Brasil

A velha Maria Bonfim, matadeira de onça

Redação DM

Publicado em 26 de fevereiro de 2016 às 01:57 | Atualizado há 10 anos

Certos tipos, que às vezes nem conviveram com a gente por muito tempo, marcam-nos a vida através de passagens e até mesmo de notícias de situações que a gente ouve contar.
No sertão do Duro, existiu uma figura que se tornou lendária: a velha Maria Bonfim. Não que ela fosse feiticeira, que tivesse uma característica física ou intelectual muito diferente do sertanejo comum. Mas a velha Maria Bonfim tinha uma fama que os homens, com raríssimas exceções, não tinham: era uma caçadora de onças.
Morando – dizem – em terras de Coquelin Leal, na Fazenda Uberlândia, no sertão de Conceição do Tocantins, a velha Maria Bonfim acabou com a raça de onças dali, e contam que até a época em que a vi pela última vez, há mais de cinquenta anos, cerca de setenta onças pintadas (sem se falar nas lombo-preto e suçuaranas) já haviam morrido debaixo das cacetadas da valente velhinha.
Com meus 10 anos, mais ou menos, conheci a velha Bonfim comprando uma ferramenta lá na Loja Póvoa: preta retinta, corpo mediano aparentando miúdo, dentes alvos e perfeitos, ela entrou na Loja Póvoa com seu cambão de cachorrinhos magrelos, todos arranhados por cima das costelas expostas de magreza; segundo ela, eram unhadas de onça. Ela contou diversas passagens de sua valentia, com naturalidade de quem matava um carneiro num curral. E negou algumas histórias que lhe creditavam, di¬zendo que era invenção do povo, mas que na verdade ela havia matado umas setenta pintadas.
Meu pai contara que, certa vez, um senhor morador ali perto do Duro, “Seo” Anjinho, acuara uma onça num pé de puçá, mas a fera se apavorara diante da latumia dos cachorros e investia contra “Seo” Anjinho, que não teve remédio senão gritar por socorro, no que foi acudido pela velha Bonfim, que açulou os cachorrinhos magrelos em cima da bicha e amiudou-lhe o cacete no lombo, deixando-a estirada debaixo do puçazeiro. E nessa vez, perguntei à velha se ela já havia matado uma onça a cacetadas junto com o velho Anjinho, ela desmentiu:
– Junto com ele, não! Matei junto com meus cachorro, né? O véio correu e só voltô quando soube que a onça tava iscanchelada e morta! – e confirmou, tintim por tintim, a história que eu havia escutado de meu pai.
Tio Coquelin, em cujas terras a velha Bonfim morava, deu-lhe um dia de presente um vistoso rifle papo-amarelo de repetição, para ajudar nas caçadas de onça. Pois o rifle enferrujou-se num canto de sua choupana, porque ela dizia que não sabia “coisar aquele bichado” e que confiava mesmo era nos cachorros e no cacete.
Não lhe sei exatamente os métodos de matar onça. Dizendo ela, era biscando o cachorros em riba e amiudando o pau na besta-fera: só sei que quando acontecia de a bichana subir num pé-de-pau, ela encastoava a faquinha na ponta de uma vara e, a modo de chuço, matava a onça sangrando-a.
Há tempos, ouvi dizer que a velha Bonfim largara de mão caçada de onça, embora se sentisse em condições, porque certa vez, andando no piseiro de uma linha de caititus (pois ela não caçava apenas onça), quando se preparou para golpear um deles, o caititu – disse a velha – virou-se para ela e disse:
– O caititu maior vem aí atrás!
Ela tomou-se de verdadeiro assombro, largando ali no mato até a capanga com a muçuraca de pitadeira, abandonando de uma vez por todas a vida e a arte de caçar.
Dali em vante, nem onça, nem caititu, nem nada.
Era o fim da matadeira de onça, que assombrou o povo com sua coragice medonha e que se cansou de ganhar cortes de pano e libras de café, em troca da limpeza que fazia nas propriedades infestadas de onça comedeira de gado.

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado)

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