Brasil

2015, um ano do cão…

Redação DM

Publicado em 3 de janeiro de 2016 às 21:23 | Atualizado há 11 anos

Como descrever 2015? Ano difícil, pra lá de complicado. O que dizer e como resumir tantos acontecimentos, analisar tantas contradições, ver luz no fim do túnel?

As marcas e os fatos do ano difícil: Guerras, intolerância, ódio, Mariana, Paris, o EI, massas de deserdados nas estradas da Europa, amaças de impeachment sem fundamento, um Congresso de pouca representatividade, a violência contra as mulheres, os jovens negros e de periferia, crise econômica e social, corrupção, mudanças climáticas, desemprego, reconcentração de renda.

Por outro lado, os jovens estudantes de São Paulo ocupando escolas, os 150 anos de Santa Emília, minha terra amada, a resistência e as mobilizações na rua a favor da democracia no Brasil e na América Latina, o papa Francisco e a Laudato Si, Que Horas Ela volta? filme fantástico, o plebiscito grego, o Podemos espanhol, o combate à corrupção no Brasil, a Frente Brasil Popular e o Povo Sem Medo.

No conjunto, 2015 possivelmente deixará poucas saudades. Ficará registrado como ponto escuro na curva da história. Como o melhor que sei fazer na escrita é poesia, ou tentativa de, resolvi poetar para tentar falar sobre 2015, ano aziago, ano do cão (com exceções). Poema escrito para uma celebração de final de ano com amigas/os e gente que trabalha/ou comigo e, por coisas do tempo ou da falta de, a festa não aconteceu e o poema nunca foi declamado em público.

Vai, pois, em primeira mão, clima de final de ano, despedidas, abraços, sentimentos de um ano vivido, pouco a celebrar, muito a esquecer. Cada uma, cada um pode escrever/acrescentar seus próprios versos, dores e alegrias.

“2015, UM ANO DO CÃO (com exceções)

Não sei como começar/ Muito menos tenho palavras suficientes/ Este é/foi um dos dois piores anos/ da minha já não curta vida e militância política/ de mais de 40 anos/O que aconteceu?/ Quase nada./ De bom?/ Muito pouco./ De ruim e pior/ uma coisa atrás da outra.

O bom: estive com vocês/ que aturaram minha eterna ranzinzice/ este ano menos democrática que o normal.

O bom: o fim do ano está chegando.

O ruim: não tive amores/ portanto, também não desamores.

O bom: assumi meus 64 sem culpa/ de terceira ou melhor idade/ pra entrar no avião sem fila/no ônibus de cada dia/ nas esperas nos bancos/ e pra jogar na Mega Sena.

O bom: escrevi religiosamente meus artigos,/a coluna semanal na Folha do Mate/ e alguns artigos de fôlego./ Recebi elogios./ que me deram ânimo / e certeza de continuar.

O bom: resisti bravamente a todos os apelos./Não cedi aos supostos encantos do Whats App./ Não estou plugado na máquina dia/noite/ manhã/madrugada.

O ruim: este ódio de todos os dias/ que não deixa ver rostos/ pensamentos/que distorce/ mata/ elimina.

O ruim: o ar de intolerância/ a infestar relações/ impedindo reconhecer o Chico/ poeta de todas as horas.

O ruim: onde está a utopia/, aquela, como escreveu Galeano/ que está no horizonte /não a alcançamos/ mas corremos atrás todo dia?

O bom, não, o ótimo: os estudantes em Sampa/ limpando a ‘nossa escola’/ensinando vida/, companheiras e companheiros.

O bom: o povo na rua/ dizendo não ao golpe/ defendendo a democracia.

O bom: sobrevivi/ sobrevivemos/ Estamos vivos/ amarrados à esperança.

O resto, ah o resto/ vale mais a pena esquecer/deletar/ excluir/ deixar sem registro na história/ nem como rascunho a ser visitado mais adiante.

O ano passou/ 2015 foi-se para as brumas da história/ 2016 vem aí/posso me aposentar/ sei lá o que vou fazer da vida/ com os 65 bem-mal vividos/ e ainda uma longa jornada por vir.

O tempo não para/ a história flui/ os cata-ventos giram/ a manhã vai chegar/ o salário mínimo aumentará acima da inflação.

Os dias dirão os passos/ a memória fará a seleção/ as/os amigas/os continuarão amigas/os/ na lista primeira/ companheiras/os/ que é o que, no final das contas, mais vale, acima das palavras/ além dos gestos/ sentido último e maior.

Meu brinde de sempre/ vai para vocês, leitoras e leitores:/ À VIDA/ AO PRAZER/ E AO AMOR!”

Feliz e abençoado 2016!

  1. Reli o poema e descobri que há mais versos falando do bom que versos falando do que foi ruim. Ou é meu incorrigível e eterno otimismo, ou uma coisa é o que vai na alma, outra é quando a palavra sai do coração. Quem sabe a esperança esteja mesmo no ar.

 

(Selvino Heck, assessor especial da Secretaria de Governo da Presidência da República)

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