Vidas tocadas ao nascer
Redação DM
Publicado em 24 de janeiro de 2016 às 21:38 | Atualizado há 1 ano
A “hora mágica” ou primeira hora, breve período do nascimento do bebê, é de acordo com pesquisas, tão ou mais decisivo do que os nove meses que a criança passou na barriga da mãe e até mesmo do restante da vida do recém-nascido. “Esse curto espaço de tempo pode ser fator determinante para uma vida saudável do ponto de vista biológico, psicológico e emocional”, afirma Yechiel Moises Checinski médico especializado em pediatria e homeopatia.
O especialista explica que o primeiro contato da criança com o mundo é determinante de seu futuro e evidencia três aspectos fundamentais que precisam ser observados: o clampeamento tardio do cordão umbilical, o contato pele a pele e o aleitamento materno na primeira hora de vida. Checinski esclarece que clampear é pinçar o cordão umbilical, preparando o seu corte, para evitar sangramentos tanto da parte da mãe quanto do bebê.
Esse ato, diz ele, libera o bebê do contato com a mãe para que possam ser tomados os cuidados necessários do momento. “Enquanto o cordão umbilical está pulsando, há a passagem de sangue e oxigênio da mãe para o bebê. Em média, após o parto, essa pulsação ainda pode durar cerca de 2 a 3 minutos. Assim que o cordão parou de pulsar, pode-se efetuar seu clampeamento, sem riscos e com benefícios para o bebê e a mãe”, informa.
Sobre a importância do segundo aspecto o contato pele a pele ao nascer, Moises brinca que somente o ser humano afasta os recém-nascidos de suas mães logo após o parto. Na natureza, diz ele, é possível ver como as coisas funcionam naturalmente, e que o contato pele a pele é parte natural, intuitiva e instintiva de um bom começo de vida.
“Estudos recentes indicaram aumento de 176% da atividade autonômica, frequência cardíaca, respiratória, transpiração, entre outros, e 86% de diminuição na duração do sono tranquilo em crianças que não tiveram seu contato pele a pele logo após o parto, mostrando a importância desse tipo de procedimento”, revela Checinski.
Ele ressalta que não menos importante que o clampeamento tardio do cordão e o contato pele a pele é o aleitamento materno desde a primeira hora de vida da criança. “Pesquisas comprovam que o contato pele a pele é um dos maiores estímulos ao sucesso do aleitamento materno. O leite que o bebê ingere logo após o parto, por 7 dias, é o colostro, imunologicamente enriquecido com anticorpos e que pode ser iniciado logo após o parto”, diz.
A Organização Mundial de Saúde (OMS), o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orientam o aleitamento materno desde a primeira hora de vida até o 6º mês, o qual pode se estender até 2 anos de idade ou mais. “Apesar dessas recomendações ainda estamos distantes da meta estabelecida por esses órgãos como ideais. Nossa média de aleitamento materno no Brasil é de 51 dias (contra os 6 meses desejados) e temos 41% de mães ainda em aleitamento aos 6 meses (contra os 95 a 100% recomendados)”.
Importância da amamentação

Para a fonoaudióloga coordenadora do serviço de Fonoaudiologia do Hospital Materno Infantil de Goiânia (HMI), Giuliana Caetano Borges o aleitamento materno é fundamental para o desenvolvimento e crescimento do bebê. Ela constata que a maior causa do desmame precoce é a pega ineficaz e isso pode ser prevenido com uma orientação fonoaudiológica correta.
“A amamentação é um aprendizado para a mãe e o bebê, fortalece os laços afetivos entre eles e deve ser incentivada para que a criança cresça saudável. O fonoaudiólogo é o profissional capacitado para orientar na amamentação, auxiliando no posicionamento do bebê e na pega adequada do seio materno”, diz. Ela acrescenta que a importância do aleitamento materno desde a primeira hora de vida do bebê se estendendo, no mínimo, até o 6º mês de vida, é crucial para o bom desenvolvimento da criança.
“Desde o início, o bebê ao sugar o bico do seio da mãe faz uma preensão preparando os órgãos da fala (língua, lábios e bochechas), exercitando as estruturas envolvidas no crescimento ósseo como as articulações temporo-mandibulares e a coordenação da sucção com a respiração e a deglutição, além do vínculo (proximidade) com a mãe que vai possibilitando gradativamente o contato, a troca e a inclusão do outro que é um fator importante na comunicação”, esclarece.
Giuliana alerta que a rejeição ao peito é uma experiência ruim tanto para a mãe como para o bebê. Este fator pode acarretar consequências nas estruturas orais do bebê, como alterações na respiração, no alinhamento dos dentes, do tônus muscular da musculatura bucal, nas estruturas esqueléticas e faciais, e no desempenho da fala. Além disso o bebê pode apresentar complicações clínicas por não receber o alimento ideal nos primeiros meses de vida.
A fonoaudióloga também pondera que quando a mãe amamenta o bebê pela primeira vez, o corpo libera uma substância chamada ocitocina a qual é especialmente importante para a saúde da mulher porque provoca contrações musculares no útero e, assim, reduz a perda de sangue.
“O fortalecimento do vínculo entre mãe e filho promovido pelo contato pele a pele torna mais fácil para ambos o ato da amamentação. A explicação está no fato de que essa proximidade eleva, tanto na mãe quanto no bebê, também os níveis de ocitocina, hormônio ligado à redução do estresse e também à maior produção de leite materno”, completa.
O pediatra Yechiel Moises acrescenta ainda que o calor do corpo da mãe protege o bebê, muitas vezes, melhor do que na incubadora, do que em cobertores ou do que roupas. “A liberação da ocitocina aumenta a temperatura do seio materno, quando o bebê está no pele a pele”, ressalta.
Estudo
De acordo com o pediatra em um estudo apresentado durante as sessões de aleitamento materno do encontro anual da Academia Americana de Pediatria (AAP), os pesquisadores concluíram que um pouco de contato pele a pele entre mães e bebês, no Método Canguru, pode reduzir os níveis de estresse materno.
“Já conhecíamos os benefícios fisiológicos em recém-nascidos do contato pele a pele, como a estabilização dos batimentos cardíacos, dos padrões e níveis de oxigênio no sangue, dos ganhos de peso, diminuição do choro, sono mais tranquilo, maior sucesso do aleitamento materno e um tempo menor de internação hospitalar”, afirma.
Contudo, ele acrescenta de maneira otimista que existem mais evidências que o contato pele a pele também pode diminuir o estresse parental, o que pode, em suas palavras, interferir na relação de saúde e bem-estar emocional e nas relações interpessoais dos pais, bem como nas taxas de amamentação.
“Os pesquisadores concluíram que um pouco de contato pele a pele entre mães e bebês pode reduzir os níveis de estresse materno. Isso se dá porque há uma diminuição objetiva do nível de estresse após o contato pele a pele com seus bebês, o que se revelou especialmente verdadeiro em relação ao estresse relatado de serem separadas de seus filhos, sentindo-se impotentes e incapazes de proteger o bebê. Esta é uma técnica simples que pode beneficiar mães, pais e a criança internada numa UTIN [Unidade de Terapia Intensiva Neonatal]”, afirma o pediatra.
A melhor escolha, parto normal ou cesárea?

Aparecida Andrade
De acordo com levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) hoje o país onde mais se realizam cesarianas em todo o mundo é o Brasil. Conforme dados do Ministério da Saúde (MS), na rede privada 84% dos partos são cesarianas, enquanto no SUS, o índice chega a 40%. No Estado de Goiás a proporção de partos cesáreos em 2015 foi de 65,67%, sendo que o recomendado pela OMS é 15%.
Autoridades na área da saúde apontam que a cesariana, quando não tem indicação médica, ocasiona riscos desnecessários à saúde da mulher e do bebê. Ela aumentaem 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. Um estudo da American Journal of Obstetrics and Ginecology, apontou que o número de óbitos maternos é 10 vezes maior em cesarianas que em partos normais.
No caso dos bebês, a mortalidade infantil para nascidos em cesáreas é 11 vezes maior quando comparada aos nascidos em partos normais. Com o intuito de mudar essa realidade o MS e Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) publicaram em 2015, resolução que estabelece normas para estímulo do parto normal e a consequente redução de cesarianas desnecessárias na saúde suplementar.
Um dos benefícios do parto normal e do contato pele a pele entre mães e bebês, afirma o pediatra Moises Checinski é a melhora na formação da imunidade do bebê: “O bebê tem seu trato gastrointestinal estéril. A flora bacteriana intestinal, cada vez mais reconhecida como fator importante até na imunidade do ser humano, começa a ser formada pela passagem do bebê pelo parto normal. O contato pele a pele é a segunda fonte de colonização, através das mesmas bactérias que a mãe tem na pele e para as quais ela já tem anticorpos que serão transferidos para o bebê através do aleitamento materno.”
Meu parto
A fonoaudióloga coordenadora do serviço de Fonoaudiologia do Hospital Materno Infantil de Goiânia (HMI), Giuliana Caetano Borges explica que o contato físico entre a mulher e o bebê logo após o nascimento pode trazer uma série de benefícios para ambos e, além de fortalecer o vínculo afetivo entre mãe e filho, é também importante para fortalecer a saúde dos dois.
Foi assim para a autônoma, Laila Thais de Almeida, 19 anos, mãe do pequeno Paulo Victor de apenas quatro meses de vida. Ela conta que teve uma gravidez tranquila e desde o começo planejou o parto normal. “Queria muito ter parto normal, pois sabia dos benefícios, mas também pensava nas dores. Contudo, foi gratificante ter tido um parto normal, em que me recuperei rápido e pude cuidar do meu bebê”, narra.
Thais conta que após seu bebê nascer através de um parto humanizado, teve o prazer de ter seu filho nos braços e poder amamentá-lo. “Acho que toda mãe tem que ter esse momento, é muito emocionante, além de ser importante para o bebe esse primeiro contato com a mãe. Pude contar ainda com ajuda de um especialista logo em seguida para conseguir amamentar meu filho”, relata.
Mudanças de planos
A gestação da designer, Maria Eugênia Rodrigues, 21 anos, também foi tranquila. Cheias de expectativas para a chegada do bebê, ela buscou se informar sobre o parto humanizado e esperava ter um parto normal.
“Sempre quis o parto normal, apesar de já ter a preferência no início da gestação tinha muito medo do normal. Eu e meu marido fomos buscando informações e meu obstetra também sempre apoiando o parto normal humanizado foi fazendo com que me acalmasse e visse o parto normal com mais carinho e coragem”, expõe.
Resolvida a ter parto normal, Eugênia conta que antes mesmo da 20º semana de gestação estava determinada ao parto normal. “Buscamos uma doula para acompanhar a gestação e ajudar na hora do parto. Minha doula foi fundamental na hora do parto. Não abriria mão dela nunca na vida. Para quem quer parto normal uma doula apoiando é muito bom”, indica.
Apesar de ter planejado um parto normal, Eugênia foi pega de surpresa. Depois de mais de 12 horas tentando dar à luz suas forças haviam acabado: “Não conseguia mais me esforçar e o bebê parecia não sair do lugar com o esforço que eu fazia. Meu médico, que é famoso por ser humanista, acabou indicando a cesárea. Minha cesárea não foi planejada.”, rememora.
Momentos difíceis
Maria Eugênia recorda que estava no ápice de contrações doloridíssimas e assustada por estar em uma sala de cirurgia pela primeira vez na vida toda. “Estava com muita dor, numa sala estranha e sozinha porque meu marido só poderia entrar depois que o procedimento tivesse começado. Levei uma injeção na coluna que dizem ser muito dolorida. Levei 4 vezes e tudo o que pude pedir foi pra abraçar o braço de uma enfermeira que nunca tinha visto”, conta emociona.
Eugênia teve uma reação à anestesia e tremia sem parar. “Tremia muito que não conseguia concentrar no que estava acontecendo. A cesárea é rápida. Logo meu médico chegou no meu filho e já escutava seu chorinho. Ele tentou entrega-lo, mas eu tremia demais. A pediatra colocou meu bebê comigo por alguns minutos e foi incrível, mesmo tremendo sem parar. Ele se acalmou quando encostou na minha pele. O beijei e ele foi para as medições enquanto eu era costurada. Fui para o quarto e ele foi em seguida”, descreve.
Eugência conclui que na primeira hora de vida do filho, foi mais um contato de peles do que a amamentação em si. “Eu não sabia amamentar e ele não sabia sugar. Mais tarde no banco de leite quando fui aprender a amamentar certinho para não doer às enfermeiras indicaram amamentar em casa com mãe e bebê pelados porque esse contato pele a pele ajuda na produção de leite”, conta.
Eugênia Rodrigues teve seu bebê na rede privada e Laila Thais de Almeida na rede pública de saúde, ambas tinham o mesmo desejo de dar à luz por parto normal, mas tiveram histórias e experiências únicas com fins distintos.
Saiba mais

O médico especializado em Pediatria e Homeopatia, Yechiel Moises Checinski reafirma a importância do contato pele a pele da mãe com o recém-nascido e lista pontos importantes desse elo. Segundo alguns estudos, antigos e recentes, esse contato precoce traz uma série de benefícios para o bebê e para a mãe: