Artigo: A aventura de Putin
Redação DM
Publicado em 3 de dezembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosQuando o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que montaria uma base aérea na Síria para combater o Estado Islâmico (EI) e apoiar o presidente Bashar al-Assad, as análises se dividiram entre as que sugeriam que ele era esperto como uma raposa, e as que diziam que ele era simplesmente maluco. Dois meses depois, a manobra o deixou com um número maior de russos mortos; num clima de tensão com Turquia e Irã; agindo como o advogado de defesa de Assad — um assassino em massa de muçulmanos sunitas, os mesmos muçulmanos sunitas que vivem na Rússia — e sem nenhum avanço real no combate ao EI.
A ameaça do EI está se tornando estratégica. O enorme fluxo de refugiados da Síria e do Iraque provocado pelo grupo está levando a União Europeia (UE) a fechar fronteiras e limitar o trânsito livre de pessoas — o oposto da ideia por trás da criação do bloco. Isso irá diminuir o crescimento econômico da UE, e uma UE enfraquecida enfraquecerá os EUA.
Mas para destruir o EI, é preciso entender três coisas: 1) Ele é o produto de duas guerras civis: uma entre sunitas moderados e extremistas e outra entre sunitas e xiitas. E essas guerras se alimentam; 2) A única maneira de derrotar o EI é minimizando a luta entre sunitas e xiitas e fortalecendo os sunitas moderados contra os extremistas; 3) A luta deve ser comandada por árabes e muçulmanos, mas fortemente apoiada pelos EUA, pela UE, e, sim, pela Rússia também.
Embora os objetivos de Vladimir Putin sejam incertos e talvez limitados a proteger o regime de Bashar al-Assad, Obama realmente quer derrotar o EI. Tão importante quanto isso, ele quer derrotar o EI sem ser Putin ou George W. Bush, que simplesmente mergulharam no meio do conflito.
Para derrotar o EI é preciso uma coalizão que se reforce mutuamente. Que soldados árabes, turcos e curdos — com o apoio aéreo de forças especiais dos EUA, da Otan e da Rússia — erradiquem o EI indo de porta em porta. É preciso que o Irã encoraje o governo xiita de Bagdá a criar um “Sunistão” semiautônomo nas áreas dominadas pelo EI, dando a sunitas moderados os mesmos poderes que os curdos têm no Curdistão, e que haja uma alternativa política ao EI. E é preciso que o Irã concorde com uma transição que substitua Assad.
Em resumo, é preciso uma solução de divisão de poder aceita e defendida pelas principais partes, ou uma força armada para esmagar o EI e permanecer na região por tempo indeterminado, para que o grupo não retorne. Obama não pode garantir a primeira opção e não quer apostar na segunda. E os americanos, entre eles os críticos do presidente, também não querem.