Esportes

Muro de concreto

Redação DM

Publicado em 7 de dezembro de 2015 às 23:58 | Atualizado há 11 anos

Se 2014 foi considerado pelos torcedores colorados como o pior e mais sofrido ano na história do Vila Nova, 2015 veio como uma redenção. Capitaneado pelo jovem presidente Gutenbergue Veronez, o Guto, o Tigre veio com tudo para recuperar os seus respectivos lugares, em âmbito regional e nacional. Se em 2014 aconteceram os trágicos rebaixamentos no Campeonato Goiano e no Brasileiro Série B, 2015 reservou uma temporada de glórias. Como uma fênix, o Tigre ressurgiu das cinzas e conquistou, com sobras, os acessos e os títulos do Campeonato Goiano Série B e do Brasileiro Série C. O DM inicia hoje uma série de entrevistas com os principais personagens desse ano histórico

 

Um dos jogadores que exemplificam muito bem a expressão “afirmação” dentro de campo é o goleiro Edson. Formado nas categorias do Atlético-MG, o arqueiro teve poucas oportunidades de início no Galo Mineiro, mas acabou sendo titular em 2008, demonstrando algumas das qualidades que vemos hoje em campo, com a camisa colorada.

Porém, com uma atuação ruim contra o Avaí em 2009, o goleiro acabou rescindindo com o Galo, e em 2010, foi apresentado por um dos rivais do Vila, o Atlético-GO, para ser o reserva de Márcio. Com apenas sete partidas pelo Dragão, Édson acabou se transferindo para o Atlético-PR, onde não atuou, sendo emprestado ao Itumbiara. Em 2012, o goleiro chegou ao Goiás, rival do Vila, para ser reserva de Harlei (atual gerente de futebol esmeraldino) e Renan, o goleiro titular.

Com dois anos dentro do Verdão e pouquíssimas oportunidades, Edson acabou “mudando de ares” e no início deste ano, foi confirmado como o goleiro titular do Vila Nova para a disputa do Campeonato Brasileiro da Série C e da Divisão de Acesso, temporada 2015.

Com a camisa 1 garantida, o goleiro foi driblando a desconfiança dos torcedores colorados e com defesas importantíssimas e atuações espetaculares, compôs, ao lado de Vinicius Simon, Vitor e Gustavo Bastos, a melhor defesa do Campeonato Brasileiro da Série C, inclusive sendo chamado pelo narrador Hugo Sérgio, da Rádio 730, “Muro de Concreto, ruim de derrubar”, em alusão à música Tropa de Elite da banda paulista Tihuana.

O goleiro fala neste bate-papo que teve com a reportagem do DM sobre como driblou a desconfiança dos torcedores e principalmente o que fez um time tão desacreditado, como era o do Vila Nova, se tornar um dos mais consistentes, sendo o campeão brasileiro da Série C desta temporada.

 

Entrevista – Edson

DM: Como foi chegar com tanta desconfiança principalmente por ter atuado nos rivais?

Edson: “No começo foi um pouco complicado, mas eu sabia da minha qualidade, das minhas condições. Tenho que agradecer principalmente a confiança do Hugo (Jorge Bravo, diretor de futebol), que no começo eu fui bastante contestado e ele que me segurou no time e com muito trabalho, com muita dedicação eu acho que eu pude mostrar aquilo o que eu sei fazer. Com o passar do tempo eu fui conquistando a confiança do torcedor, conquistando nossos objetivos também, que eu acho que a confiança do torcedor ela vem com vitórias, com objetivos traçados e graças a deus cumprimos as metas que nos foram passadas para nós que fomos contratados esse ano para reerguer a história do Vila Nova, porque uma instituição do tamanho que é o Vila, não pode passar um ano tão vexatório como passou em 2014.  Foi montado um grupo de homens, que estavam querendo um lugar ao sol e a prova disso são os resultados, um título da divisão de acesso, muito se fala que ter sido campeão era mais do que obrigação,  mas obrigação era o que a gente estava disputando e o jogador é visto com conquistas, com títulos. Na Série C, começamos da mesma forma, já que muitos falavam que a gente ia cair, que não tinha time para subir e a gente trabalhando quietinho, fomos mostrando nosso futebol jogo a jogo”

 

DM: Na sua chegada, como o elenco te recepcionou?

Edson: “Me recebeu muito bem, já conhecia alguns jogadores. Eu costumo falar que eu agradeço muito ao Robston, porque ele que me indicou. A gente já tem uma amizade dos tempos de Atlético-GO, e eu vim mais por ele também por que é um cara vencedor, é um cara que principalmente aqui no estado de Goiás tem  uma história muito bonita. Quando se tem vencedores no grupo as coisas tende a fluir para o lado positivo e foi isso que aconteceu neste ano”

 

DM: Na sua opinião, qual foi o maior momento de instabilidade que a equipe passou nessa competição?

Edson: “Eu acho que difícil pelo fato da desconfiança. Logicamente que esses jogadores que estavam aqui nesse ano, não tiveram culpa do ano passado do Vila Nova, a gente veio para reestruturar, pra botar o Vila Nova onde ele merece estar. Mas havia muita desconfiança, muitos jogadores que no meu caso, passei em grandes clubes, mas nunca tive a oportunidade de ter uma sequência, então gerou muito essa desconfiança, acho que esse foi o fator que mais pesou, mas o nosso grupo era maduro, experiente que soube digerir as criticas. Costumo falar que a crítica faz bem para nós jogadores. Temos que saber digerir elas, pegando as construtivas para que possamos crescer, pois principalmente no caso de jogador de futebol, se você conviver com apenas elogios, você acha que está tudo bom e acaba relaxando. Então falando principalmente de mim, eu fui bastante criticado, por muitas vezes injustamente, com falta de respeito mas isso é normal. Eu peguei essas críticas para poder crescer, para poder melhorar ”

 

DM: As críticas serviram como motivação?

Edson:  “Acho que motivação não. A motivação existe de poder trabalhar em um clube, de poder estar empregado, mas as críticas me fizeram crescer sim, porque como falei, as críticas construtivas ela te faz crescer, você pega aquilo para você melhorar no que você está errando. Isso é normal, natural, mas temos que saber digerir as críticas e se você se abalar, aí acaba dando tudo errado. Sou um cara maduro, rodado, que soube administrar bem isso aí, pude crescer e fazer um grande ano com meus companheiros”

 

DM: Qual foi o divisor de águas na Divisão de acesso para o Vila na competição?

Edson: “Eu acho que foi o jogo nosso do acesso contra o Anápolis lá. Se criou um clima de guerra, acho que até desnecessário por parte do pessoal do Anápolis. Não sei de onde tiraram isso e a gente foi lá pra jogar futebol, preparado para tudo que pudesse acontecer. Eu lembro disso até hoje e vocês também, que na hora do hino já teve confusão e isso mexeu muito com a gente, nós fomos com sangue nos olhos e ali a gente conquistou o acesso e o título, também ficou em aberto, mas ninguém merecia mais do que a gente por tudo que foi criado pelo pessoal do Anápolis. Mas isso é válido, para quem está numa competição, eles queriam ser campeões, a gente também, tanto é que depois vieram três jogadores para cá e a gente recebeu superbem, que nos ajudaram muito na conquista da Série C.”

 

DM: O que foi feito na época para motivar vocês no jogo contra o Anapolis?

Edson: “A motivação ela é normal de uma disputa de poder colocar o Vila numa Série A de Goiano. Eu acho que o Vila não merecia nunca estar disputando uma divisão de acesso, a motivação é isso. Hoje muito se fala que se caso der uma declaração que você vai ganhar o jogo, o adversário pega isso como motivação. Futebol tem que parar com essas picuinhas. Então eu acho que a motivação ela é de você estar empregado, porque no mundo do futebol a gente vê muitos jogadores desempregados, já tenho a grande motivação de poder acordar todo o dia, saber que eu tenho um lugar para trabalhar, um clube muito bom, bem estruturado e pessoas amigas, essa é a minha motivação. Nada que as pessoas falam, eu vou pegar para servir como motivação.”

 

DM: O que fez um time que antes era desacreditado, se tornar o campeão da Série C?

Edson: “Trabalho e a união. Passei por diversos clubes, com grupos bons, mas no nosso clube se formou um grupo de amigos. É lógico que teve discussões, mas isso é normal dentro de um grupo de futebol com 30, 32 pessoas, mas nada que passasse o seu limite. Então eu acho que a nossa união, a nossa amizade fez que nós nos fortalecêssemos mais e a prova disso é os resultados que obtemos nesse ano”

 

DM: A sua melhor atuação foi contra o Brasil de Pelotas?

Edson: “Eu acho que fica marcado pela disputa de pênaltis, mas eu acho que o meu melhor jogo foi contra o América-RN, que a gente acabou perdendo por 2 a 1 e tomamos um gol no último minuto. Acredito que nesta partida eu tive um grande jogo. Se nós tivéssemos conquistado um empate teria sido melhor, principalmente pra mim, mas não deu, mas graças a deus que conseguimos conquistar o nosso objetivo final que era o acesso e consequentemente o título.”

 

DM: Como foi formar a melhor defesa da Série C, ao lado de Vinícius Simon, Vitor e Gustavo Bastos?

Edson: “Importante. São grandes jogadores que se deram muito bem ali atrás, mas temos que frisar, que isso parte lá da frente dos nossos atacantes, do Frontini, do Moisés, do Erminio e do Bruno Lopes, dos nossos meias que fazem a marcação pressão lá na frente e isso dificulta que os adversários cheguem com muita facilidade. Acredito que isso é mérito de todos, está todo mundo de parabéns e fico muito feliz de ter feito parte disso.”

 

EDSON NA SÉRIE C

Edson Pereira Lisboa (29 anos)

Na Série C

23 jogos

4 cartões amarelos

15 gols sofridos

 

 

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