Vamos ocupar as ruas
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosPARIS — No museu militar dos Invalides, onde está o descomunal e horrendo túmulo de Napoleão, lá no térreo, meio escondido, adição recente, fica o memorial do general Charles de Gaulle. Não tem nada demais, nem de ostentação. De Gaulle era um homem estranho, de trato difícil, extrema austeridade (madame De Gaulle saía cedo do Eliseu para comprar verduras na xepa; invertia e costurava os colarinhos das camisas do marido até que não dessem mais para usar e pagava as contas de luz do palácio) e um homem sem medo algum, beirando a loucura.
No memorial há um filminho de poucos minutos mostrando a Liberação. De Gaulle mandou celebrar uma missa ecumênica em Notre Dame, comemorando a retomada da cidade. Só que os nazistas ainda não tinham saído totalmente, e havia francoatiradores e colaboracionistas armados.
O curto documentário mostra o enorme general, que tinha mais de dois metros de altura (o Copacabana Palace teve que mandar fazer uma cama especialmente para hospedá-lo), descendo do carro sob intenso tiroteio. Dezenas de pessoas se jogavam no chão, balas ricocheteavam na fachada da catedral. Ele não se alterou, fez uma breve saudação ao público, continuou como se estivesse indo tomar um sorvete e entrou na Notre Dame.
Esta mistura de coragem e teimosia está no jeito parisiense de enfrentar suas crises. Há uma convocação para que as pessoas saiam para movimentos na Praça da República, ou que coloquem flores nos locais dos atentados.
Mas a mais especial, que só poderia acontecer em Paris, é a do mais respeitado crítico de gastronomia da França, François Simon: “Terça-feira, com o fim do luto oficial, todos ocupando ruas, pontes, parques, cafés, restaurantes, sorveterias.” Vamos mostrar que Paris continua igual, sem medo. Simon quer exibir a Paris cotidiana como se nada tivesse acontecido. Um , , , um “tudo está como antes”. E todos iremos.
sitting in,eating in,drinking in