Brasil

Batistão vai à festa e encontra a assombração

Redação DM

Publicado em 12 de janeiro de 2016 às 23:06 | Atualizado há 10 anos

Interessante, notei que naquele dia o Batistão estava mais quieto, meio ensimesmado com alguma coisa; tinha certeza de que na primeira oportunidade que surgisse ele iria contar-me o que estava acontecendo, por isto nada comentei e tocamos nossa vida como era o costumeiro.

– Batistão! Você teve a oportunidade de “curar” aquele reprodutor no sábado, como combinamos?

– Se mal lhe pergunte, como o Dotore descobriu que não foi curado?

– Porque no lugar do machucado está saindo sangue e isto é sinal de que está com “bicho” (larvas) depositado pela mosca varejeira, vamos colocá-lo no tronco e fazer uma boa limpeza na ferida e “espirrar” um pouco de Lepecide, misturado com óleo queimado, os “bichos” começarão a movimentar e com um “graveto” vamos retirá-los da ferida.

Se tiverem a chance, as larvas da varejeira devoram o hospedeiro – Acontece seu dotore que o “Lepecil, sic” acabou e por isto não tive jeito de curá-lo no final de semana.

Normalmente o Batistão tem autorização para comprar estes produtos na “Loja do Loiro”, portanto acho que deve ser outra a razão dele não ter feito a obrigação; fiz-me de desentendido e depois da lida com o gado no curral, sentamos, os dois, a um banco localizado debaixo de um flamboyant que assombreia justamente o local onde sentamos e ouvi esta estória, contada com toda a ingenuidade do Batistão.

– Dotore, como o senhor sabe, a Narandinha foi “simbóra” para a cidade, diz que cansou de mais eu e, como o senhor sabe, a nossa carne de home é fraca e, como estava sozinho neste final de semana, segui os maus conselho do meu compadre Manduca, vesti minha roupinha de vê Deus e fomos pra Vila olhar o movimento; fui contrariado, lembrando do boi sem curar e pensando na 2ª feira, quando o senhor iria “pinicar na sombra” (ficar zangado) e me chamar a atenção.

Chegamos na Vila na hora do lusque-fusque da tarde e, como estávamos a fim de pombear (andar sem rumo), resolvemos seguir a trilheira de dois companheiros. que anliás já tinham ido; sentei na garupa da motoca do compadre e que ele apelidou de “ ximbiquinha” e rumamos para o sitio de um tal Sr. Vitalino; o Manduca já havia apanhado o roteiro: – Vocês seguem pela estrada Mestra até chegar no pé do espigão Mestre, aí a estrada saracoteia um pouco, por causa de uma encruzilhada, por isso, para não deixá-los azaranzados (desorientados) acolá vou deixar uma marca – O esqueleto da cabeça de um boi dependurado na porteira – daí em diante é só seguir o chão batido e ir pra donde o nariz aponta.

O senhor sabe como sou “um pouco assombrado” e esta história de esqueleto de cabeça de boi já não me agradou, aporém, como estava a fim de “pombear” (andar sem rumo) uma “pagodeira” (andar atrás de bailes), resolvi “aguentar o repuxo” (suportar qualquer dificuldade).

Aconteceu um imprevisto, havia duas porteiras com “cabeça de boi”, Manduca achou natural, aporém, ja fiquei um pouco cismado, não seria um chamarisco de alguma “alma penada”? Vamos voltar, “ôme de Deus!”, disse, já um pouco engasgado!

– Pa pai – man dou – ba ter – nes ta – qui! Cantarolou o Manduca com toda a tranquilidade – Vamos pela estrada da direita, ordenou ele!!

Já era mais de 10 horas da noite e nós num encontrava o caminho e “sem mais que, nem p´ra que” (sem razão alguma) um galo cantou fora da hora de costume e uma pomba fogo-apagou passou voando. Aí não aguentei: compadre, galo que canta fora de hora está anunciando fuga de alguma mulher casada e o marido costuma vir atrás e pomba voando sozinha a esta hora é sinal de desgraça próxima. Vamos voltar homem de Deus!

– Vocês voltaram, Batistão?

– Que jeito? O compadre, só naquela hora me contou, estava enfeitiçado por um rabo de saia que estava na festa e só fui salvo porque abri meu patuá que carrego dependurado no pescoço, onde guardo a oração de Santa Clara e rezei, com muito fervor:

“ Santa Clara, vós sois Clara e digna, Vós sois esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo, vós foste aquela Santa Senhora que entraste pela casa de Adão e Eva e lá encontrastes duzentos mil homens bravos como leões, vós, pela vossa Santa fala cheia de razão os abrandastes todos e os tornastes mansos como cordeiros, assim abrande, por mim, o coração dos meus inimigos.”

Só aquela hora foi que observei que o Batistão estava com vários arranhões na face e ao ser-lhe perguntado, saiu com esta:

Depois que rezei para Santa Clara, criei coragem e disparei no mundo, deixando o compadre Manduca sozinho com a sua “ximbiquinha” naqueles fundéus de mundo; na minha corrida, como estava muito escuro, topei com uma cerca de arame farpado e…

 

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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