreendida pode a vaca ir pro brejo, ao se angariar a desavença com tais sujeitos).

Será que existe gente com capacidade de fazer um “malfeito” pros outros?

Não conheci pessoalmente, mas por informações da tradição oral, tipos que pintaram e bordaram no sertão lá meu: Chico Me Dá e sua mulher, que trocavam feitiço – ele a enfeitiçava e ela passava uma semana dormindo; quando acordava, botava um feitiço nele fazendo-o dormir por igual período – num verdadeiro fogo cruzado.

Além de Chico Me Dá e de sua velha, que moravam ali nas Bicas, a coisa de menos de légua do Duro, ficou famosa a figura de Maria Dentão, moradora no Açude e afamosada no livro “O Tronco”, de Bernardo Élis como a velha Berandolina, que fazia misérias com seus poderes.

Para rebater os “malfeitos” existiu no sertão o mais famoso de todos os curadores: Joaquim Paraguaio, que era mestre em desfazer tais malfeitos, sendo carregado para muito longe, a fim de desmanchar inhacas e mandingas. Como discípula deixou a velha Maria Segurada, que sempre se dedicou a curar o povo a poder de raízes e força mental.

Tudo parece simples abusão do povo, mas a experiência tem mostrado que existe o “olho gordo”, a inveja, traduzidos em forças mentais que os parapsicólogos tentam explicar. Quanta gente que possuía vida estável e equilíbrio financeiro “deu pra trás” inexplicavelmente? Quanta moça rica, bonita e até exigente nos seus gostos de namoro se casou com um indivíduo sem estampa nenhuma, sem nada que justificasse uma louca paixão?! Quantos casamentos se desfizeram da noite para o dia sem explicação nenhuma?!

O sertanejo fala muita coisa para tentar explicar tais fatos: unha raspada na pinga bota qualquer um doido; chá com cabelo de mulher torrado faz voltar namoro, e assim segue, observando-se sempre que “o negócio entra pela boca, bebido ou comido”. Dizem, entretanto, os entendidos, que basta se ter a intenção e se acender uma vela para ocorrer algo de mal, pois se pro mal a gente leva um minuto, para o bem é necessário muito tempo, comparando-se aquele à doença, e este, à cura.

Folcloristas, como Alceu Maynard Araújo, no seu bem documentado “Medicina Rústica”, contam a história da temida Maria Xangô, moradora nas margens do São Francisco, no município de Penedo/AL, que era famosa pelos “malfeitos” que fazia, chegando a causar a morte daqueles  que não guardavam muito boa avença com ela. E o folclorista cita vários casos testemunhados por moradores transmitidos na comida, na bebida, no cigarro e até no aperto de mão.

Um caso concreto ocorreu em minha família. Meu pai – eu já me referi em um dos meus livros – era cético com esses negócios de feitiço, e chegou a desafiar a mulher de Chico Me Dá a fazer algum contra ele. Casando-se em primeiras núpcias, com pouco tempo sua vida virou um inferno: não havia a mínima condição de convivência debaixo do mesmo teto.

Diante daquela inexplicável mudança, aconselharam-no a consultar um curador. Embora não acreditasse, ele pensou: “Quem está perdido não procura estrada” e nada custava tentar. Foi. E o curador lhe disse que havia um “malfeito” que tinha sido botado num doce de casca de laranja, prescrevendo-lhe o curador um “trabalho”, que consistia em rezar o rosário durante nove dias na cabeceira da cama da esposa. Mais como descargo de consciência do que por crédito ao fato, ele realizou o “trabalho”, num período em que a mulher estava viajando para Santa Rita do Rio Preto, na Bahia.

Quando ela retornou, nem parecia a mesma. E viveram felizes, até que ela morreu de bexiga, durante uma terrível epidemia que grassou lá pelos anos vinte e três ou vinte e quatro, deixando-o com dois filhos pequenos, Nélio e Osvaldo, que minha mãe acabou de criar.

Dali por diante, ele passou a acreditar. Eu por meu turno, sigo-lhe os passos, que não sou nem besta, pois tudo o que tem nome tem dono.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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