Cabo honorário
Redação DM
Publicado em 18 de dezembro de 2015 às 21:17 | Atualizado há 11 anosEm 1989, escolhida Miracema a capital provisória, o setor imobiliário, principalmente o da locação, inflacionou demais, pois o súbito deslocamento de centenas de autoridades e milhares de funcionários e aventureiros catapultou os aluguéis a um patamar inimaginável. Ganhou-se muito dinheiro com a construção de dormitórios e pensõezinhas de quinta categoria, que, não obstante a sofrível qualidade, viviam lotadas.
Eu era presidente do Tribunal de Justiça do Tocantins e, como todos os recém-empossados, precisava urgentemente de uma casa de residência. A valência era que, se Miracema tinha esgotado sua capacidade de aboletar o pessoal, ali na margem oposta do Tocantins estava Tocantínia, que era administrada pelo conhecido Xuxu Bucar, sempre solícito em buscar acomodar todos os que vinham à sua procura.
Quando soube que eu estava atrás de casa de aluguel, apressou-se em oferecer-se para ajudar-me, tanto pela sua peculiar gentileza como pelas vantagens indiretas que poderia auferir em arranjar uma casa em sua cidade para o presidente do Tribunal, o que lhe garantiria um trânsito mais livre no improvisado “Palácio Araguaia”, onde os desembargadores nunca entraram precedidos por marcação de audiência. Em outras palavras: poderia pegar uma “carona” em qualquer audiência que eu tivesse com o governador.
Dito e feito: alugou a casa de “Seo” Miranda e colocou à minha disposição.
Mas surgiu um pissilone na história: eu dependia da balsa do Pedro Iran (as famosas Pipes) para cumprir o expediente no Tribunal, e isto significava quatro passagens diárias, o que não compensava. E Xuxu, todo político e maneiroso, achou a solução: acertou com o balseiro de não me cobrar a passagem, e se houvesse qualquer qüiproquó, a prefeitura pagava.
E assim se deu: por muito tempo (o balseiro já me conhecia), não meti a mão na algibeira para tirar nem dez toes para pagar a passagem.
Um dia, trocaram o balseiro e não o avisaram da regalia de que eu desfrutava, a exemplo de outras autoridades. E lá cheguei, a bordo de um opala preto em que a gente andava, com o motorista, soldado Nonato, fardado, e eu sentado no banco de trás, como convinha a qualquer autoridade. E o homem (que havia sido colocado ali para dar um custeio nos aproveitadores, que sonegavam a passagem e davam prejuízo ao Pedro Iran) chegou autoritário:
– A passagem!
Aí, o Nonato interveio:
– O homem aí é desembargador, rapaz! É presidente do Tribunal…
– Desembarcador? Que diabo é isto? – quis saber.
Depois que Nonato explicou tim-tim por tim-tim o que era aquilo e o que era um Tribunal de Justiça, o balseiro, cheio de razão, deu de ombros e sentenciou:
– Cabo da puliça, que é da puliça, paga. Então ele tem que pagar!
Não adiantou argumentar: tive que escamar o dinheiro da passagem. Mas no dia seguinte fui ao comandante da PM, que era o cel. Osvaldo Mota, exigir uma divisa de cabo honorário, pois cabo da Polícia do Tocantins tinha muito mais moral que um desembargador.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado – [email protected])