Brasil

Rumo dos indignados

Redação DM

Publicado em 10 de fevereiro de 2016 às 22:30 | Atualizado há 10 anos

Pouco importando as diferenças e semelhanças entre os movimentos político-sociais, ocorridos no Brasil entre 2013 e 2016, há só dois anos e meio portanto, o certo é que continuam acontecendo, sendo curioso poder dizer que os que ocorreram em junho de 2013, nas devidas proporções, ocorreram só em janeiro de 2016, tendo como uma das semelhanças, justamente os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus, Brasil afora, destacado por São Paulo. Aí onde os protestos ainda são convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL) e ainda são reprimidos pela polícia de São Paulo fora de qualquer proporção; segundo o articulista Celso Rocha de Barros, no artigo “Junho em janeiro”, Folha de São Paulo, A6 poder, segunda-feira, 18 de janeiro de 2016, ainda contando com os Black blocs, os Femen da testosterona, como figurantes e geradores de capas de jornal.

Como sabemos, nos últimos dois anos, intensamente polêmicos, com certeza reduziram e até desapareceram as propostas de vinculações de verbas, certas gratuidades, alguns direitos que não são garantidos nem mesmo nos mais avançados Estados de bem-estar social europeus. A economia piorou acentuadamente, não valendo as várias tentativas do governo da presidente Dilma Rousseff de manter o crescimento anterior, custasse o que custasse, se não bastasse o fator externo da desaceleração chinesa, alcançando países emergentes como um todo, onde o Brasil é um dos mais prejudicados, inclusive com o inoportuno pedido de impeachment, cuja eficácia certamente só pioraria a nação, não se podendo esquecer, à guisa de ilustrar, que o fenômeno ocorrido em 2013 teria sido uma oportunidade, como diz o autor citado, de forçar uma “virada à esquerda” no governo do PT, fato que, por certo, não maculará o seu futuro, não raro o fortíssimo cerco ou vale tudo contra o governo, sobretudo o vibrante Luiz Inácio Lula da Silva, osso duro de roer ou espécime de esfinge inusitada que o retardamento ou racismo da oposição não consegue entender, assim como não entendeu os reais significados das palavras indignação e coragem, filhas da esperança, escritas por Santo Agostinho.

Celso Rocha de Barros indaga: qual a probabilidade dos movimentos de 2016 funcionarem como os de 2013, como catalizadores de ansiedades maiores, agregadores de pautas muito mais amplas? Embora sejam imprevisíveis os movimentos de massa, há duas diferenças importantes entre os dois cenários: as expectativas baixaram muito e os movimentos que pegaram carona em 2013 agora têm suas próprias passeatas. Vale dizer: em 2013 não deixava dúvida o entusiasmo dos anos de ouro vindos do que se chama Lulismo, gerando expectativas de que o país estava muito perto de se tornar desenvolvido. A sociedade protestava justamente contra a interrupção dessa decolagem, supondo que o desenvolvimento voltaria rápido, o que não aconteceu, justificando a acentuada indignação de nossos dias, intensificada pela forte propagação dos meios de comunicação de massa, dominados pela oposição política econômica neoliberal da direita raivosa, insana, odiosa desde o jardim do Éden e o primeiro crime, quando Caim, por inveja, produtora de ódio, matou seu irmão Abel; racista, sobretudo em âmbito das classes sociais, onde Lula da Silva e o PT são os mais visados, os demônios ou gênios do mal, notando-se que a oposição não é mais contra as idéias ou a ideologia de um partido Político, de toda forma quer extirpá-los, pouco importando sua biografia e importância histórica na vida do País.

Vejam que sem esse esforço inusitado dos indignados, por certo, o STF não mandaria deputados e senadores, no mais pleno exercício do mandato, para a cadeia, onde estão trancafiados, surpreendendo todos os meios de comunicação! O Senado não endureceria pena de corrupto e a corrupção não seria crime hediondo. A não aceitação da PEC-37, da Câmara dos Deputados, não seria uma vitória do povo. A vergonha do “Cura Gay” não seria o alvo de novos protestos, revelando o absurdo que seria ter o sexo como doença. Não haveria reuniões de emergência. O “passe livre” estudantil não estaria sendo unificado. A oposição, mesmo tendo o assunto como propaganda eleitoral gratuita, apesar de insolente e arrogante, também está sem bússola e tem que ser outra. Menos truculenta, pra entender o que realmente significa a liderança de Lula. Segundo o economista e cientista político Ângelo Cavalcante, Lula é “o principal líder político dos pobres do Brasil”; é o “nosso enigma político bem ao estilo daquele lançado pela Esfinge contra o príncipe ‘Edipo nos umbrais de Tebas’”: “Decifra-me ou te devoro.” Numa entrevista no outrora importante programa “Roda Viva” da TV Cultura (São Paulo), o sociólogo e professor emérito da Universidade de São Paulo (Usp), Francisco de Oliveira, decerto não emendaria: “Vocês não entendem o Lula!”

Com esse Lula como o mais indignado dos indignados, o mais destemido e ousado, sem deixar de ser a maior vítima do “vale tudo”, sem dúvida o Brasil está sendo obrigado a acordar mais democrático. Mais republicano, mais viril, notando-se que o povo é outro, os deputados e senadores tem que ser diferentes, nenhum acima da lei. Os ministros, do governo e dos tribunais, idem, nunca se tendo visto tanto graúdo no xilindró. A presidente Dilma certamente não proporia pacto nacional. Prometeria e ouviria a voz das ruas. Criaria gabinete de crise. Sugeriria plebiscito para reformar a política, indicando novas medidas a serem tomadas. Assim, estas conquistas inaugurais, decorrem tão somente da pressão social, do grito de protesto dos indignados, às vezes desiludidos, não podendo omitir a marcha das mulheres negras, vítimas de violento racismo, contudo mostrando que já há uma nova estratégia política buscando a cidadania, um novo Brasil na trilha de novos rumos, conquistando assim sua primeira vitória.

 

(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, Ubego, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM – [email protected])

 

 

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