Dois rapazes
Redação DM
Publicado em 12 de janeiro de 2016 às 23:45 | Atualizado há 10 anos
O rapaz gostava de andar armado. Entrou em seu quarto, retirou o revolver que trazia à cintura e teve o cuidado de examinar se a única bala estava na posição que sempre a colocava: longe de detonar; seria preciso acionar o gatilho cinco vezes para que a arma oferecesse algum perigo. Então a deixou sobre a penteadeira, preparou-se para o banho e saiu do quarto, buscando o chuveiro.
Enquanto banhava, seu irmão mais moço entrou em seu quarto, viu a arma sobre o móvel, olhou se tinha bala e não viu nenhuma à esquerda do tambor; olhou para a sua imagem no espelho e começou a apertar o gatilho, brincando de “artista e bandido”, influenciando certamente pelas fitas de cinema; e o tambor da arma ia rodando permitindo que o projétil chegasse ao ponto fulminante; mas logo deixou a arma onde estava e saiu do quarto, indo ao banheiro onde estava o irmão:
– Depressa, mano! Preciso banhar-me logo para ir à escola! Disse, batendo levemente na porta, saindo em seguida para a cozinha, onde começara a brincar com sua mãe.
O rapaz mais velho saiu do banheiro e entrou novamente no quarto, envolto ainda na toalha, assoviando tranquilamente. Pelo espelho da penteadeira, viu que a servidora doméstica cruzava a sala e resolveu assustá-la com uma brincadeira: voltou-se para ela com o revólver que supunha estar como o deixara e, apontando-o para a empregada, disse-lhe:
– Rosa, olhe aqui! E quando a mulher voltou-se para atendê-lo, o jovem disparou a arma… que a atingiu, mortalmente, no coração.
A arma de fogo não presta nem mesmo para ficar guardada.
O homem de coragem não anda de arma à cintura, o medroso sim.
A arma agressiva não serve para ser vendida. Não serve para ser dada de presente. Nem serve para ser atirada fora. Só serve para ser destruída por nós, antes que nos destrua.
Não há quem olhe para uma arma concebendo um pensamento bom; por isso mesmo, qualquer instrumento de destruição está sempre imantado de vibrações macabras; e o magnetismo dessas armas se identifica perfeitamente com a personalidade de quem as conduz.
Entre as grades de uma prisão, triste e de alma atormentada pelo remorso, o criminoso recorda o crime cometido e lastima, tardiamente:
– Antes eu estivesse desarmado e sido a vítima…
A vítima da arma não é a que cai, mas a que a usou.
Lembrei-me agora do que dizia o Marechal Cândido Rondon a seus companheiros, quando pacificava os índios:
– Morrer sim; matar, nunca!
A arma de fogo mata primeiro o que caiu vencido; depois, o vencedor, lentamente, com as balas do remorso.
A arma não é um instrumento de justiça nem mesmo na mão da Justiça.
Representar a justiça,
de arma à Mão,
já é cometer
injustiça.
Experimentemos tratar um marginal como um pai bondoso trata um filho doente.
O vício não presta,
a violência não presta,
a inércia não presta,
a arma não presta.
E tudo aquilo
que não presta –
diz Emmanuel –
“não presta mesmo”.
Aqueles que portam armas
Digo sem medo e com calma:
– Vossas armas sempre mostram
O que trazeis dentro d’alma.
Aos valentes e covardes,
Que com arma fingem calma,
Faço questão de lembrar:
– Tem arma quem não tem alma.
O delegado falava
Em debelar todo o mal,
Mas retinha a mão no bolso
Segurando o seu punhal.
Pois eu lhes digo, senhores,
Com certeza e sobriedade:
– A arma que debela o mal
É somente a Caridade.
(Iron Junqueira, escritor)