Brasil

Memórias póstumas de uma serviçal

Redação DM

Publicado em 28 de outubro de 2015 às 00:09 | Atualizado há 11 anos

 

Depois de poucas horas de sono, levanto meia tonta com o som irritante do despertador. As pernas ainda não estão firmes, mas por sorte não estão formigando nem com câimbra. Ando cambaleando em direção ao banheiro, são 6h da manhã, e minha boca ainda tem o gosto da pasta de dente de poucas horas atrás.

Recuso-me a olhar no espelho de imediato. Tomo meu banho, escovo os dentes e aí sim, vejo minha imagem, com olhos fundos, umas rugas aparecendo, uma face abatida e sem ânimo. Mas não, eu não posso ir trabalhar assim! Passo um pó de arroz, um batom para dar uma cor, arrumo os cabelos, e desenho um sorriso amarelo no rosto.

Passam-se as 8, 9, às vezes 10 horas de trabalho. Vou à faculdade cansada, tudo é processado de forma lenta, isso quando consigo absorver as informações. Em casa, tem coisas na pia para lavar, comida para fazer, trabalhos da faculdade e aquele livro que você precisa ler. E, depois, tudo recomeça.

Fim de semana? Começa no sábado a noite e termina na manhã de domingo. Única noite que se pode dormir sem culpa, para acordar e se vestir de dona de casa. E a vida vai seguindo assim, uma servidão sem fim. Serva do trabalho, dos afazeres de casa, serva de mim.

Eu me controlo. São os horários, o que tenho e o que não tenho que fazer, e minhas obrigações sugam meu tempo e meus desejos, sendo quase impossível me divertir com o que realmente gosto, de ficar com pessoas que realmente importam.

São os costumes, a religião, a família… são as ideologias. São os conflitos que me perturbam, e aí, eu decido seguir em frente com o que chamam de “normalidade”.

Mas hoje, em especial, eu havia acordado ainda mais confusa. Não queria acordar na segunda-feira e continuar o mesmo ciclo. Não queria morrer sem ter vivido, queria respirar e falar sem medo, ser o que sou, fazer as coisas do meu jeito. Mas então eu pensei e logo, me deprimi, pois como ser livre numa cela? Como ser feliz num mundo de desgraças? Como sorrir quando só há dor?

É por isso que me atirei em frente àquele caminhão, tentei ao menos, libertar minh’alma. E quando morri, um anjo, pelo mesmo é o que me pareceu, disse triste e cabisbaixo que eu havia feito a escolha errada, que o meu papel era ajudar a melhorar o mundo, e não simplesmente desistir de lutar.

Agora não há como voltar, daqui a algumas horas, nem mais a minha alma irá existir. Sinto tanto! E, se você entender minha mensagem, que agora deixo com lágrimas e angústia, tente fazer o que não fiz e ajudar as pessoas a serem libertas desse sistema opressor, dessa prisão que destrói, que corrompe.

Comece por você. Acredite, a liberdade é possível.

 

(Suellen Mara de L. Couto, acadêmica da UEG, Campus Itumbiara)

 

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