Economia

O Tio Sam está ficando vermelho!

Redação DM

Publicado em 22 de fevereiro de 2016 às 23:34 | Atualizado há 10 anos

Em 1970, o grande economista liberal John Kenneth Galbraith declarou que “o Partido Democrata deveria, daqui em diante, usar a palavra ‘socialismo´; ela descreve o que é necessário”. Como tantos outros, Galbraith não voltou ao assunto nos anos subsequentes.

O sucesso da campanha de Bernie Sanders recolocou a palavra “socialismo” bem posicionada no debate político dos EUA. O fato dele ameaçar o favoritismo de madame Hillary Clinton despertou em faixas largas da opinião pública americana um interesse nunca visto pelo Socialismo. Uma pesquisa de opinião pública apontou que mais de 40% dos americanos, com idade abaixo de 30 anos, têm simpatia pelo socialismo.

Mas antes, voltemos a Bernie Sanders. Trata-se de um senador pelo estado de Vermont, filiado ao Partido Democrata, que se declara socialista. Ele colocou seu nome na disputa presidencial, correndo contra Hillary Clinton pela nominação dos democratas para disputar contra o candidato republicano. A grande imprensa americana encarou a pretensão de Sanders com uma dessas coisas pitorescas que de vez em quando acontecem no país. Ninguém o levou a sério. Mas ele vem comendo pelas beiradas. Vem ganhando prévias em estados importantes. Já tem possibilidades reais de vencer a convenção democrata. Se vencer a convenção, poderá, também, ser o próximo presidente dos EUA. Um socialista na presidência dos EUA: será possível? Quais as consequências disso?

Sanders não é uma figura folclórica. O seu socialismo não é de mentirinha. Claro, ele não é nenhum bolchevique. Não está propondo sovietizar os Estados Unidos. Franklin Delando Rooselvet, o presidente do New Deal, é o seu grande ídolo. Mas já é o bastante para dar frio nas espinhas republicanas. Em l988, ele era apenas um jovem prefeito de Burlington, Vermont, quando o reverendo Jesse Jackson, negro, companheiro de lutas de Martin Luther King, disputou as prévias pelo Partido Democrata. Foi o primeiro negro a pleitear a presidência dos EUA. Um único político branco do PD o apoiou: Bernie Sanders. O prefeito de Burlington não só deu declarações favoráveis a Jackson como subiu em palanques, fez discursos se comprometendo até a medula com o candidato negro. Sanders ignorou conselhos de amigos para que não se envolvesse tanto. Isto poderia lhe custar a carreira. Não custou.

Em seu discurso aos convencionais democratas, Jackson, já sabendo que não venceria as prévias, profetizou: “I may not get there, but our children will”. “Posso não chegar lá, mas nossos filhos chegarão”. A campanha de Jesse Jackson abriu o caminho para que, anos depois, um negro se elegesse e se re-elegesse presidente dos EUA: Barack Obama. Pode ser que Sanders não chegue lá, mas pode estar abindo caminho para, no futuro, a esquerda chegar.

A pesquisa

The Nation é uma revista semanal americana com 150 de existência. Fecha seu balanço todo ano no prejuízo. Sobrevive graças a vendas em bancas, a assinaturas e a donativos. Foi nela que surgiu, nos anos 60, o chamado “new jornalism”, um novo conceito de jornalismo que mudou radicalmente os paradigmas da imprensa em todo o mundo. Thomas Hunter e Norman Mayler foram repórteres da Nation.

Na edição da última semana, The Nation publicou uma pesquisa de opinião pública realizada pela YouGov Poll. O instituto de pesquisa levantou que quase metade da juventude americana tem simpatias pelo socialismo, palavra há pouco tempo proibida nos meios políticos de lá, verdadeiro tabu, excentricidade tolerada apenas em homenagem aos princípios democráticos que regem o país. Pois o que era coisa de maluco agora passa a ser vista com bons olhos.

A questão a ser resolvida pelos sociólogos, pelos politólogos e por outros sabichões é se a atual popularidade do socialismo nos EUA é efeito da onda Sanders, ou se o sucesso de Sanders se deve à crescente simpatia pelo socialismo.

Segundo a pesquisa, entre os negros a simpatia subiu de 21 a 45% em relação a última pesquisa sobre o tema. Pena The Nation não informar quando foi feito o último levantamento. Mas uma pesquisa de 2011, da Pew Research Center, apontou que 49% dos jovens entrevistados tinham uma atitude simpática pelo socialismo. O defeito da pesquisa é que não indica a idade dos entrevistados e omite a percentagem de indecisos.

O fato é que o socialismo é uma ideia que vai cada vez mais ganhando adeptos nos EUA. Mas, que socialismo é este? De um modo geral, a maioria dos simpatizantes do socialismo lá têm uma vaga ideia do que seja o negócio. Eles tomam por socialismo o oposto das práticas políticas vigentes nos EUA. Segundo explica The Nation, a fonte mais óbvia da virada de mão é o fracasso da abordagem tradicional dos mais urgentes problemas do país: desigualdade crescente, pobreza, insegurança econômica, aquecimento global, guerra perpétua, a degradação e a violência crescente verificada nas comunidades negras.

The Nation chama a atenção, ainda, para a crescente concentração de renda e a cada vez mais intensa exploração política da riqueza, o que confere às elites direitistas e às grandes corporações um poder cada vez maior. A crescente insatisfação com o status quo cria um clima receptivo a propostas de mudanças radicais. Mas, como adverte The Nation, este clima de insatisfação pode se converter em indiferença e cinismo se alternativas claras não forem apresentadas. Com isto em mente, como poderia ser construída uma alternativa prática e viável ao atual sistema? Eis aí o desafio lançado aos políticos socialistas, a Sanders em particular. Qual seria a cara do socialismo do século 21 na América?

Propriedade

The Nation chama a atenção para um ponto central: o da propriedade privada. O núcleo tradicional do argumento socialista é a democratização da riqueza nacional, ou o que Marx chamava de “meios de produção”. Mas a questão da propriedade tem sido raramente mencionada no debate político. A tradicional ideia socialista de uma “indústria nacionalizada” está além do horizonte político atual, e mesmo a vasta maioria de políticos progressistas têm evitado discutir alternativas ao modelo socialista estatizante.

“A despeito de sua autodefinição como socialista democrático, Sanders vem propondo um programa cujo viés, em essência, é fortemente liberal ou social-democrata”, observa The Nation. Impostos progressivos, regulamentação do mercado financeiro, plano de saúde individual, seguridade social, programas de renda mínima e regulamentação ambiental são os pontos de destaque da plataforma de Sanders. Nada que não seja novidade há décadas na Europa e que no Brasil tem sido defendido até por políticos que se dizem conservadores ( pero no mucho). Embora ele apoie a ideia de autogestão, não é favorável a estatização de certos setores da economia. O grande diferencial em relação a todos os candidatos é sua política externa. É um aprofundamento da política de Obama: multilateralismo, fim das guerras, diplomacia em vez de canhões, não intervenção em assuntos internos de outros países. Se para a maioria dos políticos americanos o uso da força é a primeira opção, para Sanders é o último recurso.

Ao mesmo tempo, novas possibilidades econômicas vão surgindo no país. Novos recursos vão se colocando à disposição dos que propõem a construção de alternativas sérias ao sistema. Alternativas “socialistas” em visão e conteúdo, mas altamente democráticas e estruturalmente viáveis, que são determinadas pela crescente desilusão dos americanos com as estratégias tradicionais.

Nos últimos anos, novas formas de empreendimentos apareceram, com viés altamente democrático. Cooperativas de trabalhadores, empresas de vizinhos, corporações municipais e outras formas negociais opostas ao tradicional padrão monárquico da empresa privada ganham terreno e significação econômica. Um fenômeno chamado “Nova Economia”, surgindo de baixo para cima e em franca oposição ao conceito neoliberal de “small goverment”. Um estatismo de tipo novo, municipalista, pode estar na base desta mudança de comportamento político. Talvez o sonho não tenha acabado, afinal.


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