Bairro em Paris referência entre jovens vira cenário de tributos
Redação DM
Publicado em 14 de novembro de 2015 às 00:05 | Atualizado há 11 anosPARIS — Situado a poucos metros do Canal Saint-Martin, o Le Petit Cambodge tem mesas e cadeiras coloridas, que se espalham pela calçada, uma ótima comida típica cambojiana com leve sotaque francês – a preço justo -, e fica aberto continuamente (em Paris é comum os restaurantes fecharem por volta das 14h). Por tudo isso, é uma referência entre os jovens locais.
Neste outono de temperaturas amenas na capital francesa – no último fim de semana, fez 22 graus e sol -, sua varanda esteve lotada, invariavelmente. Fazendo uma comparação com o Rio: a esquina das ruas Alibert e Bichat, onde ficam o Le Petit Cambodge e o Le Carillon, também atingido, se parece com o Baixo Gávea em dias não muito cheios.
Hoje, mais um sábado em que estaria certamente vivendo sua festa habitual, as portas estavam fechadas. Uma espécie de serragem espalhada pelo chão cobria as marcas de sangue das vítimas. Curiosos e jornalistas do mundo inteiro ocupavam a rua. Diversos frequentadores passaram para deixar flores, acender velas e fazer preces. Uma mensagem da polícia falava da interdição da cena do crime, e outra, deixada por um senhor, dizia:
“A integração existe para todos, mesmo se suas armas tentam desintegrá-la. Viva a França multicolorida e a resistência!”.
No Le Carillon, que ainda tinha na fachada seu menu anunciando o que seria a “happy hour” da véspera e o wifi gratuito, uma bandeira francesa tinha a inscrição em latim “Fluctuat nec mergitur“. A frase que aparece no brasão de Paris significa, em tradução livre, algo como “Sacudida pelas ondas, mas sem afundar”, ou no caso brasileiro, “enverga, mas não quebra”; evoca o sentimento de uma cidade que já sucumbiu a diversos invasores, sempre bárbaros, mas em todas as ocasiões voltou a ser a majestosa Cidade Luz.
Em frente aos restaurantes fica o Hospital Saint-Louis, um dos mais antigos da capital. Tem grandes muralhas que isolam sua área central – quando foi construído, em 1605, Paris era sacudida pela peste, e era isso que a saúde pública exigia: distância dos contaminados. Hoje a vizinhança do 10eme Arrondissement fazia fila na porta do hospital para doar sangue para os feridos no massacre.
Segundo uma enfermeira, a média dos dias comuns é de 15 a 20 doadores. Depois do atentado, algumas centenas já passaram por lá.