Brasil

Macri, mais um não peronista no poder

Redação DM

Publicado em 19 de fevereiro de 2016 às 23:46 | Atualizado há 10 anos

Na Argentina, falar sobre esquerda e direita fica em segundo plano. É muito mais importante falar sobre peronismo e não peronismo, uma vez que todos os presidentes não peronistas não conseguiram terminar mandato.

Segundo o cientista político argentino Andrés Malamud, a ideologia por trás do peronismo pouco importa: “O peronismo já foi de direita com Carlos Menem e de esquerda com os Kirchner.”

Foram quatro presidentes não peronistas democraticamente eleitos: Arturo Frondizi e Arturo Illia, derrubados por golpe militar em 1962 e 1966, respectivamente, além de Raúl Alfonsín (1989) e Fernando de la Rúa (2001), que renunciaram. Este último sendo obrigado a sair da Casa Rosada de helicóptero.

Dois motivos principais desencadeiam este fenômeno: crise econômica e minoria no congresso. Maurício Macri, recém-eleito presidente, não é peronista, não tem maioria no congresso e a Argentina não vai bem economicamente.

Na verdade, o congresso está equilibrado, haja vista que o Partido Justicialista (PJ; Peronistas) se dividiu e o partido de Macri, Propuesta Republicana (PRO), se aliou à Unión Cívica Radical (UCR) – um partido filiado à Internacional Socialista –, para formar o bloco Cambiemos, da qual o partido CC-ARI também faz parte. No âmbito executivo, a aliança permanece. Dos 20 ministros, quatro são da UCR.

No que tange à economia, Macri atraiu investidores internacionais à Argentina ao tomar medidas importantes, como o fim do controle cambial, retiradas de impostos para exportações e abolição das barreiras protecionistas para importação. Para o Brasil, principal parceiro econômico da Argentina, é vantajoso.

Com isso, preços aumentaram e o peso argentino se desvalorizou, consequências que já eram esperadas. 1kg de carne custava 70 pesos em 2015 e hoje custa 120. Economistas fazem uma projeção de no mínimo dois anos para que a economia argentina se normalize.

Além disso, Macri é popular. Foi presidente do Boca Juniors, clube de futebol com maior torcida no país, de 1995 a 2007, deputado federal por Buenos Aires por dois anos e prefeito da capital por mais oito.

Para ganhar cada vez mais popularidade, o presidente vem adotando posturas como viajar em avião civil para participar do Fórum Mundial Econômico na Suíça (e postar as passagens em redes sociais), anunciar que só será atendido em hospital público e interromper suas férias para visitar regiões inundadas pelas fortes chuvas.

Em suma, Macri tem tudo para ser o primeiro não peronista a terminar mandato. Entretanto, nem tudo são flores. Seu governo é criticado por oprimir opositores. O caso mais emblemático é o da ativista indígena Milagro Sala, fundadora da organização Tupac Amaru e acusada, mas ainda não condenada, de corrupção e enriquecimento ilícito durante o governo de Cristina Kirchner, a quem é muito próxima.

A prisão de Milagro se deu por estar supostamente incitando a violência através de protestos sociais. Basicamente, é uma presa política em uma democracia. Até o Papa Francisco, com quem Macri se encontrará no fim de fevereiro, pede a sua libertação. O tema, inclusive, deverá ser um dos principais da pauta do encontro.

 

(Marcelo Mariano, acadêmico de Relações Internacionais da PUC Goiás – marianomarcelo.net)

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