Artigo: Hollande e a oferta de ‘asilo’ à arte
Redação DM
Publicado em 24 de novembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosNem penso em chorar a arte destruída ou perdida nas guerras e atentados, antes de lamentar as vidas. Sem longas teorias estéticas, fazendo uma frase de efeito, mas em que acredito, não há museu que justifique uma morte.
Mas arte se perde e há sofrimento nestas desaparições, imediatamente, pelo apreço que temos por ela e num prazo mais longo, pelo significado cultural para a Humanidade. Não é mero exercício burocrático a classificação de certos lugares e objetos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
Apesar do pouco impacto punitivo que tem, a menção de crime de guerra quando da destruição de monumentos, de forma abertamente predatória, até galhofeira, como as do Estado Islâmico em Palmira, são uma maneira de reação a esta monstruosidade . O choque das constantes imagens dos jihadistas passando tratores e enfiando a picareta nos sítios arqueológicos com dois mil anos de idade é parte do barbarismo destes militantes da escuridão. A cultura é um produto humano coletivo — queimar um museu é incendiar a memória de centenas de pessoas.
Paris sempre viveu este drama, a ocupação foi um extremo deste medo, o da erradicação física da cidade. Já é conhecido o projeto de Hitler, com a guerra perdida, de fazer voar pelos ares a cidade inteira, “que ficassem só ruínas”. Houve um filme hollywodiano chamado “Paris está em chamas?” mostrando a desobediência do governador alemão, o general general Von Choltitz; não sem grandes dilemas de obediência militar. A ordem de tirar Paris do mapa virou outro filme, do ano passado (“Diplomatie”) de Volker Schlöndorff, onde se mostra um dialogo entre o general e o cônsul sueco em 24 de agosto de 1944.
A história, com se sabe, terminou bem, Paris está aqui.
As discussões culturais do momento são o filme “Francofonia, o Louvre sob a Ocupação” do cineasta russo Alexander Sokurov, e a proposta de asilo para obras ameaçadas, feita por Hollande na Unesco. O filme de Sokurov criou bastante polêmica. Ele já tinha filmado uma obra-prima sobre museus, “Arca russa” (2002). O atual, feito a convite do antigo diretor do Louvre, não é brilhante como aquele, chega a ser aborrecido em algumas partes e sua premissa tem sido negada por historiadores da arte (boa parte das obras já tinha sido retirada antes da queda de Paris, para evitar a pilhagem alemã). Mas como ficção baseada num acontecimento factual, é interessante.
Sokurov dá a entender, aqui e ali, que todo museu é um saque, que as vastas coleções de arte antiga do Louvre, muita coisa trazida por Napoleão das suas campanhas no Egito, já eram pilhagem de guerra. O pedido grego aos ingleses para que devolvam os chamados Elgin Marbles, parte do Parthenon, que estão na coleção da Tate Gallery, são outro eco deste ponto de vista.
O filme está nos cinemas e Hollande, na semana passada, ofereceu “asilo” às obras de arte ameaçadas mundo afora pelos extremistas. Gesto louvável, Paris é capaz de estocar e proteger este patrimônio, além de ser sede da própria Unesco. A boa intenção não evitou a pergunta dos céticos: e depois? Passado o perigo, as obras voltarão à Síria, ou serão incorporadas aos museus europeus, sob custódia eterna?