Beleza sem humildade…
Redação DM
Publicado em 23 de outubro de 2015 às 23:13 | Atualizado há 11 anosA bela, mas convencida Judite, devido à sua beleza, não teve dificuldade em arrumar novo emprego, depois de ser despedida de uma loja, onde era vendedora. Fora trabalhar numa peixaria, na Feira Coberta.
Lá estava em companhia do Zé, outro funcionário da mesma banca de peixe, onde o dono era o Sr. Geraldo Vale.
Nisto chegou o primeiro cliente do Senhor Vale e a Judite foi atendê-lo. Era homem simples e pobre. Pediu 500 gramas de Tilápia. A nova funcionária não teve sua atenção interessada em atender o freguês humilde e pediu:
— Zé, atenda esse senhor aí.
O serviçal escolheu o produto e, com alegria, conversou sobre futebol com o freguês, pesou, cortou e embrulhou o pedido do cliente que, feliz, se despediu:
— Obrigado, Zé… você viu que, com o timão, não é Flamengo que vai ganhando na mole… Tchau, Zé, obrigado.
— Valeu, Seu João. Da próxima o São Paulo bate o seu Corinthians…
O cliente despediu-se do amigo Geraldo Vale, enquanto zoava com o Zé vendedor.
Mais tarde chegaram dois senhores bem vestidos, bem apessoados, que estavam escolhendo peixes e carnes melhores, pois pretendiam almoçar juntos na casa de um deles.
Iam fazer uns assados e, entendidos, não regateavam preços. Escolhiam os de suas preferências, conforme o cardápio que pretendiam preparar para suas famílias. E era Judite que os atendia. Vendo que a bela mocinha não tinha lá muita experiência na execução da tarefa, os dois amigos lhe davam algumas dicas, especialmente na hora de cortar a mercadoria.
— Corte aqui, filha, aqui…
Ela tentava fazer tal como eles pediam, mas se queixando, considerando os dois amigos muito exigentes, como se ela — apenas ela — entendesse melhor de peixe do que eles.
— Desculpe filha… não dei palpite sem entender do ramo.
A mocinha de carinha bonita fazia um biquinho de contrariedade. Não os atendeu bem e não cortou os peixes e a carne de acordo com os pedidos dos senhores, apesar de estar resmungando sobre eles, no que o dono da Peixaria, chegando, notou.
Mas os dois amigos não se queixaram ao Geraldo Vale, pois já estavam de saída, um tanto contrariados, apenas o cumprimentaram:
— Olá, Geraldo, tudo bem?
— Bem, doutores…
Os dois amigos saíram e um deles deixou o cheque próximo à mão da atendente.
Meio contrariado Geraldo saiu para acalmar-se um pouco dando uma voltinha ali pela feira, conversando com os colegas de bancas.
Nisto uma senhora descontraída e despojada, fina e educada, chegou à banca do Geraldo e pediu à mocinha que a atendia.
— Filha, corta dois quilos desse filé, por favor. Vou fazê-lo grelhado…
Ao que Judite, a moça que a atendia, interviu:
— Essa carne não é boa grelhada…
Então dona Maria Lívia, a freguesa do Seu Geraldo, exclamou:
— Se souber cortar ficará boa.
Nisto o Zé que estava atendendo outro se desocupou e disse à Maria Lívia:
— Olá dona Maria?
E a cliente, vendo-o, alegrou-se e falou, sincera.
— Oh, Zé? Tudo bom?
— Bem, e a senhora?
— Você que é bom pra cortar a carne. Sabe o jeito que eu gosto…
Zé entendeu o recado e foi ajudar Judite, que, ofendida, jogou a carne para o lado do colega, exclamando:
— Ah, você corta essa droga!
José, prestativo, fez o trabalho ao gosto da freguesa do Sr. Geraldo, alegrando dona Maria.
Nisto, Geraldo Vale cumprimentou sua amiga e cliente.
— Olá, doutora, tudo bem aí?
— Depois que o Zé chegou, ficou bem.
— Alguma contrariedade antes?
— Apenas essa menina quase fez você perder sua cliente aqui.
— Mesmo? Por quê?
— Mau atendimento.
Geraldo pediu desculpas, baixou a cabeça, olhou para Judite e falou:
— Como você faz isso com a delegada, que é uma das melhores amigas e clientes minha?
— Delegada? Essa aí? Exclamou Judite, zombando, com desdenho, fitando-a com desprezo. Então, eu sou a Rainha de Sabá…
A delegada replicou, olhando nos olhos da garota que se achava a mais bonita do pedaço:
— Por quê? Não tenho cara de delegada? Não tem importância. Mas tenho meu valor. Não tenho esnobismo, mas posso comprar o de que gosto. Diferente de você: tão bonitinha, porém, beleza sem humildade é arrogância.
E saiu. Dando tchau ao Geraldo e seu ajudante Zé.
Vale sim: ser humilde pra toda gente, porque as aparências enganam.
(Iron Junqueira, escritor)