Cotidiano

‘Seu maior desejo era alcançar o martírio’

Redação DM

Publicado em 11 de novembro de 2015 às 07:05 | Atualizado há 11 anos

TEERÃ — Sem lágrimas nos olhos, a viúva Fatemeh rodeia o túmulo do marido, um militar iraniano morto na Síria. Absollah Bagheri, de 34 anos, morreu no dia 22 de outubro ao “defender um santuário nos arredores de Aleppo”, segundo a agência iraniana Fars. Desde então, familiares e amigos vêm tentando garantir que não faltem pétalas frescas sobre sua lápide e oferecem doces àqueles que a visitam. A fé é um poderoso consolo para esses fervorosos crentes.

— Desde que o conheci sabia que seu desejo era alcançar o martírio e, no fim, conseguiu cumprir — revela Fatemeh.

Ao menos 136 iranianos perderam a vida na Síria, segundo relatos das famílias das vítimas publicados pela imprensa local, 20 deles somente em outubro. Apesar dos dados, o Irã insiste que não tem “presença militar” na Síria e que sua missão ali se limita a assessorar. Até o momento, ainda não foi aberto um debate na sociedade iraniana, onde a maioria nem se questiona por que há tantas vítimas se não participam diretamente da guerra.

— Sabia que estava na Síria, ia passar 20 dias. Esperava sua morte porque estava consciente de que ia para uma guerra e que colocava a vida em perigo. Não sei bem o que fazia, mas era franco-atirador — relata a viúva em voz baixa.

Bagheri, como a maioria dos mobilizados para a Síria, era membro do Corpo de Guardiães da Revolução, também conhecido como Pasdarán, o exército ideológico fundado pelo aiatolá Khomeini. Pertencia a uma unidade de elite chamada Jaish Ansar (Exército dos Partidários), encarregada da segurança dos altos funcionários e, como tal, foi guarda costas do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, que compareceu ao funeral.

— Sempre me disse que se não permitisse que fosse para a Síria, eu não poderia me encontrar com a Santa Zeinab, no outro mundo — explica Fatemeh ao ser perguntada se não tentava dissuadi-lo.

Zeinab é a neta de Maomé e muito venerada pelos xiitas que acreditam que ela tenha sido enterrada nos arredores de Damasco, algo que desde o início do conflito sírio fez com que o Irã enviasse voluntários em sua defesa. Teerã admitiu ter mandado assessores militares para a Síria em setembro de 2012, quinze meses depois do início dos protestos contra o regime de Bashar al-Assad.

— Estamos proporcionando ajuda intelectual e de assessoria para a Síria como parte do que o líder supremo chamou de Eixo da Resistência. O Irã está orgulhoso desse apoio — anunciou o general Mohammad Ali Jafari, comandante chefe dos Pasdarán, em uma coletiva de imprensa.

Segundo a União Europeia, “quase dois mil soldados iranianos ajudam Assad”. O analista militar Brian M. Downing estima que a República Islâmica tenha enviado “cerca de quatro mil combatentes xiitas recrutados entre os Hazaras no Afeganistão e uma maioria árabe do Iraque, além de um pequeno contingente de suas próprias tropas por terra”. Duas dezenas de novos túmulos na parte afegã foram criadas no cemitério dos mártires por conta dessa participação.

— A maioria dos iranianos não apoia o governo na decisão de entrar no Líbano e na Síria, mas o Estado Islâmico é o maior inimigo do mundo e conta com o apoio da Arábia Saudita. Se não nos posicionarmos lá, a guerra pode chegar à nossa casa — resume um executivo dando eco a um sentimento generalizado.

Outros duvidam que a ameaça seja tão grande. Ainda assim, entendem que haja interesse territorial estratégico em jogo e aceitam o custo humano.

— Os que morrem são profissionais do Pasdarán ou voluntários; sabem no que se metem, não são obrigados — aponta um professor.

Mas também há uma parte da sociedade que vê o conflito com fins segregacionistas. Ainda que os xiitas sejam maioria no Irã, são minoria dentro do Islã, e muitos estão convencidos de que sua existência na região fique ameaçada se Assad cair.

— É nosso dever religioso — respondem juntos três homens ao lado do túmulo do amigo Ali Amrai, voluntário islâmico de 30 anos que morreu na cidade síria de Daraa no dia 23 de junho.

Eles afirmam que desejam seguir seus passos ainda que, agora, as autoridades não permitam. Reforçam que não têm medo e que amam o martírio. Somente um deles, Mohamed Reza, casado e pai de um filho, conseguiu se alistar e espera ser chamado nas próximas semanas.

— Este cemitério está cheio de mártires da guerra do Iraque. Se tivéssemos medo da morte, teríamos perdido a guerra — completa Hamid Reza.

O rosto branquíssimo de Fatemeh contrasta com a cor negra do chador que a envolve. Parece mais jovem do que os 31 anos que declara ter. O martírio de seu marido a deixou sozinha e com duas filhas: Mohadeseh, de 12 anos, e Zeinab, de 4. Mas em momento algum parece ter dúvidas sobre seu destino.

— Economicamente, não temos problemas, porque a lei estabelece que eu continue recebendo o salário dele — explica.

Questionada sobre as meninas, atenua.

— Disse que o pai está no paraíso, que é o melhor lugar do mundo e que um dia vamos voltar a nos encontrar.

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