Brasil

Hobby

Redação DM

Publicado em 23 de fevereiro de 2016 às 02:30 | Atualizado há 10 anos

— Veja querida, que belo livrinho comprei.

E o colocou sobre a mesa. A esposa, lendo o título, exclamou:

— “Raio de Sol”. Ah, livro espírita! Que fanatismo, o seu!

— Querida, vamos passear?

— Aonde?

— Ao Lar da Criança.

— Deus me livre, querido… Como você é fanático!

— Querida, quer ir ao cinema comigo?

— Não.

— À casa de sua mãe?

— Não.

— Onde quer passear esta noite?

— A lugar nenhum.

— Bom, nesse caso, vou ao Centro Espírita.

— Fanático.

— Querida, aproveitarei o feriado de amanhã para ir à Brasília. Quer ir comigo?

— Que vamos fazer lá?

— Levar uma menina excepcional do Lar da Criança para uma consulta especial.

— Credo! Que fanatismo louco!

Dia festivo, naquela casa:

— Querido, beba um gole de uísque.

— Não posso.

— Até onde vai o seu fanatismo?

— Mas, querida, você sabe muito bem que, além de nunca ter gostado dessas bebidas, elas me fazem mal! Esqueceu-se disso?

— Maridinho fanático, credo!

Vocês já notaram que, quando procuramos melhorar, quando as nossas ideias não se casam com as da maioria, sempre nos tacham de fanáticos?

Mas, apesar de tudo, é bem melhor ser fanático —

por uma boa leitura,

por uma causa nobre,

por uma prece,

por um momento de paz, por um ato de caridade,

por uma vida reta,

por uma existência cheia de amor, por tudo, enfim, que enobrece os sentimentos e redime o espírito — do que ser

fanático por bebida,

por jogos de azar,

por entorpecentes,

por repouso indébito,

por falação inútil,

por espetáculos pornográficos,

por violência,

por fatuidades —

vocês não acham?

Esses hábitos, porém, não são fanatismo. Na linguagem deles tem outro nome: hobby.

E eles não são fanáticos. São apenas aficionados.

Há também uma classe de fanáticos que é a pior de todas: a dos fanáticos pela crítica.

Criticam todo esforço nobre dos outros, alcunhando suas virtudes de fanatismo, esquecidos, todavia, de que essa mania de falar dos outros sem fazer o que eles fazem, é um hobby bem deplorável que demonstra, também, muito despeito.

Quem não trabalha, atrapalha.

 

(Iron Junqueira é escritor.)


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