Análise: Na foz do Doce, a biodiversidade em risco
Redação DM
Publicado em 23 de novembro de 2015 às 05:55 | Atualizado há 11 anosRIO E LINHARES (ES) – Cada minuto é precioso para o delicado ecossistema da foz do Rio Doce. Ali, na área de encontro com o Atlântico, a biodiversidade ainda é grande. O fundo arenoso dessa zona de transição entre o rio e o mar é o habitat de pequenos crustáceos, como camarões e caranguejos, e uma série de outros invertebrados. Todos alimentos para peixes, tartarugas e golfinhos, como a toninha, o mais ameaçado boto do Brasil.
— O impacto é físico. O acúmulo de lama soterra esse habitat e todas as suas criaturas, que morrem sufocadas. No fundo junto à foz ficam também os alevinos (filhotes) de muitas espécies de peixes. A região tem três espécies de robalo, um peixe nobre de carne valorizada e importância econômica para a região — explica o biólogo marinho Salvatore Siciliano.
Pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), Siciliano integra o grupo de especialistas em toninhas, cuja população mais vulnerável vive justamente nas águas do mar mais rasas dessa região do Espírito Santo.
— A lama modifica esse ambiente tão sensível. Tamanha quantidade de sedimento tem impacto inegável. A natureza pode ter capacidade de recuperação, mas não faz milagre — afirma Siciliano.
A retenção da lama por mais tempo na foz, segundo ele, pode afetar peixes, como cavalos marinhos, e filhotes de tartarugas verde, oliva e cabeçuda, que se alimentam de animais menores, do fundo.
Técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de laboratórios particulares coletaram peixes mortos. Testes devem confirmar se a morte deles ocorreu por falta de oxigênio, como vem acontecendo em outros locais do Rio Doce atingidos pela onda de rejeitos.
— Enquanto esperamos os laudos sobre a morte dos peixes estamos sem saber o que fazer e qual a dimensão do perigo — afirmou Carlos Sangalia, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica de Barra Seca e Foz do Rio Doce. — Hoje foi um dia de grande tristeza. Vimos os resultados de atitudes de homens que acham que o meio ambiente está a serviço deles, e não o contrário.
(Colaborou Dandara Tinoco)