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Vale do Paranã: medicina popular e cozinha típica

Redação DM

Publicado em 28 de outubro de 2015 às 22:43 | Atualizado há 11 anos

 

A medicina popular é cultivada no mundo inteiro. O sistema da recorrência individual sempre preponderou sobre o da assistência social. Este depende dos regimes e das injunções dos governos. Como no passado, ainda hoje o homem rural recorre constantemente aos remédios caseiros. Só em último caso é que procura o médico.

As propriedades da medicina popular não podem ser simplesmente combatidas, sem prévio estudo que o justifique. A medicina oficial é também passível de erros. Muitos remédios são proibidos após constatar-se que prejudicaram milhões de pessoas. Há casos de cura na medicina popular que ocorrem quando frustrados recursos científicos.

Cumpre relevar que simpatias ingênuas ou ritos mágicos que acompanham certos processos de curas ou mesmo manipulação de mezinhas, revestem de mera aparência a prática medicinal do povo. Pelo sentido psicológico – para substituir a autoridade do médico, pelo sentido místico – para infundir segurança ao paciente. A fé é que cura, diz o jargão popular. Como em termos religiosos se diz: a fé é que salva.

Considerando a força da espiritualidade como poder de cura, algumas faculdades de medicina (primeiro, nos Estados Unidos) já inseriram em sua grade curricular o estudo da religiosidade como forma de auxílio terapêutico, vez que muitas doenças têm fundo psicológico e afetam a ordem espiritual. De certa forma, é o reconhecimento da cultura popular pela riqueza de suas crenças e das formas de relação com o sobrenatural.

Muitas criaturas que vivem confinadas no interior do Brasil, sem qualquer assistência médica, são socorridas por portadores de conhecimentos seguros da flora, utilizados como meio emergencial de cura, não havendo outra alternativa. Dentre as diversas formas curativas predominam aplicações de chás, emplastos, esfregações, infusões, cozimentos, mingaus e sumos, sem falar nas típicas garrafadas dos curandeiros, fórmula terapêutica mais difundida no sertão.

Certa vez minha mãe sofrera escoriações que provocaram uma ferida braba no calcanhar. Quando a gente deu por fé, já estava podre o tecido, quase atingindo o osso. Consultamos um especialista. Deliberou fazer primeiro uma raspagem. Previu a hipótese de ter que amputar o pé, em caso de gangrena. Achei o prognóstico radical.

Em Posse me ensinaram que barbatimão cura qualquer ferida braba, desde pisadura de cavalo até frieira de gado. Decidi aplicar o tratamento. Eu mesmo lavava o pé de Mãezinha, usava uma banha para amolecer a intumescência, retirava a parte apodrecida e aplicava a solução avermelhada de barbatimão. A ferida foi se fechando, de dentro para fora, até recompor a compleição original do tecido. Em menos de um mês Mãezinha estava de calcanhar novo.

Só mais um exemplo de medicina caseira. Eu mesmo contraíra uma afecção ocular. O nervo ótico saltava-me na órbita. A sensação era de uma cratera nos olhos. O oftalmologista recomendou repouso visual e uso intensivo de colírio, até nova avaliação do caso. Passei uns dias sem ler. Sem dirigir. Sem ver a maldita televisão.

Novamente em Posse fui encontrar o remédio: óleo de mamona. Quem me receitou foi meu primo Antolino do Poço. Contou-me o caso: foi assim que curou um olho ferido do seu boi carreiro. Aqui não vou dar receitas, primeiro para não passar por charlatão, segundo para não concorrer com os curandeiros da região (que se cuidem os médicos). Dei apenas meu testemunho pessoal quanto à eficácia de certos remédios caseiros. Esta região é riquíssima em flora medicinal.

Cozinha típica

A cozinha típica, ao estilo baiano e nordestino, está associada não a verduras, mas a massas de cereais, feijão, arroz, milho e mandioca. Na cidade e no campo não se diferem os hábitos alimentares, a não ser segundo as posses dos habitantes.

Do feijão

O feijão é geralmente cozido com pele de porco, osso de tutano ou rejeitos de carne. Substitui a tradicional feijoada do sul. As misturas de feijão cozido com carne e osso ou pele de toucinho (se frita, vira torresmo) são muito saborosas, mas usadas como pratos caseiros e íntimos que não se exibem a visitantes. Feijão cozido junto com arroz é o conhecido mungunzá, prato de origem africana. Feijão frito com torresmo, associado a melancia, tem sabor especial.

As feijoadas torrenciais do leste goiano/baiano (misturas de rejeitos de carne de boi ou de porco), são mais usadas em ocasiões de festas ou de concentrações populares como eleições,  mutirões, casamentos e até velórios (em que se servem comes e bebes). São tachos enormes de feijão com arroz servido com farinha ou paçoca de carne. Verdura é esporádica. A comida para ter status deve ser gorda. Comida magra: ou o dono da casa é fraco (pobre) ou é usurário. O magro tutu, derivado do feijão, é um dos pratos eliminados da cozinha regional.

Do arroz

O arroz do sertão goiano/baiano pode ser preparado de várias maneiras: arroz solteiro (o tradicional arroz branco com água e sal), ou arroz casado: com pequi, com guariroba, com abóbora, com galinha (galinhada) ou com carne picada (arroz tropeiro). Arroz frito é o arroz amanhecido, passado na gordura e misturado com farinha. Para merendas: cuscuz, bolo de arroz frito e arroz doce (este cozido com leite adoçado). Não há combinações nobres como do arroz à grega.

Do fubá de arroz se fazem também papas para recém-nascidos e canjas (sopas) com caldo de carne, para doentes ou mulheres paridas. O arroz é julgado um dos alimentos mais inocentes pelo sertanejo: nunca é contraindicado em casos de doença ou qualquer tipo de dieta. Durante o resguardo, as mulheres sertanejas alimentam-se apenas de caldo de galinha com arroz. Como é tradição em países europeus, o arroz é também usado como símbolo de fartura e nas cerimônias de casamento, é jogado em casca nos nubentes ao saírem da igreja.

Da carne

É geralmente cozida ao molho e associada a outras iguarias e verduras: com abóbora, com batatinha, com chuchu, com mandioca (rabada ou costelada), com ovo escalfado (escaldado) e ainda carne assada ou paçoca de carne seca. Fígado ao molho com cebola picada, é de sabor especial. Em algumas localidades é comum a saborosa carne de sol (carne seca) do gado típico da região, gado que ainda lambe o sal dos barreiros e come o pasto natural sem agrotóxicos. Geralmente abatido depois de longo jejum.

Do milho

O milho tem largo uso na região, sendo consumido de diversas maneiras. Milho verde em espiga é assado no borralho ou cozido com água e sal. Quando seco, é cozido em grão (feito canjica) com leite e amendoim, geralmente adoçado. Da massa de milho verde faz-se bolo assado (virado, na região), cuscuz e pamonha assada ou frita. Ou ainda o famoso angu (curau), que é servido em lugar da polenta do sul. Os quitutes de milho, na maioria são servidos como merenda.

Da mandioca

Cozida com água e sal, é geralmente usada como alimento complementar (mistura, como dizem). Substitui o pão usual. A mandioca depois de cozida, pode ser frita em fatias, segundo a preferência. Pode ser também assada na brasa, como batata. Cozida ou assada, come-se com manteiga e acompanhada de café. Além do conhecido mané-pelado, fazem-se bolos de mandioca e de puba. O primeiro é feito da massa crua de mandioca ralada e o segundo, da massa já prensada e curtida (a puba). Puba é o bolinho seco da massa de mandioca. O bolo é feito da massa colocada de molho na água por no mínimo três dias. Assado com leite, ovos, manteiga, queijo, açúcar e uma pitadinha de sal, a gosto. Na falta de forno, assa-se o bolo na panela, virando-se de um lado para outro (por isso dizem virado).

Da massa crua que se transforma em farinha ou polvilho, faz-se o beiju de massa ou de polvilho. Fica gostoso misturado com queijo ou manteiga. Na época da fazeção de farinha, reina mais entusiasmo na roça pelos beijus do que pelos demais quitutes. Há o gracioso beiju de lenço, feito com polvilho na forma de um lenço dobrado, que atrai o paladar e sugere atitudes românticas entre os namorados.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])

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