“É o golpe dos endinheirados”
Redação DM
Publicado em 2 de abril de 2016 às 01:45 | Atualizado há 1 ano
- Programa do PMDB para eventual caso pós-Dilma Rousseff é ultraliberal e concentracionista, atira
- Professor afirma que saída do PMDB é uma manobra de pura chantagem de Michel Temer
- Crítico, o escritor frisa que a experiência de se fazer reforma sem reformar nada esgotou-se
– Derrubar uma presidente da República sob alegações de utilização de pedaladas fiscais é um golpe de Estado!
É o que afirma o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni. Doutor em História Social, jornalista, escritor e especialista em América Latina, em particular sobre a Venezuela, ele diz, com exclusividade ao Diário da Manhã, que a saída do PMDB do Governo Federal é uma manobra de pura chantagem e grosseira para conduzir o vice-presidente da República, Michel Temer, ao poder. Sem votos. Segundo ele, o programa do PMDB, apresentado ao Brasil para um eventual período pós-Dilma Rousseff, a inquilina do Palácio do Planalto que obteve 54 milhões de votos em 2014, é ultraliberal e concentracionista. Não é à toa que o ex-presidente do BankBoston Henrique Meirelles chegou a ser cotado para assumir o Ministério da Fazenda, caso o impeachment seja aprovado ainda no mês de abril de 2016. Crítico do Lulopetismo, Gilberto Maringoni avalia ao DM que o modelo de se fazer reforma, sem reformar nada, como o PT adotou de 2003 a 2016, esgotou-se. O que prejudicará a esquerda brasileira, alfineta.
Leia a íntegra da entrevista:
DM – Luciana Genro diz que o impeachment não é golpe. O senhor concorda?
Gilberto Maringoni – Em tese, impeachment não é golpe. É matéria constitucional. No entanto, este processo de impeachment – que nada tem a ver com corrupção ou coisa que o valha – está assentado em operações administrativas normais, as chamadas pedaladas fiscais. São remanejamentos orçamentários que qualquer administrador faz. Derrubar uma presidente por esse motivo é golpe de Estado.
DM – Qual a sua análise sobre a saída do PMDB do Governo?
Gilberto Maringoni – O PMDB e o PT não apresentam grandes divergências programáticas. Por isso, conviveram quase uma década na administração federal e têm inúmeras alianças nos Estados e municípios. Nenhum dos dois têm programas claros, atualmente. São mais grifes de personalidades que se encaixam na baliza para onde o vento estiver soprando. A saída é manobra puramente de chantagem, que pode levar o vice, Michel Temer, ao poder num verdadeiro tapetão institucional. O governo já não tinha base parlamentar muito sólida. Isso apenas sacramenta algo que já ocorre há um ano, pelo menos.
DM – Henrique Meirelles na Fazenda indica o quê?
Gilberto Maringoni – Indica, primeiro, preferência por uma política macroeconômica ultraortodoxa, concentracionista e de opção preferencial pelo capital financeiro. Segundo, mostra uma convergência de propósitos entre o PMDB e Lula. O golpe não trará mudanças de rumos, mas de ritmo na aplicação dos preceitos ultraliberais.
DM – Existe espaço para o PT se reinventar dentro ou fora do poder?
Gilberto Maringoni – Não sei ao certo o que seria se “reinventar”. Acho que a experiência histórica com o petismo está esgotada. Ou seja, a possibilidade de se fazer reformas sem reformar nada. Dito de outra forma, a possibilidade de se melhorar a vida dos de baixo sem tocar nos interesses dos de cima. Isso, no projeto petista, só é possível em períodos de crescimento. Agora, como legenda eleitoral, o partido seguirá existindo.
DM – Qual o futuro da esquerda no Brasil?
Gilberto Maringoni – Não sou dado a exercícios de futurologia. Mas o PT causou um grave prejuízo à esquerda, ao associar essa orientação a opções como ajuste fiscal, perda de direitos e projeto neoliberal. Isso para não falar dos graves casos de corrupção. O PT não é de esquerda há muito tempo. Mas a marca vai ficar. Acho que as forças progressistas terão alguns anos de dificuldades.
DM – Existem identidades entre 1964 e 2016, com OAB e Fiesp?
Gilberto Maringoni – As duas entidades apoiaram o golpe e desenvolveram intensas atividades junto à classe média e ao empresariado. Embora os momentos sejam muito distintos, os setores que participam da trama anti-institucional – capital financeiro, indústria, grandes grupos de mídia, entidades empresariais e algumas de classe média – são muito semelhantes. Querem preservar os privilégios de uma minoria às custas da maioria da população. Nada de novo até aí.
DM – O golpe de 2016, no Brasil, com o afastamento de Dilma Rousseff, é legal?
Gilberto Maringoni – Nas condições atuais, não é. Só com muita imaginação alguém pode afirmar isso.
DM – Gilmar Mendes, José Serra e Armínio Fraga em almoço, na Capital da República. José Serra, manchete em O Estado de S. Paulo e Armínio Fraga, na Folha. É conspiração ou não?
Gilberto Maringoni – Sim, é conspiração, tudo indica. Ela está sendo feita às claras. O problema é que o governo não reage, ou reage ajudando os golpistas, com políticas que penalizam os de baixo.
DM – O site de O Estado de S. Paulo defende explicitamente, com um banner, o impeachment. Qual a sua análise?
Gilberto Maringoni – Sim, o site exibiu isso. Trata-se de uma campanha lamentável da Fiesp e de outras entidades patronais exigindo o golpe. Um amigo publicitário fez o cálculo e as entidades gastaram – num único dia! – cerca de R$ 8 milhões para veicular tais anúncios nos principais jornais do país. É o golpe dos endinheirados!
DM – Lula em fuga para a Itália. É o que denuncia Veja. Qual a sua análise do veículo dos Civita?
Gilberto Maringoni – É tão estapafúrdia essa ideia – já desmentida pela própria embaixada italiana – que não vou nem comentar. A Veja faz um jornalismo indecente e mentiroso.
DM – Existem semelhanças no processo brasileiro com o do Paraguai e de Honduras?
Gilberto Maringoni – Sim, pelo fato de ser um golpe de novo tipo. Ao invés de se resolver nos quartéis, seu desenlace se dá no Congresso e nos tribunais, com leituras elásticas e flexíveis das leis. Isso se deu também no Paraguai, em 2012. A direita se sofisticou. Quer salvar as aparências de legalidade para quebrar a democracia.
DM – Há um golpe em marcha na Venezuela?
Gilberto Maringoni – Há um avanço da direita, claro. Acho que golpe, não. Quem está avançando dentro das regras não tenta interromper o processo. Há sérias dificuldades econômicas e descontentamento popular, que não conseguem ser enfrentados pelo governo. A oposição está até aqui jogando dentro das regras. Mas busca desfazer várias conquistas realizadas, em especial no âmbito social, pelos governos de Hugo Chávez.
“O PT causou um grave prejuízo à esquerda, ao associar essa orientação a opções como ajuste fiscal, perda de direitos e projeto neoliberal”
Gilberto Maringoni,Doutor da Universidade Federal do ABC
A Veja faz um jornalismo indecente e mentiroso!”
Gilberto Maringoni,Doutor da Universidade Federal do ABC
