Policiais do Bope vazavam operações e vendiam armas para traficantes
Redação DM
Publicado em 10 de dezembro de 2015 às 23:20 | Atualizado há 11 anosRIO – A Polícia Militar e o Ministério Público (MP) realizam, na manhã desta sexta-feira, a operação Black Evil, que visa a cumprir cinco mandados de prisão preventiva contra policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) acusados de corrupção passiva, além de 15 mandados de busca e apreensão. Quatro policiais já foram presos. O quinto está em Miami, nos Estados Unidos. Ele já foi avisado do mandado de prisão e teria garantido que se entregará quando retornar ao Brasil. Um sexto policial militar teria sido preso nesta sexta-feira, mas as circunstâncias ainda não foram esclarecidas.
Segundo a denúncia do MP à Justiça, entre os meses de agosto e dezembro deste ano, os suspeitos receberam propina de traficantes de várias comunidades do Rio e da Baixada Fluminense em troca de informações sobre operações do Bope. Os valores recebidos pelos policiais variavam entre R$ 2 mil e R$ 10 mil por comunidade. Eles também negociavam com traficantes armas apreendidas em outras ações do batalhão.
A operação é resultado de uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público; da Coordenadoria de Inteligência da PM e da Corregedoria Interna da PM. Os mandados foram expedidos contra os policiais Maicon Ricardo Alves da Costa, o Preto 1; André Silva de Oliveira, o Preto 2; Raphael Canthé dos Santos, o Preto 3; e Rodrigo Meleipe Vermelho Reis, que está em Miami. Já o PM Silvestre André da Silva Felizardo, o Corintians, é ex-integrante do Bope e atualmente está lotado no 15º BPM (Duque de Caxias), na Baixada Fluminense.
A denúncia acusa os PMs de terem recebido semanalmente propina de traficantes de uma facção criminosa em troca de informações sobre operações realizadas pelo Bope nas comunidades Faz quem Quer, em Rocha Miranda; Covanca, Jordão e Barão, em Jacarepaguá; Antares, em Santa Cruz; Vila Ideal e Lixão, em Duque de Caxias; Complexo do Lins, no Méier, e Complexo do Chapadão, em Costa Barros. As atividades policiais eram monitoradas 24 horas, durante todos os dias da semana, e vazadas detalhadamente aos criminosos.
Foram presos nesta sexta-feira o terceiro-sargento André Silva de Oliveira, que era do Bope e atualmente estava no Departamento Geral de Pessoal (DGP), o soldado Raphael Canthé dos Santos, além dos cabos Maicon Ricardo Alves da Costa e André da Silva Felizardo, que, a pedido, foi transferido para o 15º BPM (Caxias). Felizardo seria o chefe da quadrilha. Segundo as investigações, ele aliciou policiais de cada um dos quatro grupos de plantões do Bope. A escola de plantão na unidade é de 24 por 72 horas. Assim, os traficantes poderiam ser informados sobre operações do batalhão durante todos os dias e noites da semana. Na casa de Rodrigo Meleipe foram apreendidos R$ 78.400.
Segundo um dos investigadores, os agentes telefonavam para traficantes de dez favelas e davam o panorama: “bom dia! Está tudo calmo. Estaremos em tal lugar”. As informações eram passadas até durante as noites e também quando as ações iriam acontecer em comunidades controladas por traficantes de facções rivais.
A investigação começou após o fracasso numa operação realizada em maio pelo Bope no Morro Faz Quem Quer, em Rocha Miranda. Segundo os investigadores, a ação aconteceu num sábado à noite e não havia ninguém nas ruas da favela, o que despertou a desconfiança do comando do batalhão, que decidiu investigar.
— Nem cachorros latiram na comunidade — comentou um agente.
As investigações vão continuar. Eles responderão junto à Auditoria de Justiça Militar por violação de segredo funcional e por corrupção. Cada um deles será indiciado dez vezes por corrução. Eles tamtém responderão na Justiça comum por associação ao tráfico e formação de quadrilha.
Na manhã desta sexta-feira, o Bope fez uma operação do Morro da Covanca para tentar localizar traficantes que pagavam propina aos policiais. Eles constataram que a ação havia vazado, mas conseguiram apreender três fuzis.
Nas casas, nos armários funcionais e outros locais em que foram cumpridos mandados de busca e apreensão foram encontrados os seguintes objetos: uma pistola 9mm; uma granada de luz; uma granada de gás; duas lunetas de fuzil; 157 munições de 5,56; três munições de 7,62; 34 munições de .40; dois rádios transmissores; 11 celulares; uma relação contendo os telefones dos alvos da investigação e de traficantes de drogas; um cartão de memória; um chip de celular; um CPU; um pen drive; cinco notebook’s; um tablet; e uma filmadora digital.
Além de promotores de Justiça do Gaeco, participaram da investigação os agentes da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, da Inteligência e da Corregedoria da PMERJ e ainda o próprio comandante do Bope.