Lembranças dos tempos de escola – Parte XXXV
Redação DM
Publicado em 12 de fevereiro de 2016 às 23:37 | Atualizado há 10 anos
Quando eu ia caminhar, às vezes, Maick ia comigo, outrora eu procurava um meio de ir sozinho, não que eu estivesse evitando alguém, mas para refletir, pois desde cedo aprendi que o silêncio é a oração dos sábios, aprendi essa oração, mas vivo me perguntando se algum dia serei sábio. Só sei que o silêncio é uma chave-mestra que abrem as portas que guardam as respostas para todas as incertezas.
Eu saía da cidade em direção às montanhas, seguindo a estrada asfaltada, às vezes eu saía fora dela e embrenhava floresta adentro para ouvir o canto dos pássaros, o barulho das cascatas e o cheiro da relva, sentir o aroma da natureza. Ao chegar às montanhas eu me sentava numas pedras e ali, por muitas horas eu pensava, refletia sobre a vida, analisava meus comportamentos, atos e atitudes, me perguntava se o que eu estava fazendo valia a pena, procurava saber se eu estava maltratando alguém e, se tivesse o que fazer para pedir perdão. Ali eu ficava contemplando a natureza, deitava o meu corpo no forro de folhas, olhava infinitamente para o Universo, observavam o vôo dos pássaros, e fazia oração em agradecimento a tudo que a mim foi outorgado, não coisas materiais, e sim espirituais. Para aquele mundo ao meu redor, eu contava os meus problemas, desfaziam das minhas tensões, meus rancores, lamentos e descarregavam as energias negativas e, em troca, recebia vibrações positivas, pujança. Depois de muito tempo, quando notava o céu ensanguentado pelo crepúsculo suspenso no último sol, a tarde ameaçando a se entregar à noite e o dia desfazer-se nas serras wanderleenses cor de pérola navalhada eu voltava para casa, leve como um pássaro no ar, com a consciência tranquila, a alma transparente e o coração feliz. Aquele lugar para mim era como se fosse uma válvula de escape, um templo, um lugar sagrado, uma fonte de renovação. Foi ali que finquei a bandeira da conquista, construí o meu castelo de sonhos, transformei-o em meu trono, em meu reino. Aquelas montanhas era o meu feudo. Ali eu entrava profano e saía sagrado, curado das minhas mágoas, dores, dos meus medos e tormentos. Quando eu me sentia triste e ia lá, de volta eu tinha disposição para tudo, felicidade, harmonia e uma fonte de prazer espiritual.
Aquele era o meu lugar de ficar só, mas tinha outro lugar que eu gostava muito de ir com os meus amigos. Era uma gruta que ficava afastada da cidade a cerca de oito quilômetros. Um lugar que antes era naturalmente preservado e deslumbrante, capaz de despertar a atenção de qualquer amante da natureza! Em outras épocas ela já tinha sido a principal atração turística para o povo daquela cidade e outros visitantes, agora muito pouco frequentada. Até hoje ainda me lembro da primeira vez que eu fui lá. Eu era muito pequeno ainda, tinha cerca de sete ou oito anos. Parecia está indo ao infinito, talvez pela falta de noção de distância. Minha irmã Talita e meu irmão Chicão me levaram lá, só hoje me dou conta de que já estive no paraíso. Mas, tempos depois, a ação do homem o destruiu e causou muitos danos, mesmo assim, para mim ela ainda continuava perfeita. Era constituída por formações rochosas, que ficava com uma parede de cerca de 30 metros de altura, embaixo, água cristalina minava de debaixo das pedras, das rochas por um estreito canal, descia entre as árvores e em cascatas, formando uma linda lagoa onde os raios solares reluziam quando em contato. Do lado oposto ficava a porta de entrada, e lá dentro existiam diversos salões ligeiramente escurecidos, sombrios, frios e calmos.
Lá eu não ia sozinho, sempre que eu ia era acompanhado por diversas pessoas, pois apesar de ser um lugar muito bonito, era também muito perigoso. Certa vez quando eu ainda morava em fazenda, fiquei sabendo que um ser humano morreu lá! Ao tentar colocar um objeto para deixar de lembrança foi prensado por uma pedra, a qual lhe arrancou a vida!
(Gilson Vasco, escritor)