Brasil

Organizações Sociais mostrem a sua cara

Redação DM

Publicado em 5 de fevereiro de 2016 às 00:36 | Atualizado há 10 anos

No último dia 28 de janeiro, a titular da pasta da Secretaria de Educação Cultura e Esportes – Seduce – esteve em Anápolis. A professora Raquel Teixeira veio participar da audiência pública determinada pela justiça. Aliás, en passant cabe citar ipis litteris um trecho do despacho do juiz de Direito Carlos Eduardo Rodrigues de Souza:

“Prova maior de que o Estado de Goiás vem conduzindo o processo de transferência de gestão sem inclusão efetiva de alunos e professores na iniciativa, aliás, reside no fato de que, somente recentemente em 07/12/2015, ou seja, faltando apenas 24 (vinte e quatro) dias para o início do projeto piloto, conforme previu o Decreto nº 8469/15, o governador do Estado editou o Despacho 596/15 no curso do Processo Administrativo 201500006020341…”

A audiência, de certa forma, me fez lembrar o poeta Cazuza: “Não me convidaram para esta festa pobre que eles armaram para me convencer.” Com sua lírica belíssima, ele consegue sintetizar o que foi aquela sessão para inglês. Em 1807 a Inglaterra aboliu o tráfico negreiro. Grande potência na época, o país exigia que o Brasil criasse uma lei que proibisse o tráfico negreiro em seus portos. Como País era altamente dependente das mãos escravas, o governo regencial criou em 1831 uma lei que declarava livre todos os africanos desembarcados no país, mas a tal lei era de mentira. Sem eficácia. Os portugueses conseguiram seu intento, e ainda continuaram com o tráfico negreiro. Dizem que o regente Feijó havia criado uma lei pra inglês ver.

A professora Raquel Teixeira, descarregou sua vulgata neoliberal na famigerada audiência para defender as organizações sociais no Estado de Goiás. Ela citou leis, artigos, parágrafos e abandou a tática do convencimento pelo debate das ideias e agora se agarra no ideal do legalismo. Repetiu várias vezes nas suas falas: as OS’s são legais, existe a lei que garante as OS’s. Fico com a fala de um dos componentes no debate. A lei diz que pode, mas não obriga, professora Raquel.

A opção para terceirizar a educação em Goiás é política. Isso mesmo, caro leitor. O mesmo governo que tenta confundir as pessoas com propagandas enganosas nos meios de comunicação, dizendo que a resistência ao projeto das OS’s é patrocinada por partidos de oposição e sindicatos, no caso o Sintego, é o que esconde da população goiana o principal motivo para implantar o nefasto projeto: O motivo é político, estúpido!

“O filho do pobre vai estudar na mesma escola do filho do rico”, é com esta frase que causaria inveja a um Martin Lutherking ou um William Sheaskeapeare, ou até mesmo um folclórico Odorico Paraguaçu, da obra clássica de Jorge Amado, que o governo de Marconi quer convencer você, que não está entregando a chave do cofre para o ladrão ou para os ladrões.

Nem mesmo os piores sofistas da Grécia antiga poderiam pensar numa frase tão ridícula quanto falaciosa. A frase escatológica cria a falsa ideia de que tudo que o rico tem é bom e logo o que o pobre tem não presta. É a falácia clássica de que o que é privado funciona e o que é publico é inoperante.

Para um governo que não consegue honrar suas obrigações salariais com os servidores, Goiás tem gastado muito com propaganda em todos os meios de comunicação do estado. Com inserções em horário nobre da televisão, fica a pergunta: Por que não deixar de mentir na TV, tentando enxugar gelo, e usar os milhões gastos em propaganda para pagar os servidores públicos?

“Solitudinem faciunt pacem appellant” Tacitus

Criam a desolação e chamam-na de paz. É isso que Marconi/Raquel estão fazendo. Por trás do discurso benfazejo há em curso um desmonte da escola pública, e um ataque nada velado à carreira docente. Afinal, se há tantos contratos temporários na educação do estado por que não há o concurso para docentes? Situação pior vive os servidores administrativos, há mais de 17 anos sem concurso. Ou seja, Marconi e seu grupo político nunca fizeram concurso para o administrativo da educação. Verdade seja dita: o Governo de Goiás nos últimos anos vem sucateando o ensino no estado.

 

Estado de exceção

Aliás, “chamem o ladrão”! Na sexta-feira (29/01), numa ocupação na cidade de Anápolis, alguns jagunços, a mando de um certo coronel, apontaram armas para cabeça de pessoas que estão há mais de um mês defendendo a educação pública com gestão pública. Vivemos sem dúvida um estado de exceção. Pessoas armadas, civis em carros descaracterizados e sem placas estão “tocando o terror em Goiás” amedrontando, perseguindo e oprimindo estudantes e apoiadores do movimento das ocupações. Pode isso, Arnaldo?

Essa polícia política não está ali para ferir ninguém. Está fazendo o sujo serviço da pressão psicológica. Alguém sabe quem foi Willian Linch? Foi o maligno feitor das Índias Ocidentais. Os feitores de escravos da colônia de Virginia estavam com dificuldades para controlar seus negros, então chamaram o senhor Linch para ensinar seus métodos. O termo linchamento veio de seu sobrenome. Seus métodos eram simples, mas eram diabólicos: manter o escravo fisicamente forte, entretanto psicologicamente fraco e dependente do seu feitor: Liberte o corpo e domine a mente. É isso que eles tentam, em vão, fazer com os ocupantes. Mas…

#Não tem arrego, você tira minha escola e eu tiro seu sossego!

Satiagraha. Gandhi utilizou esse conceito do idioma Sânscrito, que significa “verdade e justiça”, para sua luta contra o reino da Inglaterra, inaugurando uma nova forma de protesto. Em 1919, na Índia, 20 mil pessoas se reuniram em Amritsar, em oposição à tirania da coroa britânica. O general Reginald Dyer, os encurralou num pátio e ordenou que suas tropas disparassem na multidão por 10 minutos, entre 380 e 1.000 pessoas morreram homens, mulheres e crianças abatidas a sangue frio, naquele que ficou conhecido como o massacre de Amritsar. O cel. Dyer disse que ensinou uma lição moral a eles. Gandhi e seus seguidores responderam não com violência, mas com uma campanha organizada de não cooperação. Os prédios do governo foram ocupados; as ruas eram ocupadas por pessoas que não se levantavam, mesmo espancadas pela polícia.

Gandhi foi preso, mas os britânicos foram obrigados à soltá-lo. Ele chamou isso de uma vitória moral. A definição de moral é a lição de Dyer ou a vitória de Gandhi? Você decide.

Os estudantes ocupam escolas contra a vontade inexplicável do governo de entregar o patrimônio público para empresários. Para eles, OS’s e Governo, a vitória será a qualquer custo. Mesmo que a justiça retire os alunos, eles resistiram, em minha opinião, à vitória moral já é deles. Mesmo que as OS’s consigam seu intento.

Anteu era um lutador gigantesco, na mitologia grega. A sua mãe era Geia, a deusa da terra, e seu pai era Poseidon, deus dos mares. Ele era invencível porque quando alguém o jogava no chão ele ficava mais forte. Exatamente isso, a derrota pode tornar as pessoas mais fortes. É o que se observa com o movimento dos estudantes contras as OS’s na educação. Mesmo diante de pedidos de reintegração de posse; recrudescimento por parte do governo; não compreensão por parte de poucos alunos, o movimento tem ficado mais forte. Assim como Anteu.

Por fim não são as maiorias que decidem o que é certo ou errado. É sua consciência quem decide. Então, por que um cidadão deveria render sua consciência a um legislador? Como se aquela lei fosse natural, vontade de algum deus ou direito inquestionável. Não, não devemos jamais nos ajoelhar diante a tirania de um ditador.

Santo Agostino diz: “Uma lei injusta não é lei alguma.” E, portanto, eles têm o direito, mesmo o dever de resistir, com violência ou desobediência civil. Rezem para que eles escolham a última. #OS’sNão

 

(Edergênio Vieira, poeta e educador na Rede Municipal de Ensino em Anápolis – @edergenio)

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