Brigadista morre em incêndio no Museu da Língua Portuguesa
Redação DM
Publicado em 21 de dezembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosSÃO PAULO – Um incêndio de grandes proporções atingiu o Museu da Língua Portuguesa, na região central de São Paulo, na tarde desta segunda-feira. O brigadista Ronaldo Pereira da Cruz morreu ao tentar conter o início das chamas, que só foram controladas às 18h30. A Estação da Luz, que fica ao lado do museu, não foi atingida. Durante quase três horas, era possível ouvir pequenas explosões vindas do telhado, e as labaredas chegaram a cinco metro de altura.
— O incêndio começou no primeiro andar (do museu) e passou rapidamente para o segundo por conta da estrutura do prédio, que é basicamente de madeira — afirmou o comandante dos Bombeiros, Valdir Pavão.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, a vítima fazia parte da equipe de brigadista do museu. Ao tentar apagar o incêndio, Cruz sofreu queimaduras nas pernas e no tórax. Ele chegou a ser levado ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu aos ferimentos. A causa da morte foi uma parada cardiorrespiratória.
Um pavimento desabou no momento em que o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que foi ao local da tragédia, falava com os jornalistas. O tucano lamentou a morte do brigadista e evitou falar sobre as possíveis causas do incêndio. Alckmin disse que o museu será reconstruído com a ajuda da sociedade civil.
— O Museu da Língua Portuguesa, que traduz a alma do povo brasileiro, será reconstruído. Vamos imediatamente tomar todas as providências. Unir de novo a iniciativa privada para reconstrução — declarou o governador.
O arquiteto Pedro Mendes da Rocha, filho de Paulo Mendes da Rocha, um dos responsáveis pelo projeto do museu, foi ao local assim que soube do incêndio. Ele disse que o telhado em madeira e zinco favoreceram a propagação das chamas. Ele explicou que o prédio foi reforçado com estruturas de concreto para tentar minimizar o risco de incêndio por conta da grande quantidade de madeira, por se tratar de um prédio centenário.
— É uma tragédia que se repete. Em 1947, esse mesmo prédio foi consumido pelas chamas. A torre do relógio serviu como chaminé. Não imaginávamos que isso fosse voltar acontecer — lamentou o arquiteto.
O coordenador municipal da Defesa Civil de São Paulo, o engenheiro Milton Roberto Persoli, disse que não há previsão para liberar o prédio. Ele disse que uma das fachadas do edifício está condenada. Ainda de acordo com Persoli, ainda não é possível saber se a Estação da Luz, que fica no mesmo prédio, poderá funcionar na terça-feira.
— O prédio aqui está muito danificado. Acredito que esteja condenado — declarou Persoli.
O Museu da Língua Portuguesa fica na Praça da Luz e, às segundas-feiras, fica fechado ao público. Segundo a Secretaria de Estado da Cultura, a sede administrativa fica em outro endereço. Por volta das 18h, uma pessoa ainda não identificada subiu no telhado do prédio e caminhou em direção as chamas.
Ao lado do prédio, fica a Estação da Luz, importante ponto de intercessão entre metrô e trem no centro de São Paulo. O incêndio afetou a circulação dos trens da Linha 7, que foi paralisada entre as estações Luz e Barra Funda, e da linha 11, entre a Luz e a estação Brás.
Segundo a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a ala do prédio destinada ao funcionamento da estação de trem não foi atingida pelo fogo. Ela foi fechada, entretanto, a pedido dos bombeiros, por questão de segurança devido à fumaça tóxica.
ACERVO DIGITAL
Em entrevista à “Globonews”, na tarde desta segunda-feira, a coordenadora de conteúdos e roteiro do museu, Isa Grinspum Ferraz, classificou o incêndio como uma “tragédia”.
— (O museu) foi fruto do trabalho de muitos anos de uma equipe multidisciplinar de altíssimo nível, que trabalhou junta para criar uma coisa completamente nova. Ele mudou o paradigma dos museus no Brasil e mesmo fora do país, ele era uma referência internacional — resumiu a coordenadora.
Ferraz disse considerar o espaço “revolucionário”, não apenas pela “tecnologia e pelo formato”, mas pela forma de “encarar a língua portuguesa no Brasil para um público amplo”.
— Era um museu democrático — disse.
Inaugurado em março de 2006, o museu é um dos mais visitados do Brasil e da América do Sul. Ele foi concebido e implantado pela Fundação Roberto Marinho, instituição ligada ao Grupo Globo, graças a convênio com o governo de São Paulo, responsável pela gestão. Ferraz afirmou que existem cópias de segurança da maior parte do acervo digital do museu.
— Tem que ver em que estado está, para saber o interesse tanto da fundação (Roberto Marinho) quanto do estado de São Paulo de rever isso. No mínimo, toda a pesquisa e os roteiros a gente tem. Precisamos aguardar um pouco para ver como isso vai andar — afirmou.
OUTRO INCÊNDIO EM 1946
O edifício da Estação da Luz já havia passado por um incêndio de proporções parecidas na madrugada do dia 6 de novembro de 1946, quando o relógio da Luz foi completamente destruído pelo fogo, bem como toda a estrutura dianteira do edifício. A escassez de água atrapalhou o trabalho de salvamento naquela manhã, e os bombeiros chegaram a recorrer às águas do lago da Estação da Luz para abastecer as mangueiras. O fogo irrompeu na seção de Contabilidade da Estação por volta das 2h e rapidamente se alastrou, só sendo controlado às 7h. Dois bombeiros ficaram feridos. A Estação só seria inteiramente reconstruída em 1950.
TECNOLOGIA DE PONTA
O projeto de implantação do museu e restauração do prédio da Estação da Luz custou aproximadamente R$ 37 milhões, segundo dados oficiais. O projeto arquitetônico é de Pedro Mendes da Rocha e Paulo Mendes da Rocha.
O espaço era considerado um dos mais modernos da cidade de São Paulo, por apresentar forma expositiva com uso de tecnologia de ponta e recursos interativos para a apresentação de conteúdos.
Além de uma exposição do acervo permanente, o museu apresentava desde 20 de outubro a exposição “O tempo e eu e você”, sobre um dos maiores pesquisadores do folclore e da cultura popular brasileira, Luís Câmara Cascudo. A exposição seria exibida até fevereiro de 2016.
Uma segunda mostra tinha sido aberta há uma semana, com 100 charges, caricaturas e quadrinhos selecionados do Salão Internacional de Humor de Piracicaba.
— Pelo que vemos das imagens da televisão, tudo deve ter sido destruído. Mas eram reproduções, os originais não estão lá — afirma o cartunista Eduardo Grosso, funcionário da Secretaria Municipal da Ação Cultural de Piracicaba que participa da comissão organizadora do Salão de Humor.
A exposição foi inaugurada no último dia 15 e ficaria em cartaz até 28 de fevereiro.
— É lamentável isso ter acontecido. Ao menos, o Museu da Língua tem um padrão de não guardar acervo. O que deve se perder são os equipamentos, que têm um custo alto, mas podem ser substituídos — completou.