O ingrato
Redação DM
Publicado em 6 de fevereiro de 2016 às 00:03 | Atualizado há 10 anos
O ébrio estava tombado na calçada quando um seu amigo, sinceramente compadecido por tanto sofrimento, o recolheu da imundície e do abandono a que se via relegado e o conduziu para um sanatório, a fim de submetê-lo a sério tratamento de saúde às suas próprias expensas, pois era imenso o seu desejo de vê-lo perfeitamente curado.
Tão logo o entregou a prestimosos enfermeiros, escutou dele sérias ameaças a que não deu nenhuma importância, por sabê-lo gravemente enfermo e profundamente abalado nas faculdades mentais.
– Você verá, miserável. Dizia o doente, encolerizado. Porei um termo em sua vida, tão logo saia deste hospital!
O benfeitor se retirou intimamente confortado pelo grande bem que fizera espontânea e sinceramente, guardando esperanças de melhoras para o amigo.
Algum tempo se passou e o paciente recebeu alta, tendo sido levado pelo abnegado companheiro a passar alguns dias em sua própria casa, até que sua vida melhorasse, tomando rumo seguro e bem orientado.
– Sente-se aí – disse-lhe o amigo – enquanto peço a minha mulher preparar-lhe algo para beber.
Ao virar as costas para o protegido, este retirou de sob a camisa um punhal que havia conseguido não se sabe como, e erguendo o braço para golpeá-lo, foi impedido pelo grito de uma criança que entrava ali, vinda dos compartimentos internos:
– Não, papai!
O agressor olhou para a menina e reconheceu, nela, a sua própria filha.
– Tânia? Baixou o braço e pendeu a cabeça, envergonhado. Sentou-se na poltrona e, esmorecido pela surpresa, perguntou:
– Que faz aqui, minha filha?
Como a menina não podia responder, dominada que estava de pranto e estupor, o chefe da casa respondeu por ela.
– Então você não sabe? Três meses antes de levá-lo para o hospital, seus quatro filhinhos estavam dormindo famintos e seminus sob a marquise da estação e, vendo-os ali, doentes e abandonados, não pude ficar sem ampará-los…
Minutos após, os quatro filhinhos do homem o ladeavam muito triste. E ele os fitava transtornados e infelizes, neles divisando os resultados da generosidade alheia, pois os filhos agora estavam bem cuidados e sadios, felicitados pela fraterna acolhida. Ergueu o olhar com toda aquela humildade dos arrependidos e, ao fitar o amigo que o amparava, nele descobriu um olhar compreensivo e uma expressão sincera de quem o perdoava.
Compreenda o ingrato e o perdoe hoje e sempre. Ele agora está cego e vive em treva interior. O grande bem que promana de você é luz que um dia abrirá os olhos dele.
Não espere compreensão do ingrato. Deus lhe compreenderá por ele. E só isso basta como recompensa.
(Iron Junqueira, escritor)