Cotidiano

“Sofri pelo Estado de Goiás e pelo Tocantins”

Redação DM

Publicado em 10 de dezembro de 2015 às 21:32 | Atualizado há 2 anos

As instituições necessitam de algumas regras, é verdade. Basicamente, a estrutura de uma Academia de Letras, por exemplo, é feita de regulamentos e modos que devem ser seguidos para o melhor funcionamento da mesma. Assim também se faz política que é um emaranhando de deveres e direitos a serem seguidos pelos governantes na busca de uma boa gestão. A professora, política, conhecida por ser uma das primeiras vereadoras mulheres do Estado de Goiás, Ana Braga, esteve desde a fundação de algumas dessas instituições na nossa região. Com extrema propriedade e grande zelo comas palavras ela contou ao Diário da Manhã a realidade de Goiás em seus tempos na política e como ela vê o cenário atualmente. Confira abaixo à entrevista completa:

Dona Ana Braga, para começar a entrevista conte um pouco sobre sua vida política.

Vou começar do começo, como diz o roceiro, pra te explicar bem. Eu nasci numa cidadezinha onde hoje é o Tocantins e outrora era o norte de Goiás. Até hoje não melhorou em nada, na verdade até piorou depois que saí de lá. Tínhamos uma sociedade organizada, não havia ladrões, não se conhece a história de um prefeito que havia roubado quando exerceu esse título. Hoje entra um e sai outra e saem todos com algum processo no Tribunal de Contas e ainda se reelegem, sem devolver o dinheiro roubado. Esse descaso do processo humanístico do homem é que está levando o Brasil para esses garimpos tristes da vida. Tenho 92 anos e já fui secretária de Estado, uma das primeiras vereadoras mulheres de Goiânia e depois muitas mulheres executaram o mesmo cargo com dedicação. Hoje os deputados pensam apenas no seu domicílio, não se aproximam do povo. Toda época política tiveram seus erros (Grécia, China, Itália), mas havia uma coisa: erros pela pátria, não por desejos pessoais.

Você acredita que os políticos atualmente tem essa vontade de acumular poder e mais poder em suas mãos?

Eles cuidam primeiro de arrumar a casa deles (que por sinal já é bem arrumadinha). Os primeiros cargos vão para filhos e parentes, e não tem concurso não, quem faz concurso é pobre e nem sempre são nomeados. Eu estou dizendo isso, pois já vivi. Deixei de praticar a política como antes porque eu era viva dentro dela. Sofri pelo Estado de Goiás e pelo Tocantins, ninguém pode dizer que Ana Braga não deu a vida por esses dois Estados. Na redemocratização deste Brasil eu andei por todo lado desse Goiás: caminhão, andando, subindo ladeira e de todo jeito que precisava.

A mulher ainda sofre na hora de exigir sua falar. Qual seria a mudança daquela época para agora?

É muito fácil explicar isso. Fui a primeira mulher e ninguém pode contestar isso, pois lutei pelos direitos da mulher que são os mesmos aprovados na França. Mas ela por acaso se igualou ao homem em alguma época? Igualou-se. Mas em que? Na sociabilidade que é poder ir a qualquer lugar que um homem vai.

Meu pai era carpinteiro, eu devia ter uns dez anos e morava em Trindade, minha segunda terra natal. Chegava a época do final do ano e todo mundo era pobre na região, mas eu resolvi fazer uma cartinha pro Papai Noel. Meu pai coitado ganhava muito pouco, mas ele comprou um bombom pra mim, colocou em um saquinho e enfiou dentro do meu sapato. Eu abri no outro dia e vi aquilo, até hoje eu vejo aquele bombom quando fecho os olhos. Hoje eu vi um neto meu falando pro meu filho que não queria algo de natal, pois outro amigo ganhou algo melhor. Ora, isso é escolha, é exigência daquilo que se quer obter. Não existe exigir presente, isso a gente ganha, seja uma flor, um brinquedo e não tenho o que se paga quando é dado de boa vontade.

Me pergunto: essas pessoas que nasceram pobre igual a mim, mas em poucos anos se tornam “bilhardários”. Por exemplo, o Lula, um cara que era pobre a vida inteira e se aposentou por conta de perder um dedinho. Toda família está muito bem. Um homem que fala como se ainda fosse presidente e massacrando a democracia do brasileiro. São mais os valores concedidos do que as necessidades do povo.

E sobre o novo estatuto da Academia Goiana de Letras? A senhora que é membro desta, se sentiu lesada com esta mudança?

Sou acadêmica, exerço meu cargo com muita honra e alegria. Soube que esse estatuto foi aprovado por todos os senhores acadêmicos. Neste estatuto, nenhum acadêmico poderá se pronunciar por mais de cinco minutos na tribuna. Nenhum acadêmico poderá receber uma parte que vá além disto. A palavra é o veículo do homem, onde ele se defende- se expressa e diz suas vontades. Pode ser que a pessoa falando muito se escute muita besteira.


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