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Um relato emocionante de um alcoolista- Parte II

Redação DM

Publicado em 3 de abril de 2016 às 01:53 | Atualizado há 10 anos

Quanto mais tempo ficava ali, menos confortável me sentia. No começo, eu estava tão imerso que não havia diferença entre “mim” e o elemento meio repulsivo e ligeiramente familiar que me rodeava. Mas, aos poucos, essa sensação de imersão profunda, atemporal e sem fronteiras deu lugar a outra coisa: o sentimento de que eu não fazia parte daquele mundo subterrâneo, embora estivesse dentro dele.

Caras grotescas de animais borbulhavam na lama, grunhiam, guinchavam e desapareciam de novo. Escutei urros medonhos. Algumas vezes, esses urros e grunhidos davam lugar a cânticos rítmicos e obscuros que eram, ao mesmo tempo, assustadores e curiosamente conhecidos – como se em algum momento eu mesmo os tivesse cantado.

O movimento à minha volta se tornou menos visual e mais palpável, como se criaturas parecidas com vermes (talvez aqueles que foram retirados de meu corpo conforme acima) e répteis estivessem passando em bandos e de vez em quando esfregassem suas peles macias ou espinhosas a mim.

Foi então que tomei consciência de um odor: era uma mistura de cheiro de fezes, sangue e vômito (vômito que embora não mais eu o tivesse foi marcante durante todo processo de álcool, depressão e obsessão). Em outras palavras, um cheiro biológico, porém de morte e não de vida. À medida que minha consciência se aguçava, eu me aproximava mais do pânico. Eu não pertencia àquele lugar. Precisava escapar. Mas não sabia como sair e nem para onde. Quando me fiz esse questionamento, algo novo emergiu da escuridão: alguma coisa que não era fria, nem morta, tampouco sombria, mas o exato oposto disso tudo. Mesmo que eu passasse o resto da vida tentando, não conseguiria fazer justiça à entidade que se aproximava de mim. Nem sequer chegaria perto de descrever como era bela.

Numa manhã de quinta feira, exatamente vinte e um dias vivenciando esse tormento, quase sem forças para reagir, já quase entregue ao ‘nada’, pálido, mais ou menos cinco quilos a menos, olheiras, olhos sem vida, trêmulo e quase sem equilíbrio até mesmo para ir ao banheiro alguns metros de meu quarto. Alguma coisa apareceu na escuridão de meu quarto (cortinas e porta fechada para parecer noite). Movendo-se lentamente, ela irradiava uma luz dourada e, à medida que avançava, a escuridão do meu quarto começava a se fragmentar e dissipar. Junto a essa luz veio também um lindo som vivo, penetrante e a mais rica melodia que meus ouvidos já tinham escutado. Aumentando de volume enquanto uma diáfana luz branca descia, esse som anulou alguns conflitos e dores vivenciados nos dias antecedentes a esse episódio.

A luz foi chegando cada vez mais perto, girando em torno de mim, produzindo filamentos de pura luz branca com raias douradas.

Então no centro da luz, apareceu outra coisa. Eu me concentrei ao máximo para descobrir o que era. Parecia um rosto, mas era algo além desse mundo.

Ainda um pouco sem saber o que estava acontecendo, pois de tantas angústias, escuridão, medo, desânimo e entrega ao não viver. Minhas forças pareciam estar retornando e meus pensamentos confusos começavam a clarear e alguém disse claramente ao meu ouvido: ‘tudo agora é recomeço, uma nova vida espera por você e estarei sempre ao seu lado, como sempre estive, mas você nunca quis me ver e nem me ouvir, peça o que você quiser e você terá, pois sua felicidade é a minha felicidade, seu amor é meu amor, somos apenas Um; mas quero lhe pedir algo: jamais se deixe levar por tudo que te trouxe até aqui, você compreende o que estou te pedindo? Veja meu filho estou lhe fazendo apenas um pedido e darei tudo o que você precisar para continuar sua caminhada e sua tarefa aqui na terra, portanto, faça quantos pedidos você quiser e Eu atenderei porque te quero muito bem’.

A luz foi novamente se dissipando e sumiu, meio que transtornado e assustado, embora uma calma profunda “nascia” dentro de mim como há muito tempo não sentia. Como que meio tonto, mas de certa forma “mais forte”, fui até o banheiro tomei um belo banho e coisas incríveis começaram a acontecer naquele mesmo dia.

Os dias foram passando e uma leveza começou a fazer parte de minha vida e de meu ser. Teria que recomeçar muita coisa e tomar algumas decisões que seria o início de uma nova vida…” “Quase um ano se passou e não consigo mais enxergar aquele homem que fui e talvez ainda seja um pouco; mas foram experiências que jamais poderei esquecer e atrás delas pude encontrar alguém melhor dentro de mim que eu mesmo desconhecia”. “Foi com a ajuda Deles (Deus e Psicoterapeuta) que consegui chegar onde cheguei e acredito estou a cada dia encontrando a mim mesmo”. – (“agradeço ao meu amigo que mesmo um pouco contra sua vontade em expor minha experiência e transcreveu quase que na íntegra de tudo que vivenciei e também não sei exatamente o motivo que pedi a ele que colocasse essa vivencia num jornal, pois sei que muitos vão debochar e me ridicularizar, mas tenho lá minha razões e é também por esse motivo que continuo meu tratamento”).

Tenho tentado contribuir de alguma forma para ajudar àqueles que sofrem as dores da alma e minha visão de mundo e de mim mesmo tem sido a cada dia acrescentado devido ao carinho e confiança daqueles que partilham comigo suas dores e sofrimentos.

A experiência vivenciada pelo ‘amigo’ acima vem de encontro com nossos objetivos como psicólogo e psicoterapeuta: dissipar as trevas que habita nossas almas.

O verdadeiro papel do psicoterapeuta não está em mostrar o caminho; mas descobrir junto com o paciente o melhor caminho que ele pode seguir em sua vida. Muitos pacientes realmente só encontram o verdadeiro caminho quando a compreensão da vida e de si mesmo se torna algo real dentro deles.

Tenho trabalho com muitas ferramentas dentro da psicoterapia e uma delas é: os sonhos que na maioria nos são bastante reveladores e que contribui de maneira impar para o autoconhecimento e autodescobrimento.

Na pergunta novecentos e dezenove do livro dos espíritos foi perguntado: “O que devemos fazer para evitar o arrastamento ao mal e melhorarmos nessa vida”? Nossos irmãos de luz assim responderam: “Um sábio da antiguidade vos disse: ‘Conheça-te a ti mesmo”. Todo aquele que se dispõe a encontrar a si mesmo, não tenhamos dúvida, encontrará com sua verdadeira essência e um desses caminhos é a psicoterapia – tratamento da alma!

Finalmente, podemos afirmar que o relato acima pode ser encarado pelo leitor como uma viagem alucinatória em virtude da ingestão de álcool; mas pela minha experiência espiritualista, foi uma vivência real do paciente que buscava e busca incansavelmente respostas de suas dúvidas e sofrimentos… “Buscai e achareis…”.

 

(Dr. José Geraldo Rabelo é psicólogo holístico, psicoterapeuta espiritualista, parapsicólogo, filósofo clínico, especialista em família, depressão, dependência química e alcoolismo, escritor e palestrante. Emails.: [email protected] e/ou [email protected])

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