Olhar feminino
Redação DM
Publicado em 19 de outubro de 2015 às 20:35 | Atualizado há 1 anopor Rariana Pinheiro
Um sarau na casa da pintora Alessandra Teles foi fundamental para a fotógrafa Jake Vieira idealizar a exposição Outras de Mim, que fica em cartaz até o dia 31 de outubro, na Vila Cultural Cora Coralina. Foi lá que ela se deparou pela primeira vez com o rosto da arquiteta e artista plástica Hortência Moreira. Na figura expressiva desta mulher, ela viu refletida diversas outras faces femininas, inclusive a sua. A partir daí nasceram muitos cliques, ideias e sentimentos.
Seu olhar foi tocado de tal forma, que aquele encontro despropositado, se transformou no ensaio fotográfico Outras de Mim. A mostra traz a representação de cinco distintas figuras femininas, todas interpretadas por Hortência Moreira. As mulheres são nomes fortes, que fizeram história, cada uma a seu modo. Por isto, há desde a brava coragem da cangaceira Maria Bonita, à sensibilidade poética de Cora Coralina.
A ousadia e talento musical da compositora Chiquinha Gonzaga também foi lembrada e o toque internacional da mostra também existe graças à representação da artista plástica mexicana Frida Khalo. E, em Hortência, Jake Vieira conseguiu ressaltar muito da personalidade daquela mulher que, por meio de pinceladas, conseguia fazia suas dores quase sumirem.

Contudo, a última personagem da exposição, não se trata exatamente de uma figura feminina forte e popularmente conhecida, mas também diz muito ao observador – independente do gênero – e se trata da figura de uma menina assustada.
“A garota representa todos nós, homens e mulheres. Ela é cheia de sonhos, medos e desejos, mas não possui coragem para vivê-los. Na verdade possui um pouco de cada uma das quatro personalidades dentro dela, mas não externa. É como qualquer um de nós, que muitas vezes temos sonhos, mas que nunca realizamos”, argumenta a fotógrafa.
Todas as fotos foram feitas em preto e branco, o P&B. Para a artista, este recurso imprimiu certo ar de sofisticação e nostalgia às fotos, que suas personagens históricas quase exigem. Mas, apesar do fato de que muitas das mulheres homenageadas tenham vivido em épocas remotas, para Jake, elas são atemporais, e conseguem transmitir muito bem sua mensagem à atualidade.
“Quero passar sentimento através do olhar e dessas vidas intensamente vividas. Também tenho o propósito de provocar reflexões a sobre: quantos outros cada um guarda dentro de si?”, explica a artista. Confira a seguir, a entrevista, que fizemos com Jake Vieira.

DMRevista: A exposição Outras de Mim nasceu depois que conheceu Hortência Moreira?
Jake Vieira:Sim, a conheci em um sarau na casa da Alessandra Telles, onde se reuniram vários artistas de Goiânia. Logo, uma amiga, logo comentou sobre sua semelhança com a Frida Khalo. Depois disso, visualizei a Maria Bonita. E senti falta de outras mulheres.Logo, convidei Hortência, que nunca tinha feito um ensaio fotográfico antes para fazer a exposição. Vi um potencial que ela ainda não havia percebido. E, ao ver a minha empolgação, ela confiou em mim e se dedicou aos muitos estudos que fizemos sobre as personagens escolhidas. E, com o passar do tempo, demonstrou intimidade com as lentes e focos, foi muito profissional e pontual. Foi um prazer ter trabalhado com ela.
DMRevista: Todos os personagens dizem um pouco sobre você?
Jake Vieira: Sim, todos os personagens falam um pouco de mim, que às vezes sou como uma menina, outras como Frida, Cora Coralina, Maria Bonita ou Chiquinha Gonzaga. Muitas vezes sou ousada e adoro isso em mim. Mas, quando me acovardo, me entristeço.
DMRevista: Por que a figura destas mulheres te fascinou enquanto artista?
Jake Vieira: A alma feminina me fascina pela sensibilidade que existe. Admiro mulheres que lutam, que criam seus filhos sozinhas, que trabalham e vivem com a dignidade que lhes é permitida. Mulheres amamentam e sentem seus filhos antes de nasce. Acredito que nos foi concedido o dom divino de sermos assim. Valorizo as mulheres da favela, das ruas, as perdidas e as bem resolvidas. Mas, uma das coisas que mais me fascinam é a coragem, ousadia e a força de vencer obstáculos e preconceitos.
DMRevista: O que estas mulheres emblemáticas dizem às mulheres também fortes dos dias de hoje?
Jake Vieira: Todas essas mulheres por mim registradas, são atemporais. Pois, mulher é sempre mulher, independente de seu tempo, e ser humano é sempre humano. Na verdade essa exposição não tem propósito de falar somente com as mulheres, mas com todos , pois todos somos regados de sentimentos, desejos, vontades e sonhos.Todas essas mulheres escolhidas possuem de mais forte: coragem, ousadia e inspiração. Todas elas são referências para essa geração e acredito que continuarão por várias e, talvez infinitas gerações. São mulheres guerreiras, fortes, amantes, talentosas, que sofreram mas, amaram e foram amadas.
DMRevista: Como foi que a fotografia entrou na sua vida?
Jake Vieira: Com cinco anos de idade ganhei minha primeira câmera fotográfica de meu pai, acho que o despertar começou aí. Uma boa lembrança que guardo nas lentes dos meus olhos e coração.
DMRevista: Em que esta arte mais te impressiona?
Jake Vieira: A fotografia me impressiona porque sempre é nova e é minha companheira de captar momentos e almas. Vejo pessoas nas ruas, com seus comportamentos, e isso tudo mexe comigo. Quando isso acontece vem o clique para finalizar e eternizar aquele momento, que para mim só poderia ser eterno.
DMRevista: Conte um pouco sobre a sua trajetória artística? Trabalha apenas como fotógrafa?
Jake Vieira: Comecei minha carreira no teatro, depois veio o cinema, a música e finalmente relembrei a fotografia e, já não vivo mais sem ela. Trabalho também com produção artística, audiovisual. Mas, a fotografia é minha amante, minha amiga parceria de todas as horas.
DMRevista: Qual o seu maior sonho como artista?
Jake Vieira: meu maior sonho e desejo é sempre me superar e conseguir tocar o coração das pessoas.
