O mais grave dos sinais
Redação DM
Publicado em 3 de abril de 2016 às 01:42 | Atualizado há 10 anosNinguém neste país desconhece o momento que estamos vivendo, numa chamada “crise perfeita”, para fazer alusão à conhecida expressão “tempestade perfeita”.Isto é, tudo de ruim que poderia nos acontecer nos campos econômico, político e social, está nos acontecendo no seu mais alto grau.
Nenhum item da macroeconomia do país deixou de ser atingido negativamente pela onda de desacertos,resultante de uma economia mal gerenciada.
Entretanto, há semanas que a mídia não cessa de divulgar os dados do desemprego no país, que têm superado as projeções mais pessimistas.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, divulgou dados assustadores sobre o resultado das pesquisas no mês de fevereiro último: o desemprego no Brasil atingiu 8,2% no segundo mês do ano, contrastando com os dados do mesmo período em 2015, que apontavam 5,8%. O cenário para 2016 é de que a taxa chegue a 10%, com o professor José Pastore, da Faculdade de Economia da USP, um dos maiores especialistas do país em emprego, apontando que pode chegar a estratosféricos 12% até o fim ano.
Dados divulgados com destaque nessa última segunda-feira, informam que somente em São Paulo, a nossa locomotiva industrial , foram fechadas 4 mil e 400 fábricas no período de 1 ano. O número é 24% superior ao registrado em 2014. Um conjunto de fatores, como queda da demanda, altos custos de impostos, energia, juros elevados e falta de investimentos, explica a situação.
Dos 22 setores pesquisados, houve eliminação de vagas em 17. Somente no setor de metalurgia, em São Paulo, 4 mil e 500 vagas de emprego foram eliminadassomente no mês de fevereiro, representando 37% das demissões da indústria paulista no segundo mês do ano.
A Organização Internacional do Trabalho, a OIT, acompanha com preocupação a evolução do desemprego no Brasil. Pelas projeções da entidade, o Brasil terá, somente em 2016, 700 mil novos desempregados. Passando de 7,7 milhões em 2015 para 8,4 milhões de desocupados em 2016. Se continuarmos nesse ritmo teremos no Brasil 1 em cada 5 novos desempregados no mundo, em 2017.
Acontece que as projeções da OIT já são superadas pelos números reais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que apontam, já em novembro de 2015, 9,1 milhões de pessoas desempregadas.
São 2 milhões e 600 mil pessoas nas filas à procura de emprego.
Em consequência desse quadro, a massa salarial do brasileiro caiu de CR$ 172,780 bilhões em novembro de 2014, para CR$ 169,800 bilhões em novembro de 2015: uma redução de 1,7%. Com reflexos na cadeia comercial de menor consumo em todos os setores, no comércio, nos serviços, no lazer, na cultura, na retirada dos filhos da escola paga, na saúde e, até, nos gêneros de primeira necessidade.
Os números são assustadores e o efeito é devastador para a população: a perda de emprego não é um golpe apenas na renda das pessoas, mas na autoestima de pais e mães de família.
Evidentemente, o custo econômico é elevado, a falta de atendimento às necessidades básicas da família é avassaladora para o desempregado, mas nada supera o custo humano, social e psicológico nos períodos de desemprego persistente e involuntário.
Todos estamos preocupados com a crise econômica, agravada pela crise política sem precedentes. Mas, não podemos esquecer as consequências desse quadro para as pessoas, quando elas perdem o seu emprego. Há um estado de desagregação social envolvendo os 9 milhões de desempregados, acarretando depressão, diminuição da auto estima, sentimentos de insatisfação com a vida e frustração.
Ao desemprego estão associados, também, os casos de violência conjugal, e o indivíduo passa a sofrer aquilo que podemos chamar de “pobreza envergonhada”. Esse último é o quadro mais difícil de ser administrado e superado pelas pessoas.
No contexto das famílias, o desemprego provoca a desestruturação e a desorganização familiar, sendo as crianças as principais vítimas dessa situação.
Certamente que todos estamos envolvidos nessa “tempestade perfeita”, que é a atual crise brasileira. Neste torvelinho a palavra mais falada, comentada e anunciada da atualidade é a palavra desemprego.
Todos somos protagonistas das soluções buscadas, tanto para a crise econômica, quanto para a crise política. Mas não nos esqueçamos, entretanto, que quem mais está sofrendo são as famílias brasileiras.
Depois das promessas de que passariam a compor a nova classe média brasileira, com direito a consumir bens, que significavam bem-estar para as famílias, as pessoas se vêm jogadas no círculo vicioso do desemprego.
Isso é uma responsabilidade inarredável do Congresso Nacional e daqueles que ocupam as funções públicas em nosso país.
(Lúcia Vânia é senadora (PSB), ouvidora geral do Senado e jornalista)