Brasil

Requiem para santa Zilda

Redação DM

Publicado em 27 de fevereiro de 2016 às 00:49 | Atualizado há 10 anos

Meu contato com ela se deu no início dos anos quarenta, quando vim da fazenda para estudar na sede do município, Bom Jesus, sede de Bispado (ainda não instalado), e também da Comarca.

Como na cidadezinha de dois mil habitantes não houvesse hotel nem pensão, padrino Nezinho (Manuel da Costa e Silva), com o apoio das duas filhas moças (Anita e Zilda) se dispuserem a fornecer refeições para o vigário e, também, para os alunos que provinham das fazendas do município. Uma delas, madrinha Anita, era, também, professora no Colégio Franklin Dória, único do município, sob a firme direção da profª  Maria Emília, esposa do médico da cidade, dr. Raimundo Martins de Souza Santos, único médico da Saúde Pública local.

Zilda não quis sair da cidade, para estudar, ao contrário de madrinha Anita e Nailda, que estudaram em Terezina, capital do Piauí, e voltaram para a cidade natal para lecionar no Grupo Escolar Franklin Dória.

Era uma moça muito bonita, estatura mediana, negros cabelos lisos caindo-lhe nos ombros roliços, grandes olhos negros de olhar profundo. Nossa diferença de idade era de, aproximadamente, cinco anos, ela já moça feita, eu apenas adolescente. Talvez por isso, e porque eu houvesse perdido aos 10 anos minha mãe, Zilda me cobria de muito carinho – abraços e  beijos que me deixavam encabulado, até porque seu irmão morria de inveja.

Por ser muito bonita, educada, polida e profundamente religiosa, Zilda era cobiçada pela nata dos rapazes mais bem postos e abastados. Mas ela resistiu quanto pôde. E somente se casou mais tarde, quando um viúvo rico da cidade,  lhe fez, insistentemene, a corte. E a tempo de conceber dois ou três filhos, dentre os quais Francisca Maria, a Zilda dos tempos de juventude.

Sempre que voltava a Bom Jesus, eu ia visitá-la e degustar de sua deliciosa Maria Izabel.

Em fins de 2015, chegou-me a notícia atroz – o falecimento de Zilda, de morte natural. Padre Solon Pinto Aragão, o pároco da paróquia, dizia – e essa confissão ele a fez a mim, no céu há um lugar reservado para Zilda. Pois se ela não for para lá, ninguém merecerá ir para o reino celestial.

Por certo, Zilda repousa, agora, no seio do Criador, o Senhor Bom Jesus, padroeiro de nossa bela cidade interiorana.

 

(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])

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