Revolução cicatrizante
Redação DM
Publicado em 7 de dezembro de 2015 às 18:03 | Atualizado há 1 anoUm método relativamente novo para tratamento de feridas em pacientes internados em hospitais está revolucionando os procedimentos médicos em três vertentes: rapidez na melhora de ferimentos, redução do tempo de internação e redução de custos com curativos, medicamentos e diárias de hospitais, além dos honorários de médicos e auxiliares. A maioria dos planos de saúde aprovaram o sistema e o incorporaram aos seus protocolos, além de grandes hospitais da rede pública de saúde como HGG e Crer, em Goiânia.
O tratamento é conhecido como vácuo terapia ou terapia por pressão negativa, ou simplesmente VAC como os especialistas o chamam comumente. Consiste basicamente em uma bomba de sucção acoplada a um sistema que fecha hermeticamente o ferimento, sugando todo o tecido e promovendo um fechamento da ferida de dentro para fora. Os médicos usam termos científicos e desconhecidos dos leigos para definir o procedimento, mas na prática, para facilitar a compreensão é simplesmente um sistema que faz a granulação do tecido eliminando impurezas e tecidos mortos, sugando secreções e fazendo com que o ferimento se cicatrize em tempo ultrarrápido, se comparado à espera em condições usuais de tratamento convencional.
Um dos entusiastas do procedimento é o cirurgião plástico Leonardo Rodrigues da Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras. Médico goiano e uma das maiores expressões brasileiras do tratamento de queimados ele conheceu o processo há quatro anos e já o aplicou inúmeras vezes em procedimentos em Goiás. “Esse sistema surgiu para a medicina de modo aplicável há cerca de oito ou 10 anos e há quatro está disponível no Brasil. A terapia a vácuo ou terapia de pressão negativa é uma forma de tratamento de feridas como queimaduras, perda de substância, grandes perdas de tecido, escaras (feridas em quem fica muito tempo acamado), pé diabético e outras que visa basicamente a redução do tamanho da ferida. Como ele faz uma pressão negativa ele retira o líquido da ferida, que é aquela secreção indesejável e que prejudica a cicatrização”, explica.
Isso favorece sobremaneira o processo de cicatrização, adianta o cirurgião plástico, por promover o estímulo e a produção de tecidos que vão favorecer o fechamento dessa ferida. Em linguajar médico é a “granulação”, ou fechamento de dentro para fora. “Normalmente é recomendado para feridas que acometem toda a espessura da pele, para casos em que houve perda de toda a estrutura anatômica da pele, ou seja, a epiderme e também a derme”.
Casos de queimaduras em que a pele foi extremamente danificada, perda de tecido como acidentes graves e outros casos críticos são perfeitos para a aplicação do VAC, atestam os médicos.
Nádegas

Um caso emblemático que foi tratado com VAC e impressionou os médicos pelo sucesso e rapidez na melhora da paciente foi o de uma jovem 20 anos de Anápolis que teve as nádegas dilaceradas a facadas desferidas pelo namorado em um ataque de ciúmes. O caso aconteceu em agosto do ano passado e ela ficou internada no Hospital de Urgências de Anápolis (Huana) até que a solução foi buscada em Goiânia, no Hospital Geral de Goiânia (HGG) para a cura definitiva.
A jovem recebeu enxerto de pele e carne nas nádegas, mas o enxerto foi rejeitado e o caso poderia ter um desfecho terrível e poderia até evoluir para óbito se não fosse tratada com extrema urgência. Os médicos do HGG que a assistiram optaram pelo VAC como última alternativa e o sucesso foi surpreendente. “Ela ficou com o sistema de pressão negativa por cerca de 20 dias, um prazo relativamente demorado para esse tratamento, mas houve a granulação desejada, fechamento da ferida a níveis aceitáveis e recuperação satisfatória. Esperamos que em 2016 ela possa fazer novo enxerto sem comprometimento do sucesso do processo que já houve até aqui”, explica um dos médicos que a assisti

Redução de custos
O presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras, Leonardo Rodrigues da Cunha, atesta ainda que o procedimento reduz os custos de tratamentos médicos e contribui para a abertura de novas vagas para internações. Ele explica que para avaliação da relação custo-benefício de um tratamento como esse são muitas variáveis que precisam ser consideradas e que influenciam diretamente na composição dos custos hospitalares. “Um paciente com queimaduras, por exemplo, precisa ter o curativo trocado todos os dias. Isso precisa ser feito em um centro cirúrgico com anestesia e todo o staff médico como a equipe multidisciplinar, medicamentos, curativos e taxas hospitalares, o aumenta substancialmente o custo do tratamento”, explica. À medida que se reduz a frequência da troca do curativo reduz igualmente o custo do tratamento.
No caso de utilização do VAC o curativo é trocado a cada 72 horas e a recuperação é acelerada de forma inigualável. O paciente fica pronto para procedimentos reconstrutivos mais rapidamente e isto diminui de modo gradativo os gastos com internação, medicamentos e honorários médicos.
A palavra dos profissionais médicos que conhecem e atestam a eficiência do tratamento foi primordial para que operadoras de planos de saúde e gestores de saúde de hospitais públicos incorporassem o tratamento aos seus protocolos.
Limpeza
Outro entusiasta do tratamento a vácuo é o ortopedista Edmundo Tatibana, do Hospital dos Acidentados. Acostumado a ver pacientes que perdem muito tecido em acidentes e sofrem em internações ele atesta o sucesso do procedimento principalmente pelas condições terapêuticas que ele possibilita.
“Já utilizamos em nossos procedimentos com resultados bons, plenamente satisfatórios, por facilitar a cicatrização e a recuperação dos pacientes”, explica. Os ferimentos, frisa o médico, têm um melhor controle de infecção por ficarem ao abrigo do ar e do contato com agentes infecciosos. “É feito um desbridamento, que é a limpeza da ferida, aplicação do VAC com um mecanismo de aspiração contínua que retira secreções e cria um meio mais limpo, com menos proliferação de bactérias, o que debela o processo infeccioso facilitando a cicatrização”.
O Centro de Reabilitação e Readaptação (Crer), em Goiânia, é um dos mais renomados centros médicos do Brasil e é modelo para muitos outros similares que estão em montagem pelo País afora. Suas especialidades em ortopedia, traumatologia, fisioterapia e reabilitação motora fazem dele uma das mais procuradas unidades de saúde do Brasil, com pacientes de todo o país. O cirurgião plástico Fabiano Calixto Fortes de Arruda atende no Crer também e já aplica a terapia por pressão negativa com sucesso.
“Esse é um procedimento que é indicado para casos específicos e que consegue resultados muito bons em cicatrização. Os pacientes conseguem sair mais rápido do hospital e terem recuperação mais rápida para poder retornar às suas atividades”, comenta.
Em Brasília e outros estados o sistema já é utilizado largamente. Em Goiás está restrito a hospitais da rede estadual, mesmo assim, somente onde as Organizações Sociais o adotaram como protocolo eficaz.


