Se Dilma virar Maria Antonieta, todos os demais serão Robespierre*
Redação DM
Publicado em 3 de abril de 2016 às 01:44 | Atualizado há 10 anos*Robespierre: Personagem histórico que liderou o povo no levante contra a monarquia francesa. Depois de decapitar o casal real Luis XVI e Maria Antonieta, assumiu o poder e foi decapitado em seguida pelos franceses que haviam adquirido gosto pela coisa.
Há histórias que não precisam ser contadas, todo mundo conhece, mas precisam ser relembradas, analisadas, comparadas, porque são parte do acervo do conhecimento que pode tornar nossas ações mais sábias, sensatas e evita tragédias. A deposição de Fernando Collor é uma delas, aliás, muito citada nesses tempos em que tanto se fala sobre impeachment, desta vez não como especulação, mas como possibilidade real.
Collor tem sido usado como argumento para dar a ideia de um afastamento de Dilma como um acontecimento banal. Afinal, Collor renunciou para evitar o resultado já conhecido por todos de uma votação que as ruas haviam antecipado. Collor caiu num dia e o Brasil entrou num clima de absoluta normalidade no outro, com o até então desconhecido Itamar Franco fazendo um governo pacífico e conciliador como poucos, até surpreendendo com o desprendimento de abrir diálogo com todas as vertentes ideológicas e criando um programa que se tornou muito popular: o Fome Zero. Portanto, sem dramas em relação ao futuro do Brasil caso Dilma venha a sofrer impeachment, certo? ERRADO. Dilma está mais para Maria Antonieta, a rainha decapitada da França num marco histórico, do que para um insignificante Fernando Collor.
O que há de diferente nas duas situações?
1 – O PR não era um partido político com uma História, foi apenas uma legenda providenciada para lançar um candidato sabidamente da Globo, de mais ninguém.
2 – Collor foi um personagem criado, inventado pela mídia, batizado por agências de marketing como “O Caçador de Marajás”, um slogan de apelo eficiente em tempos que, apesar da pouca memória dos admiradores de Bolsonaro e similares, a ditadura havia instituído no Brasil dois planetas: um de poucos privilegiados abastadíssimos sugando os cofres públicos com seus apaniguados e parentes – OS MARAJÁS – e uma grande casta relegada à mais absoluta miséria, levando o país a figurar no exterior como uma Somália do continente americano. E, claro, havia uma pequena classe média no meio, de número insignificante, o suficiente apenas para servir de figurantes em propagandas do regime, como aqueles que enfeitam as propagandas da margarina para a televisão, enquanto a maioria esmagadora dos brasileiros permanecia no campo e nas rincões de miséria que eram o Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país.
3 – Collor foi derrubado pelos mesmos que o elegeram, o mesmo grupo, os mesmos personagens, tendo sido a parte da população que lhe deu os votos simples massa de manobra primeiro para eleger e depois para derruba-lo. Portanto, não havia mesmo condições para conflito.
Já Dilma é diferente. Dilma é Lula. Ou caem os dois ou não cai ninguém. Prova disso é a aflição dos inventores do impeachment em derrubar Lula para viabilizar a queda de Dilma. E para tornar a diferença nítida, basta lembrar do que ocorreu quando Collor chamou o povo às ruas para apoiá-lo e não foi ninguém, ao contrário de Lula que nem precisou chamar para lotar as ruas e redes sociais de defensores. A esquerda não aceitará uma deposição de um governo mais para a esquerda seguida de um governo de direita, e todos sabem que o PSDB não moveria céus e mares para tirar o PT se não tivesse garantias de que será o sucessor.
Se a queda de Collor foi seguida de uma sensação de normalidade, a de Dilma (e Lula) seria o começo de um furacão, o que viria a seguir seria arrasador para o país. Não apenas pela força popular de Lula, o que já é por si só determinante, mas também pela tática suicida que a classe política adotou sem medir consequências: ao demonizar os políticos, não perceberam ainda o recado mórbido e fatídico que a expulsão de Aécio e Alckmin pelos manifestantes do Fora Dilma enviaram: “Políticos são corruptos, não aceitaremos nenhum político no comando”. Ou seja, ou instituímos um governo sem políticos (???) ou os descontentes estarão sempre descontentes. Depois da cabeça de Maria Antonieta, partirão com a mesma fúria sobre quantos Robespierres surgirem.
No Egito, a mesma tática de deposição resultou em políticos sendo arrastados por cordas e espancados nas ruas. No Brasil não seria diferente. A maioria dos manifestantes no Brasil querem o fim dos políticos, o fim dos partidos, o fim da política que se tornou sinônimo de corrupção depois da enxurrada de denúncias que cobrem todos os partidos e seus representantes, sem exceção entre os grandes nomes do cenário nacional.
Sem perceber que estão colocando os próprios pescoços na forca, deputados, senadores, governadores e prefeitos instigam uma ação que hoje tem foco centrado na figura de Dilma, sem perceber que não havia luta de classes envolvendo Collor de um insignificante PR como ocorre num cenário que envolve um partido com História e ampla representatividade como o PT. E mesmo entre os que defendem a deposição, a sede de sangue do tal gigante que dormiu durante a aula e acordou meio abobalhado não terminará com a derrubada de um único elemento do cenário, a turba ignara se voltará contra os sucessores no processo com força maior, alimentada e adubada que seria pela sensação de poder que traria uma vitória de propósitos que estão longe de serem seus, mas que imaginam ser e isso lhes basta. Não haverá mais ninguém governando ou exercendo a política em condição de segurança por várias décadas no país.
Parece que nenhum político parou para projetar o “the day after”, e muito menos para analisar o contexto e as referências históricas que recomendam o cessar fogo pelo bem da economia, das empresas, dos empregos, do país e da integridade física dos próprios políticos, pois cabeças vão rolar caso o conflito chegue ao ponto extremo, e não será apenas uma.
(Míriam Moraes é especialista em jornalismo político, autora do livro Política – Como Entender o Sistema de Poder no Brasil)