Cabul ainda sonha com a Europa
Redação DM
Publicado em 15 de novembro de 2015 às 07:05 | Atualizado há 11 anosCABUL — Às cinco da manhã, Cabul é uma cidade fantasma e está apenas começando a despertar. Suas ruas, que em poucas horas serão uma selva de carros, buzinas e freadas bruscas para evitar atropelamentos de último segundo, estão vazias e escuras, esperando que o sol comece a surgir nas montanhas que rodeiam a capital afegã. Somente um lugar dessa cidade já está em pleno movimento: as ruas que rodeiam o escritório de passaportes, onde se estende desde a madrugada uma longa fila em que alguns já esperam que as portas se abram.
Azatullah, um jovem de 19 anos, passa horas aguardando para solicitar seu passaporte. Seus planos são bem definidos: assim que tiver o documento em mãos, vai tentar chegar à Alemanha, onde tem um tio.
— A partir daqui, irei ao Irã legalmente e, do Irã para a Europa, ilegalmente — revela.
Essa é a rota mais frequente para os afegãos que decidem chegar à Europa por via ilegal, já que o visto iraniano é um dos mais fáceis de se conseguir. Caso contrário, também há rotas para atravessar a fraca fronteira compartilhada. Do Irã, os emigrantes afegãos cruzam ilegalmente para a Turquia, de onde se preparam para a última etapa de sua viagem, para a Europa. Azatullah encolhe os ombros ao ser perguntado sobre os perigos da viagem.
— No Afeganistão, as pessoas morrem todos os dias. Se vou assim, pode ser que eu morra, mas também posso chegar ao paraíso que é a Europa — responde.
O “paraíso”, sem dúvida, começa a fechar suas portas. A Alemanha ameaçou dar início a deportações de refugiados afegãos e de vários outros países, mas deseja endurecer as condições especialmente para este grupo, o segundo maior a chegar ao continente, depois dos sírios.
Azatullah, que planejou a viagem com dois amigos que também esperam na fila para dar entrada no processo, já ouviu dizer que os refugiados afegãos estão se tornando indesejados na Europa. Alguns começaram a se perguntar se a viagem e os riscos realmente valem a pena.
— Na última semana e meia, se notou um ligeiro decréscimo nas saídas — confirma o porta-voz do Ministério dos Refugiados afegão, Islamudin Jurat.
Mas Azatullah não duvida. Vai tentar de todas as formas porque não há nada que o prenda no Afeganistão.
— Aqui há muitos atentados suicidas, a economia vai mal e não há trabalho — resume.
A insegurança é o argumento mais explorado para justificar a emigração, ainda que a segunda razão — a falta de oportunidades econômicas — seja a verdadeira alavanca do êxodo do país com taxa de desemprego em 24% e onde 36% da população vivem abaixo da linha da pobreza. E são muitos os que, apesar da mudança de atitude da Europa, seguem dispostos a continuar tentando.
— Aqui, estamos todos na mesma — diz Azatullah apontando para os outros homens que aguardam pacientemente a abertura das portas.
Bem sabe Mohamed Ali. Esse antigo professor — desempregado, como tantos outros — tenta ganhar a vida ajudando a preparar documentos para as solicitações de passaporte. A cada manhã, às três da madrugada, coloca uma mesinha perto do escritório com uma velha fotocopiadora que funciona com uma bateria recarregada na noite anterior. Também presta assistência aos requerentes e ajuda a organizar a documentação. Segundo ele, esse trâmite disparou nos últimos meses.
— Há três meses, se via menos gente. Mas, agora, a cada dia, há entre 1.500 e 2.000 pessoas na fila — conta.
Foi mais ou menos a partir da onda de atentados suicidas que abalou Cabul e outras partes do país, causando uma centena de mortos. Logo depois, em setembro, o Talibã tomou Kunduz. Desde então, os ânimos andam mais que exaltados entre uma população que teme um novo pico de violência do movimento fundamentalista islâmico.
— No ano passado, a fila de passaportes estava vazia, minha mãe demorou só dois dias para conseguir. Eu estou esperando há três meses — lamenta Yahia, agente imobiliário por volta dos 40 anos.
No Ministério de Refugiados também se tem essa percepção. Estima-se que com o passar do ano tenham saído do Afeganistão (tanto legal quanto ilegalmente) 124 mil pessoas, segundo o porta-voz Jurat. A expectativa é de que, até dezembro, o número total chegue aos 160 mil.
Yahia garante que não tem a intenção de abandonar o país permanentemente. Mas, como tantos afegãos, tem parentes ou amigos que querem ou que já tentaram o sonho europeu. E receia que a Europa esteja fechando as portas a quem nasceu no país.
— Tenho pena dos refugiados que serão enviados de volta para o Afeganistão. Deveriam aceitá-los, porque sofrem com problemas reais — afirma.
É o caso de seu primo, um professor da província de Logar.
— Este ano, teve grandes problemas na escola com o Talibã e, por isso, teve que fugir do país. Assim que tirou o passaporte, conseguiu um visto para o Irã, de onde foi ilegalmente para a Turquia e, agora, vai tentar entrar na Europa.
O governo afegão deu início há dois meses a uma campanha para alertar sobre os perigos da emigração ilegal. Segundo Jurat, além de cartazes nas ruas, panfletos foram distribuídos. Além disso, o governo pede a colaboração das mesquitas e aos anciãos das tribos para que repitam a mensagem. Mas sabe-se que é difícil lutar contra o desânimo generalizado que leva tantos a abandonar o país.
— O problema principal é a falta de esperança no futuro do Afeganistão — diz com voz cansada.
Contra isso, não há campanha que valha.