Brasil

Por uma Revolução Colorida em Goiás

Redação DM

Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 22:55 | Atualizado há 10 anos

O episódio mais extraordinário a demonstrar a surpreendente capacidade de reação social é a ocupação das escolas estaduais pelos estudantes secundaristas, tendo tido maior repercussão nos estados de São Paulo e Goiás. Lamentavelmente, a mídia subserviente das verbas de publicidade estatal logo apressou-se em difundir o discurso dos governos, rotulando os estudantes de “desordeiros”, “vândalos”, “associação criminosa” ou que estavam agindo por “motivação político-partidária”. É possível que algum partido político oportunista tenha procurado obter algum dividendo eleitoreiro, mas o movimento surgiu da vontade, da consciência e da capacidade de reação e mobilização dos estudantes. E, enfatize-se, “marginais” são aqueles que pensam que podem tomar decisões tão importantes e de tão grande afetação no corpo social, como o fazem com a educação, de forma arbitrária, sem demonstrar disposição para o diálogo democrático, tanto com os alunos e professores, quanto com os diversos segmentos sociais e entidades representativas; marginais são a pandilha que se mobiliza para tomar a posse das instituições públicas para proveito pessoal, em despiciendo desprezo do bem coletivo e malversação dos recursos públicos; marginais são aqueles que tomam o Estado, um ente público, transformando-o em uma espécie de empresa privada;  marginais são os saqueadores tanto das riquezas quanto das esperanças de que é possível acreditar e construir uma sociedade ética, que preze pelo bem comum, onde a delinquência organizada não se apodere das instituições públicas em sua sanha obsessiva de enriquecimento sem causa; marginais são os cínicos que tentam passar a ideia de que são pessoas íntegras utilizando-se do expediente sórdido de eleger uma clientela do sistema punitivo para desviar a atenção da população para a gravidade dos atos praticados pelos verdadeiramente perigosos bandidos; marginais são os tiranos que tentam cessar a liberdade de expressão, de manifestação e criminalizam os movimentos sociais.

O motivo da irresignação dos estudantes em Goiás apresenta-se como o mais relevante e pertinente, em razão da gravíssima perniciosidade camuflada no desiderato do governo estadual e de suas deploráveis consequências. O governo zomba da inteligência da população chamando de “organização social” o que, em verdade, é uma organização financeira de interesse privado, sem qualquer correlação com o “social”, nem com os interesses públicos. Sem dialogar com a comunidade estudantil, professores, pais de alunos e entidades, como sindicatos e Ordem dos Advogados do Brasil (a atual secretária de Educação recusou-se a comparecer em audiência pública realizada por esta instituição para discutir com a sociedade sobre a privatização do ensino), o governo, retirando o papel da democracia participativa entre alunos e professores, na escolha de sua diretoria, impõe a transferência das gestões do ensino público à iniciativa privada, visando aos interesses financeiros de um grupo, sem qualquer compromisso com a qualidade da educação, a exemplo do que vem ocorrendo com a saúde, em Goiás e em outros Estados.

A reação dos estudantes secundaristas demostra que ainda é possível acreditar que o jovem brasileiro é capaz de despertar dessa letargia que tanto tem prejudicado a formação cívica de nossa sociedade. Nesses tempos de marasmo mental, propiciando o surgimento e permanência de uma classe política que já atingiu o ápice da degradação moral e a absoluta falência de um modelo político que representa apenas os interesses de uma plutocracia corrupta e degradada, a juventude é adestrada para não agir, para não reagir, para não pensar. Ela é programada para dizer sim, para obedecer, para consumir. Aqueles jovens que destoam das doutrinas estabelecidas são rotulados de vândalos, desordeiros, marginais. O sistema estadual de ensino está sendo transformado em uma máquina ideologicamente programada para fazer da escola pública um ambiente alienante, no qual o jovem seja convertido em um ser servil, não em cidadão consciente. A mercantilização do ensino, transferindo-o aos interesses de grupos, como mera atividade econômica, traduz o empenho do governo estadual em retirar do ambiente escolar o espaço próprio para a emancipação libertária do ser humano, tolhendo-o de desempenhar a sua capacidade crítica, transformadora, reduzindo-o em mero séquito de um sistema perverso e opressor, condizente com um governo que sabe que seria alijado da vida política caso a sociedade fosse constituída, em sua maioria, por pessoas instruídas, esclarecidas, lúcidas. O movimento dos estudantes secundaristas em Goiás, por ter surgido como reação contra as práticas nefastas de um governo que imaginava ter a posse mansa e pacífica dos corações e mentes de toda uma sociedade, guarda semelhança com a beleza dos movimentos eclodidos em diversas partes do mundo, conhecido como “Revolução das Cores”. Na Geórgia, em 2003, houve a Revolução Rosa, quando a população derrubou um governo eleito fraudulentamente e impôs a realização de novas eleições; Na Ucrânia, em 2001, a Revolução Laranja, também contra o resultado da eleição presidencial; No Quirquistão, a Revolução das Tulipas, com forte base popular. Todas essas revoluções caracterizaram-se pelo rompimento com o domínio ou interferência da Rússia, considerando que são ex-colônias da antiga União Soviética. No âmbito do Oriente Médio houve, também, episódios de levante popular, considerados como “revoluções coloridas”. No Líbano, na Revolução dos Cedros, os manifestantes usaram as cores vermelha e branca, as mesmas da bandeira daquele país. Os protestos forçaram a retirada de tropas sírias, depois de quase trinta anos de presença em território libanês. No Kuwait, houve a Revolução Azul, no qual o povo exigiu e conseguiu garantir às mulheres o direito de votar. Mais próximos de nós, os estudantes chilenos protestaram contra um sistema de ensino excludente, segregacionista, acessível apenas a quem pode pagar, herança do governo do ditador Augusto Pinochet, e conseguiram garantir o ensino público e universal. Na Espanha, a união de estudantes e pessoas de diversos segmentos sociais, tendo também a junção da diversidade de cores, fez surgir o Podemos, um partido de alternativa ao modelo esgotado, no qual se revezam velhas ratazanas políticas, caricaturas abomináveis de um sistema corroído e esgotado em todos os níveis, principalmente moral.

Um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade, a Revolução Francesa, adotou em sua bandeira as cores azul, branca e vermelha, simbolizando a junção dos diversos grupos franceses contra o despotismo monárquico do Antigo Regime, representando, respectivamente, a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

O fenômeno das cores é interessante e surpreendente. A luz do Sol é composta por uma variedade enorme de cores, a maioria invisível aos olhos humanos. Mas elas existem. As múltiplas cores assemelham-se aos jovens manifestantes. É preciso um acontecimento para que se tornem notáveis e extraordinariamente belos, como um pulsar da condição humana. Algumas cores são visíveis através do arco-íris, que ocorre com a dispersão da luz do Sol que sofre refração pelas gotas da chuva. Os estudantes secundaristas são essas múltiplas cores. Isoladamente, são invisíveis, mas, juntos, formam um cristal refratário, revelando-se extraordinariamente belos, de todas as cores que projetam a consciência cívica, do potencial humano, do espírito revolucionário, engajados na construção da verdadeira democracia. Ao associarem-se para protestarem contra a mercantilização do ensino público, demonstram a vivacidade das cores, a representatividade da união e dos ideais coletivos, despertando a fé na possibilidade de se construir uma sociedade alicerçada na igualdade, na liberdade e na fraternidade.

 

(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista – [email protected])

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