Desativada 2

Becos escuros da alma

Redação DM

Publicado em 19 de janeiro de 2016 às 16:19 | Atualizado há 1 ano

Imagine-se dentro de um sonho repleto de elementos aleatórios, acontecimentos sem relação explícita, rostos conhecidos misturados, confusão mental e medos secretos. “Alguém pode me explicar o que está acontecendo?”, é o que provavelmente você se perguntaria. Essa auto indagação está estampada nos rostos da maioria dos protagonistas de filmes de David Lynch, e já virou uma de suas marcas registradas. Um dos expoentes do surrealismo no cinema dos últimos 40 anos, conseguiu desenvolver um estilo pessoal inconfundível, conquistou a crítica, o público e é considerado o mestre dos enigmas, do surrealismo e do suspense.

Nos filmes de David Lynch, seres pitorescos estão sempre a rondar as histórias principais. Boa parte dos personagens centrais são figuras confusas, assustadas com o ritmo da dimensão que os aprisiona. Quase travados, eles buscam cautelosos que suas realidades turbulentas revelem alguma pista sobre o próximo movimento a ser executado. Vemos isso em Henry Spencer (‘Eraserhead’, 1977), em Betty e Rita (‘Cidade dos Sonhos’, 2001), em Nikki Grace (‘Império dos Sonhos’, 2006) e vários outros. Nenhum deles sabe ao certo o que está acontecendo. Se estão sonhando, se estão em um limbo, ou se o mundo virou do avesso. O poder de esculpir o tempo de forma estranha é um dos superpoderes do cinema surrealista de Lynch.

Para o próprio cineasta, seus filmes aproximam-se mais do cinema produzido na Europa do que nos Estados Unidos. Entre as principais influências de seu trabalho estão nomes como o americano Stalney Kubrick (‘2001, uma odisséia no espaço’, ‘Laranja mecânica’, ‘O iluminado’), o italiano Frederico Fellini (‘A doce vida’, ‘Oito e meio’, ‘Noites de Cabíria’), o alemão Werner Herzog (‘Aguirre, a cólera dos deuses’, Stroszek, O enigma de Kaspar Hauser’) e o francês Jacques Tati (‘Mon oncle’, ‘Playtime’). Além dos filmes, Lynch também já produziu para a televisão. Seu feito mais conhecido na TV é a série Twin Peaks, que desvenda a morte de Laura Palmer. A série foi exibida em vários lugares do mundo na década de 1990, inclusive na TV aberta brasileira através da Rede Globo.

Eraserhead

Entusiasta das estradas (que quase protagonizam filmes como Lost Highway e ‘A história real’), passou a infância a viajar pelos Estados Unidos. Iniciou-se nas artes através da pintura, mas logo passaria a produzir pequenos filmes nos anos 1960. Na década de 1970 estabeleceu-se em Los Angeles, capital da Califórnia e segunda maior cidade dos EUA. Lá produziu seu primeiro longa-metragem: o sucesso cult ‘Eraserhead’, lançado em 1977. O filme foi produzido enquanto Lynch estudava cinema e recebeu a proposta de escrever e dirigir um longa com 10.000 dólares. Conta a história de Henry Spancer, encarregado de tomar conta de seu filho, uma criatura deformada e com aspecto alienígena, em um cenário industrial, ao som de música dark ambient.

O clima alucinante e a ousadia plástica na exploração do grotesco atraiu a atenção dos críticos para a produção de Lynch, que demorou mais de cinco anos para ser finalizada e contou com auxílio financeiro de familiares e amigos para que fosse lançada. Graças ao êxito de ‘Eraserhead’, Lynch foi convidado a realizar filme biográfico ‘O homem elefante’ de 1980, que conta a história de Joseph Merrick, um homem que viveu marcado por sinuosas deformações físicas. O papel principal foi executado por John Hurt, e o orçamento estimado em 5 milhões de dólares, ‘O homem elefante’ conseguiu 8 indicações ao Óscar, incluindo o da categoria Melhor Diretor.

Ainda na década de 1980 realizou dois filmes. O primeiro deles, uma ficção científica ‘Dune’, de 1984, que foi um grande fracasso de crítica e público, e o clássico ‘Veludo Azul’, de 1986, um de seus projetos mais aclamados, considerado também um divisor de águas de sua carreira. A partir de ‘Veludo Azul’, os filmes de Lynch passaram a desenvolver-se em camadas baseadas em uma espécie de realidade provável. Suas produções também adquiriram um aspecto luxuoso, e passaram a contar com mais cenas de violência e organizações criminosas. Tais novidades contribuíram para que os filmes de Lynch apresentassem-se como normais, a princípio, antes de revelarem a verdadeira transcendência surreal que aos poucos deixa o público completamente confuso e abismado.

Hollywood

A partir do final dos anos 1990, Lynch iniciaria a fase mais ousada de sua carreira. Através de três filmes (as vezes chamados de trilogia de Hollywood), ele teceria uma sutil crítica à maior indústria de filmes do mundo, bem como ao meio artístico e suas formalidades. Ambos os filmes são isentos de linearidade. O site Movie Wagon traz uma resenha de ‘Estrada perdida’, filme de 1997, e inicia dizendo que “

com este filme que Lynch entrava na fase em que os seus filmes não tinham explicação”. O filme traz enigmas como um homem que muda de corpo e de vida sem explicação clara, e duas personagens interpretadas pela mesma atriz. Tudo isso tornariam uma audição desatenta em uma verdadeiro desastre.

Em 2001 foi lançado o filme mais aclamado de Lynch. ‘Mulholland Drive’, cuja tradução para o português ficou como ‘Cidade dos sonhos’, traz um neo-noir cheio de mistérios que se desenvolve através do suspense durante mais de 90 minutos, e que resolve criar vida própria e metralhar pistas nos 20 minutos finais. Conta com Naomi Watts e Laura Harring e Justin Theroux no elenco. Aparentemente, a história traz Betty, uma atriz novata que vai morar em Hollywood na casa da tia, uma atriz famosa, para tentar seguir carreira. Assim que ela chega, depara-se com Rita, que sofreu um acidente nas proximidades, perdeu a memória e escondeu-se na casa sem que ninguém soubesse.

As duas desenvolvem uma amizade instantânea, e a partir daí passam a buscar pistas sobre o passado de Rita. Paralelamente, Adam Kesher, um diretor de cinema, vê seu filme ser tomado por forças mafiosas penetradas em Hollywood, que tiram-lhe toda a autonomia de escolher a atriz principal do projeto. Eu disse aparentemente, pois os mistérios que dão a liga do filme acabam invadindo a tela a partir que um estranho cowboy avisa da “hora de acordar”. David Lynch nos deixa pistas através de objetos espalhados no cenário. A dificuldade está em encaixar passado, presente, sonhos e realidade. Saulo, usuário da rede social Filmow, faz sua definição do filme: “é um filmaço não sequencial, com embaralhamentos e cheio de elementos simbólicos absolutamente pertinentes para entender esse grande mindfuck proposital”.

O último longa-metragem produzido por David Lynch é também considerado o último da estranha trilogia. ‘Império dos sonhos’ foi lançado em 2006, e trazia no elenco principal a atriz Laura Dern, que já havia trabalhado com Lynch em ‘Veludo azul’ e ‘Coração selvagem’. Ainda mais dissolvido que ‘Cidade dos sonhos’, tem como base a segunda tentativa de produção de um roteiro, cuja primeira tentativa de produção teria resultado em uma série de tragédias. Laura Dern é Nikki, uma respeitada atriz, que acaba envolvendo-se com um colega de elenco, misturando sua vida profissional e particular ao extremo. A trama também flerta com uma espécie de máfia polonesa, que conversa com o restante do filme através do marido de Nikki.

‘Império dos Sonhos’ também foi bem recebido pela crítica, apesar de algumas pessoas terem escrito resenhas que indagavam a saúde mental de David Lynch. Este ficou tão satisfeito com o trabalho de sua atriz principal que realizou uma campanha nos Estados Unidos, sugerindo sua indicação ao Óscar, sem sucesso. Desde então, o diretor

tem trabalhado em pequenos projetos de internet. Desde 2014, rumores de que uma terceira temporada da série Twin Peaks tem sido frequentemente jogados na internet. David Lynch confirmou que dirigirá todos os episódios da série, que foram escritos em parceria com Mike Frost, colaborador original das outras duas temporadas. Foram prometidos 18 episódios que deve ir ao ar pelo canal Showtime a partir de 2016.

Aleatoriedades

Outros trabalhos marcantes do diretor incluem o longa-metragem ‘Coração selvagem’, que estrela Laura Dern e Nicolas Cage. O casal protagoniza o filme que mais aborda a temática do crime na carreira de David Lynch. Outra obra que chama a atenção em sua concreta filmografia é o drama ‘Uma história real’, lançado em 1999. Trata-se de uma história de superação e reconciliação, onde Alvin Straight, um velho, atravessa 418 quilômetros (260 milhas) de rodovia utilizando um cortador de grama como meio de transporte para reencontrar-se com seu irmão, com quem teve desentendimentos marcantes no passado. Sissy Spacek, atriz famosa no meio cult por trabalhar com o consagrado diretor Robert Altman e por interpretar Carrie na primeira versão de ‘Carrie, a estranha’, integra o elenco de ‘Uma história real’ como a filha de Alvin.


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