Caminhada redentora
Redação DM
Publicado em 3 de fevereiro de 2016 às 23:25 | Atualizado há 10 anos
O espírito desencarnado, depois de haver prejudicado grandemente a Gustavo Parreira de Lima, modesto funcionário de agência bancária, acabou por induzi-lo, sem querer, a frequentar, assiduamente, ao centro espírita, aonde ele ia à busca de alívio para os seus males e, diante dos grandes benefícios que recebia ali, terminou por tornar-se humilde, bom e mais trabalhador ainda, o que não agradava ao perseguidor invisível que encontrava, a essas alturas, mais dificuldades em atingir a antiga vítima.
O bancário então passou a estudar as obras da Doutrina Consoladora, e se dispôs a exercer a Caridade no decurso dos dias, encontrando, por isso mesmo, certo conforto íntimo que nunca, antes, experimentara.
Mas a transformação de Gustavo irritou tanto ao encarniçado verdugo espiritual, que este não vacilou em urdir um plano para eliminar-lhe a vida, contando, para tanto, com a colaboração de outras entidades infelizes, igualmente adversárias do bancário, desejosas, portanto, de vê-lo desencarnado, a fim de continuarem a persegui-lo.
Enquanto isto, Gustavo Parreira vivia um dia de intenso júbilo, pois adotara um órfão de sete anos que sempre batia à sua porta, pedindo sobras de comida. A criança não tinha pai e quando, dias atrás perdera a mãe, o bancário resolvera admiti-lo em sua família, depois dos necessários entendimentos com o Juiz de Menores.
Os agressores invisíveis penetram casa adentro e vão ao encontro do antigo adversário. E o encontram sorrindo, a brincar com o garoto. Os perseguidores nenhuma atenção davam ao pequeno, inflados que estavam de ódio e sedentos que se encontravam de vingança. Instruídos pelo líder do grupo, os espíritos se fizeram em círculo, em torno de Gustavo, e já fechavam o cerco na intenção de atingirem o homem quando o garoto abraçando-o contente, disse:
– Papai! Agora, o senhor é meu pai! Que bom…
Àquela voz, o verdugo principal sentiu uma estranha emoção: a voz do menino lhe calara fundo na alma, e não lhe era estranha; passou a observar atentamente o pequeno e, surpreso, reconhecendo nele o filho querido que ele abandonou noutra existência, ergueu a destra em sinal de “parem” aos seus asseclas, e deixou-se quedar, saudoso e emocionado, quase em soluços; esquecera por instantes o inimigo para abraçar o filho reencarnado e, nesse amplexo paternal, abraçava também a Gustavo que, por sua vez, retinha, feliz, a criança nos braços, dizendo as mesmas palavras que o desventurado espírito também pronunciava: – “Meu filho… Meu filho…”
E a malta de espíritos, diante do inesperado quadro que assistia, recuava-se lentamente, num entreolhar indagador, terminando por ser arredada do ambiente por uma força desconhecida que emanava dos três elementos reunidos, repentinamente, pelo poder fantástico do Amor que brotara, simplesmente, de um ato de Caridade.
Tempos depois, aquelas entidades, por si mesmas, agora sem a influência do líder, resolveram executar o plano urdido pelo chefe desertor, e caminharam para a residência de Gustavo.
Grande, porém, foi a surpresa de todos eles, pois o antigo líder se erguia como sentinela daquele lar, dominado por uma coragem indômita de os enfrentar de qualquer maneira, a qualquer hora e em qualquer circunstância. Quando os invasores se aproximavam mais, o voluntário defensor da família desatou da garganta uma voz ensurdecedora, ordenando-lhes:
– Afastem-se! Não se aproximem ou haverão de se arrepender!
– Covarde! Traidor! Bradavam os outros. Agora também você nos pagará seu descascado, imundo!
– Pensem o que quiserem! O cenário agora é outro! As circunstâncias também… Mas, previno-os: não se atrevam a entrar neste lar, porque aqui mora o meu filho!
– E também aquele mesmo a quem você pretendia eliminar! Replicou um deles.
– É verdade! Mas agora eu preciso dele para cuidar do meu filho! Necessito dele para amparar aquele que outrora, na minha última existência física, releguei ao mais absurdo abandono, para enveredar-me pelas sendas do crime e da irresponsabilidade, em companhia de vocês!
As entidades das sombras, no entanto, não queriam ouvi-lo e marcharam em sua direção. Nisto, uma Luz vinda do interior da casa ofuscou a visão dos agressores que, desalentados e aturdidos, desapareceram como que arremessados pelo forte impulso daquela inesperada claridade.
– Que rajada faiscante foi esta? Indagava, a si mesmo, a sentinela espiritual que, confuso, entrou para a casa, com o propósito de investigar o que havia acontecido. E foi encontrar Gustavo em oração em companhia do menino, como a ensinar-lhe os primeiros passos para os caminhos que demandam a Deus.
O espírito, respeitoso, os fitava, até que se decidiu tomar assento por ali mesmo e, alongando os olhos para os céus, passou a fazer-lhes companhia na prece, iniciando, assim, a sua Caminhada Redentora.
(Iron Junqueira, escritor)