Cotidiano

Em nova biografia, George H.W. Bush afia farpas contra Cheney e Rumsfeld

Redação DM

Publicado em 6 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

WASHINGTON – Após anos de reclusão, o ex-presidente George H.W. Bush finalmente rompeu o silêncio sobre figuras-chave do governo de seu filho George W. Bush, disparando críticas ferozes contra o ex-vice-presidente Dick Cheney e o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld. As declarações, contidas em “Destiny and Power: The American Odyssey of George Herbert Walker Bush” (“Destino e poder: a odisseia americana de George Herbert Walker Bush”, em tradução livre), biografia que será lançada na semana que vem, atribuem à influência de Cheney o caráter linha-dura da gestão de seu filho, e descrevem Rumsfeld como “um sujeito arrogante, que auxiliou mal o presidente”.

Embora continue a elogiar o filho, Bush, de 91 anos, culpa-o por ter dado poder a Cheney e Rumsfeld e afirma que o presidente foi, em algumas ocasiões, beligerante em sua linguagem.

“Eu me preocupo com parte da retórica que foi usada — em parte por meu filho, em parte por pessoas ao seu lado”, disse o ex-presidente ao biógrafo Jon Meacham. “Retórica explosiva garante manchetes nos jornais, mas não necessariamente resolve problemas diplomáticos. Penso em situações como a do ‘Eixo do mal’, e acho que pode ser provado historicamente que isso não beneficiou ninguém”, afirmou Bush pai em referência ao termo usado em 2002 para descrever países como Iraque, Irã e Coreia do Norte.

O ex-presidente ainda classifica Cheney — que atuou como secretário de Defesa durante seu governo — como “um bom homem que ultrapassou limites”, e afirma que o político e empresário se tornou uma pessoa diferente entre o seu governo e o de seu filho, adotando uma postura linha-dura e excessivamente combativa e beligerante. Bush especula que a mudança possa ter sido influenciada pela mulher de Cheney, Lynne, e por sua filha Liz, fortemente conservadoras.

“Ele parecia estar se rendendo aos nomes mais belicosos que querem lutar por tudo e se impor no Oriente Médio pela força. Concluí que Lynne Cheney tinha um papel importante por trás dessa postura”, afirmou o ex-presidente. “O grande erro foi ter deixado que Cheney trouxesse uma espécie de Departamento de Estado próprio. Ele montou seu império pessoal lá, e seguiu no seu próprio ritmo. Houve um exagero, mas isso não foi culpa de Cheney, e sim do presidente.”

Isso não significa, no entanto, que o ex-presidente discorde da liderança de seu filho durante a invasão do Iraque, como muitos poderiam suspeitar. Para Bush, a derrubada e captura de Saddam Hussein foram “momentos de orgulho” na História americana, e ele não gosta de comparar sua guerra à de seu filho. “Guerras diferentes, motivos diferentes”, diz ele, negando ter desaprovado as decisões do filho. “Saddam se foi, e com ele foi embora muita brutalidade e maldade.”

Os elogios ao filho, no entanto, não se estendem, já que o ex-presidente evita uma discussão detalhada do período de George W. Bush à frente da Casa Branca. “Ele é meu filho, ele fez o seu melhor, e eu estou a seu lado”, afirma. “É uma equação muito simples”.

Rumsfeld, por sua vez, não ganha elogios. Rival de Bush desde que os dois atuaram juntos durante a gestão de Gerald Ford na década de 1970, o ex-secretário de Defesa é descrito como uma figura desprovida de humildade. “Não gosto do que ele fez e acho que ele prejudicou o presidente”, afirma. “Nunca fui muito próximo dele. Rumsfeld não consegue enxergar as visões dos outros e quer resolver tudo com uma atitude confrontativa e arrogante. Acho que ele pagou o preço por isso.”

Durante a pesquisa, Meachem revelou trechos das entrevistas com Bush a Cheney, que sorriu e disse: “Fascinante”.

“Nunca ouvi nada disso vindo do 41 (apelido dado a Bush, que foi o 41º presidente dos EUA). Ele aparecia de vez em quando e conversávamos, mas ele nunca indicou nada parecido com isso. Sem dúvida, me tornei mais linha-dura após o 11 de Setembro, especialmente quando começamos a lidar com uma enorme questão de terrorismo e armas de destruição em massa. Enfrentamos ameças diferentes, perdemos três mil pessoas. Foi pior que Pearl Harbor”, conta o ex-vice-presidente. “Logo, tivemos justificativas para adotar medidas extraordinárias para defender o país. Eu tinha um acordo diferente com o 43 (George W. Bush, 43º presidente dos EUA), mas discordo que Lynne e Liz devam levar a culpa por isso”.

De seu escritório em Dallas, George W. Bush, que diz nunca ter ouvido tais opiniões do pai, defendeu Rumsfeld e Cheney.

“Tenho orgulho de ter servido como presidente com Dick Cheney e Don Rumsfeld. Cheney fez um trabalho fantástico como vice-presidente, e Rumsfeld comandou habilmente o Pentágono e foi um secretário de Defesa eficaz”, afirmou o ex-presidente em comunicado. “Sou grato a ambos por seus bons conselhos, sua dedicação altruísta a nosso país, e sua amizade”.

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