Cuba caminha com cautela
Redação DM
Publicado em 12 de abril de 2016 às 03:08 | Atualizado há 10 anos
Depois do degelo provocado por Obama e Raul Castro, Cuba vislumbra novas perspectivas econômicas e sociais. Mas, segue seu caminho com a devida cautela. Afinal, o embargo econômico persiste por 55 anos. Apesar da boa vontade de ambos, o desfecho se encerrará quando o Congresso norte-americano der a palavra final. E um detalhe significativo: a maioria dos congressistas é republicana. E o atual presidente é democrata. Daí o comportamento cauteloso das autoridades cubanas.
A ruptura se deu em função da “guerra fria” entre Estados Unidos, líder do capitalismo, e a então União Soviética, líder do socialismo. Passado esse tempo todo, superior a meio século, ficou demonstrado que o povo cubano foi o principal sacrificado. A pobreza reina na ilha que implantou o regime socialista em total desafio ao poderoso país americano. A base militar americana de Guantânamo, no entanto, foi mantida, para total desagrado dos líderes de Cuba, à frente o comandante Fidel Castro.
Posteriormente, ruiu como um castelo de areia a decantada União Soviética. Cuba, um de seus satélites, permaneceu e os índices de desenvolvimento decaíram gradual e rapidamente. Os carros, por exemplo, que circulam em Havana e outras cidades cubanas são constituídos por modelos ultrapassados. A renda do país se limite a cem dólares ou cerca de quatrocentos reais. O embargo já custou aos cubanos US$ 11 bilhões, segundo o governo cubano.
Atualmente, Cuba não oferece nenhum motivo para preocupação aos visinhos. Principalmente, os de ordem ideológica. Para a geração de tendência esquerdista dos anos 60, a revolução cubana traz apenas certa nostalgia. Correndo todos os riscos, mais de dois milhões de cubanos fugiram de seu país enquanto outros milhares foram naufragados. Os fugitivos, em grande parte, preferiram escolher Miami para morar e trabalhar. De certa maneira, ocorreu o lado positivo, porque eles passaram a encaminhar dinheiro para a família que ficou.
Mas. E, agora, José? A abertura política e econômica tende a levar novas perspectivas ao país. O processo nesse sentido, no entanto, apresenta suas complexidades. A transformação do sistema está em mãos adequadas? Talvez, por isso, Raul Castro, o timoneiro cubano, comanda os passos com a devida cautela. Afinal, o embargo persiste e é ano eleitoral nos Estados Unidos.
Com isso, o uso da internet ainda passa pela burocracia dominante, onde as mudanças permanecem praticamente congeladas. O que pensam as autoridades cubanas sobre mudanças políticas e econômicas? O regime introduzirá o mercado em sua econômica, dando a tônica capitalista aos grandes investimentos? Ou porá em prática algum arremedo do modelo da China, com introdução limitada do mercado, adotando áreas ou influências, e em decorrência uma fórmula limitada de democracia?
As perspectivas tomam conta dos cubanos, que desejam um impulso social que favoreça a mudança de ordem econômica. O regime viveu todos essas décadas sobre a tutela socialista e é natural que o governo haja com acentuada prevenção. Aliás, Raúl Castro é mais audacioso, mas seu mano Fidel ainda carrega ranços da guerra-fria.
Conforme leio em El País, jornal editado em Madri, Cuba necessita de inversões privadas estrangeiras. Os primeiros cálculos apontam na direção de US$ 2.500 milhões. Esses valores são, todavia, insuficientes para gerar uma poupança nacional que possa provocar um impulso aos mercados que começam a despontar na nação cubana. O turismo sofre incremento significativo e, o processo de abertura, poderá provocar inversões americanas em hotéis e cassinos. O governo, no entanto, terá que dar a palavra final.
Outra questão que mexe no futuro cubano é a presença do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma das ojerizas da esquerda. Mas, a presença da instituição normalmente é exigida pelos Estados Unidos, como garantia da estabilidade para estabelecer uma mudança mais dinâmica.
(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, ex-bolsista em cooperativismo agrícola pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, bacharel em Direito e Economia PUC-Goiás, autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste e editor de Agronegócio do Diário da Manhã)