Economia

Armando Varella, engenheiro florestal, há 37 anos no ramo da silvicultura comercial

Redação DM

Publicado em 27 de março de 2016 às 22:38 | Atualizado há 10 anos

 

O eucalipto tem tudo para prosperar no Cerrado do Planalto Central. Em Cristalina, município do entorno do Distrito Federal, encontra-se um dos maiores pólos de lavoura irrigada do mundo. A cultura do eucalipto ocupa espaço gradualmente ao lado da soja. Em alguns municípios de Goiás ele tem o aval da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no sistema a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. A ILPF promove a recuperação de áreas de pastagens degradadas agregando, na mesma propriedade, diferentes sistemas produtivos, como os de grãos, fibras, carne, leite e agroenergia. Busca melhorar a fertilidade do solo com a aplicação de técnicas e sistemas de plantio adequados para a intensificação de seu uso.

Airton Arikita acredita no sucesso da cultura do eucalipto no Estado. Em Cristalina desde 1998, gerenciou uma fazenda produtora de batata. E nessa condição acompanhou uma delegação de produtores que visitou os Estados Unidos em 2004. O objetivo observar um grande projeto de irrigação composto de quatro mil aparelhos de pivôs centrais em áreas unitárias com 50 hectares. A água do sistema era retirada de um lago subterrâneo. Arikita vê a região com localização geográfica que influi na logística de distribuição da produção. “O município permite plantio em grande escala e mecanização, abundância de água para irrigação, fundamental para culturas de alta produtividade e valor agregado”, discorre ao Diário da Manhã.

Armando Varella, engenheiro florestal, há 37 anos no ramo da silvicultura comercial, é outro personagem que conhece a região anos antes do advento da soja. Nessa condição, ele toma a palavra e disseca o tema. Cristalina já possui um histórico de plantio de eucaliptos desde a década de 70, incentivado pelo governo federal, através do Banco do Brasil pelo Fundo de Investimentos Setoriais (Fiset).

Possibilidades goianas

Goiás é reconhecido pela diversidade muito grande de solos, topografia, fauna, flora. A região de Cristalina, por sua vez, dispõe de situação favorável ao reflorestamento. É município pioneiro no segmento do agro. Além do mais, a proximidade de Brasília, favorece como mais um mercado promissor. No começo, a área era desprovida de atividades agrícolas. Vivia basicamente da pecuária de subsistência. E algumas fazendas de pecuária extensiva apresentavam baixíssima tecnologia. O Cerrado era terra barata.

Essa condição, no entanto, atraiu investidores. Empresas se instalaram na região plantando os gêneros e espécies florestais que o IBDF (órgão responsável na época) recomendava e fiscalizava. Muita madeira foi plantada e contribuiu para o abastecimento de lenha e carvão para as indústrias cimenteiras, mineradoras, siderúrgicas, entre outras similares.

Com o advento da soja, a descoberta da grande capacidade de produção destes solos, houve um aumento fenomenal na abertura de novas fazendas, gerando muitos resíduos florestais que eram transformados em carvão (hoje proibido) aumentando a oferta deste material.

O preço da terra aumentou em pouquíssimo tempo, inviabilizando a aquisição de novas áreas para a expansão do plantio de florestas. Crises diversas no setor siderúrgico fizeram o preço do ferro gusa despencar no mercado internacional. Com isso, provocou variações significativas no preço do carvão. Muitos investidores exaurirem as florestas e venderem as terras que estavam muito valorizadas e a plantarem soja.

Novo ciclo

Um novo ciclo começava com menos empresas florestadoras e uma menor demanda. Com a vinda das secadoras de grãos como Bunge, Cargill e das cooperativas agrícolas e o aumento da exploração do fosfato em Catalão, aumento da bacia leiteira no Estado com a vinda de grandes empresas do segmento e a instalação de grandes frigoríficos o consumo de lenha se reergueu novamente e se estabeleceu. Essa condição incentivou muitos agricultores a plantarem por conta própria pequenas e médias plantações em áreas de baixa aptidão agrícola ou de difícil mecanização.

Muitos viram neste segmento um ótimo negócio desde que bem conduzido investindo em novas tecnologias e recursos, garantido o recobrimento do solo, sua melhoria, preservação da água, geração de emprego e renda. Uma poupança. Alguns se profissionalizaram neste setor e investiram em empresas de cavaco, tratamento de madeira, serraria, entre outros.

A cada ano o plantio da região aumenta em pequenas e médias unidades, formando mosaicos que interagem na paisagem do Cerrado. Tem uma idéia da área plantada (se possível, uma panorâmica no Brasil e mais precisamente em Goiás).

O Brasil possuía no último levantamento feito pela ABRAF em 2013, 6,6 milhões de hectares de florestas plantadas, sendo 4,8 milhões de eucalipto. Goiás contribui com um pouco mais de 1% deste total.

Insuficiência energética

Não existe ainda um estudo apurado para se dizer qual a produção de madeira na região. A ARBO (Cooperativa Florestal Brasil Central), sediada em Cristalina, é a primeira cooperativa florestal do Estado e uma das poucas do Brasil. Com clima favorável, boa altitude, solos apropriados, grande quantidade de horas de luz por dia, Goiás apresenta excelentes condições para expandir sua vocação florestal. Tendo uma média nacional de incremento médio de 35 metros cúbicos por hectare ao ano, Goiás sem grandes investimentos já desponta com 50 a 55 metros cúbicos por hectare ao ano, tendo materiais genéticos produzindo 60 a 65 metros cúbicos por hectare/ano.

Goiás não é autossuficiente em energia. Diversos municípios sofrem com a qualidade da energia ofertada. Muitas cidades não recebem mais investimentos devido à baixa carga recebida. Cristalina é uma delas. Poderia se aumentar a quantidade de pivôs e a instalação de indústrias alimentícias na região se houvesse mais disponibilidade energética no município.

Segundo ele, no entanto, alguns grupos privados do setor energético, perceberam a demanda deficitária e estudam a viabilidade econômica de instalar termo elétricas à base de cavacos de madeira reflorestada, bagaço e outros materiais, como as que já estão trabalhando em diversos outros locais do Brasil como Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

O consumo desta biomassa não só geraria a quantidade necessária de energia para venda ao sistema nacional, como gera toneladas de vapor que podem ser vendidos a diferentes empresas que se instalariam ao seu redor.

Custos operacionais

Com a atual crise econômica tudo mudou. Plantio de florestas sugere longo prazo e requer gastos bem altos nos dois primeiros anos de formação. E está sujeito às variações ao longo destes anos, diferentes das culturas de ciclo curto. Praticamente se planta num governo e colhe dois mandatos depois. É uma atividade que requer um bom planejamento e execução de estradas e aceiros, dividindo os inúmeros talhões, recomenda o especialista.

E acrescenta: – É uma cultura como qualquer outra em muitos aspectos, necessitando de preparo de solo apropriado para a cultura, dessecação, calagem, gessagem, controle de pragas, adubações diversas, etc. Tudo isto gera custo muitos deles atrelados ao dólar. Ha uns três ou quatro anos se formava um hectare com R$3.500,00, hoje não se faz por menos de R$ 4.500,00 a R$ 5.000,00 ou mais dependendo da tecnologia empregada e finalidade futura da madeira.

Lucratividade e logística

Para ele, madeira não é commoditie e atende a mercados locais muito específicos. Plantios voltados para celulose, chapas e aglomerados, lenha e cavacos, madeira serrada, madeira para laminação, carvão. Cada finalidade e destinação vão definir a lucratividade em função da quantidade necessária e a distância percorrida até o consumidor. Toda a economia está baseada numa matriz energética que vem ao longo dos anos se desgastando por falta de manutenção e novos investimentos. Com isso, cria diversos colapsos e aumento da energia a cada semestre.

 A matriz de logística está baseada praticamente em estradas, que por sua vez também não recebe manutenções adequadas, adicionando o aumento dos derivados de petróleo em toda sua cadeia produtiva. O valor do frete se eleva a patamares nunca vistos.  Hoje se vive com uma grave crise econômica nacional que afeta todos os mercados, direta ou indiretamente. As empresas consumidoras de matéria prima florestal de bens de consumo interno refizeram suas programações e se readequaram ao mercado retraído, diminuindo a produção e fechando algumas linhas de produção temporariamente. Exceção o segmento de celulose para exportação. O preço da madeira em pé se fixou em patamares baixos sem um aumento real desde o início do ano passado.

A importância para o produtor como alternativa de renda. Ou renda básica?

Para os agricultores que pensam em plantar em áreas não aproveitáveis para a agricultura em sua propriedade, ele precisa antes de tudo verificar num raio de 100 quilômetros quais os possíveis consumidores desta madeira e que preços praticam nestas áreas. Equacionado isto, a floresta bem conduzida e cuidada funciona como uma poupança de longo prazo, protegendo o solo, ocupando a propriedade, fornecendo sombra para o gado. Se o preço de mercado no momento de corte não estiver atraente, pode-se aguardar mais algum tempo na espera de melhor ocasião sem que se perca a produtividade, podendo intervir fazendo alguns desbastes.

Para os grandes investidores com áreas maiores e com maior capacidade de investir em tecnologia de plantio e manutenção estes já amarram sua floresta a alguma empresa consumidora em contratos de longa duração, muitas vezes com recursos das próprias empresas, descontadas no momento da entrega. Outros simplesmente arrendam suas propriedades para estas empresas como é muito comum em Mato Grosso do Sul, São Paulo, Espírito Santo e Bahia.

Os gargalos

O gargalo atual é preço de mercado como dito anteriormente e os atravessadores que compram a madeira do pequeno produtor a valores muito inferiores aos praticados. Podemos informar também que muitos que plantam florestas pela primeira vez cometem o gravíssimo erro de não buscar orientação correta de profissionais que atuam neste ramo específico. Digo que são muitos detalhes que se não forem observados e praticados por profissional com larga experiência em silvicultura, vai ter prejuízo.

“Vejam as belíssimas florestas plantadas nas maiores empresas de celulose, papel, chapas, espalhadas pelo Brasil com diversas certificações por institutos e certificadoras internacionais. Somos graças a elas modelo de admiração e referência para o mundo todo. Ninguém no mundo produz madeira como produzimos, numa escala tão alta e de qualidade em tão pouco tempo, seguindo todas as exigências técnicas, trabalhistas, sociais e ambientais como nós a um custo muito baixo. Isto se chama eficiência”, expõe.

Floresta plantada tem suas limitações, adequações, influencias do clima, do solo, técnicas e muitas exigências. Só com uma grande diferença. Se errar, não vai poder consertar ano que vem na próxima safra, terá que amargar 5,6 ou sete anos de floresta ruim.

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