Especialistas temem adiamento das eleições na Venezuela
Redação DM
Publicado em 19 de novembro de 2015 às 05:06 | Atualizado há 11 anosWASHINGTON – Especialistas em América Latina esperam cada vez mais confusão nas eleições parlamentares da Venezuela, marcadas para 6 de dezembro. Diante de uma derrota iminente do governo — que segundo as últimas pesquisas está 35 pontos percentuais atrás da oposição — analistas creem que o cenário vá piorar no país e chegam a apostar que Nicolás Maduro poderá adiar ou cancelar as eleições. Na noite de terça-feira, Felipe González, ex-presidente do governo espanhol, disse em Washington que o país é um “fator negativo” para a região.
— Na Venezuela não há uma ditadura, mas sim uma tirania arbitrária — afirmou.
Kevin Casas-Zamora, diretor do Inter-American Dialogue, ex-secretário de Relações Políticas da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ex-vice-presidente da Costa Rica, afirma que a situação na Venezuela piora a cada dia e que pode chegar à violência urbana. Ele vê duas possibilidades mais concretas: ou o adiamento das eleições ou uma reforma constitucional que acabe com praticamente todos os poderes da Assembleia Nacional antes que a oposição conquiste a maioria no Parlamento, esvaziando a vitória da oposição e reduzindo ainda mais a democracia no país.
— Estas pessoas que estão no governo são capazes de tudo. Não espero mais que tentem mudar o resultado pela fraude, pois com isso se pode conseguir 2%, 3% de votos, não dá para reverter 30% deles — disse.
Ele afirma que sem observadores internacionais — haverá apenas um grupo da Unasul —, só não haverá violência se a oposição ganhar e o governo reconhecer. Ele acredita que Maduro deixou a situação tão insustentável que, mesmo se o governo conseguisse ganhar de forma “limpa”, todos acreditariam que foi por fraude.
Oposição cética com Unasul
Jason Marczak, vice-diretor do centro de estudos Atlantic Council, concorda que o adiamento ou até o cancelamento é uma opção cada vez mais forte. Para ele, o governo se mostra cada vez mais desesperado:
— Maduro poderá alegar uma tentativa de golpe, simular alguma irregularidade para evitar as urnas e ganhar mais tempo, tentando preservar a imagem de que o país é uma democracia.
Outros especialistas afirmam, sob sigilo, que a situação da Venezuela prejudica cada vez mais o Brasil. Ao se manter alheio aos graves problemas democráticos do país vizinho por questões políticas, o peso diplomático de Brasília diminui a cada dia e poderá sofrer ainda mais com uma guinada argentina.
Fontes lembram, ainda, que poucos países da região reagiram à forte carta de Luis Almagro, secretário-geral da OEA, que questionou no início do mês a imparcialidade do sistema eleitoral venezuelano e que reprovava a negativa do país em aceitar observadores internacionais. González acusou na noite de segunda-feira, quando recebeu em Washington um prêmio sobre sua liderança pelo “Inter-American Dialogue”, indiretamente o Brasil e a Argentina por conivência. Ele afirmou que os países precisam reagir.
— Os que se dizem amigos da Venezuela e amigos de Maduro precisam falar, todos temos a obrigação de dizer basta já!
A oposição venezuelana, por sua vez, se mostrou cética após o encontro com a missão eleitoral da Unasul ontem. Jesús Torrealba,, chefe da coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD), se mostrou preocupado “com o perfil da missão”.
— Devem mostrar com fatos que têm um comportamento profissional — disse Torrealba, desconfiado.
A MUD queria a presença de observadores da OEA e da União Europeia, mas o Conselho Nacional Eleitoral não aceitou.