Brasil

Aprendendo com os bichos (vingança é coisa de gente)

Redação DM

Publicado em 17 de outubro de 2015 às 23:39 | Atualizado há 11 anos

Não deixa de ser mistério o sentimento dos bichos. Tenho a impressão de que, se os bichos falassem, teriam muita coisa para nos dizer.

A exemplo de nós, humanos, todos os animais reagem à dor, grunhindo, berrando, chiando, manifestando-se nos conformes de seu modo de expressão. Se jogamos uma pedra num cachorro, ele sai ganindo; aliás, à simples menção de se abaixar para pegar uma coisa, ele já sai correndo. A Ciência, que está sempre buscando explicações para tudo, há muito já cuidou desse assunto, e Pavlov explica esses fatos com suas experiências sobre reflexos condicionados, assim como também explica a aproximação do gato na hora em que ouve o passar da faca no beiço da pia: é sinal de que se vai cortar carne, e sobrar-lhe-ão alguns rebotalhos de pelanca.

Se se observar um carreiro de formigas, principalmente as carregadeiras, poder-se-á ver que, naquele vaivém, algumas param, tocam-se as antenas e prosseguem, dando a impressão de que “conversaram” e deram algum recado.

Quando um bando de macacos ataca uma roça de milho, fica um de sentinela no olho do pau mais alto, com a incumbência de prevenir a chegada imprevista do homem. E quando este burla a vigilância do espião e ataca o bando, o sentinela é “chamado à responsabilidade” e leva exemplar surra de cipó, para aprender a prestar atenção. É o que diz o povo no sertão inteiro por uma boca só.

Também é voz geral – e muitos caçadores afirmam isto – que a guariba, quando está parida ao ser visada por uma arma de fogo, tira o macaquinho das costas e mostra-o ao caçador, gritando, como se querendo mostrar que se ela morrer a cria morre de fome. E nas raras vezes em que ela está desacompanhada do filhote, espreme o leite do peito numa folha e derrama, para mostrar que está amamentando.

Toda fêmea vira uma fera quando alguém se aproxima de sua cria. Certa feita, inventei de criar galinhas no quintal lá de casa, em Dianópolis, que era amplo e murado, e enquanto preparava a mudança para a nova casa, deixei umas galinhas na casa de minha mãe, e ocorreu que, nesse ínterim, uma chocou. Na hora de carregar as galinhas, ninguém avalia o tanto que penamos para segurar a fúria da galinha de pintos, que avançava na gente feito fera quando nos aproximávamos de sua ninhada.

Não se contam os casos de vacas que, contrariando sua natureza pacífica, botam pra correr o próprio dono, e é comuníssimo ela esconder o bezerro recém-nascido para dificultar sua localização, quando ela pare no mato.

Instinto? Sentimento? Não sei, ao certo. Em alguns casos, creio ser instinto de sobrevivência, mas não posso negar que alguns animais têm sentimento. Que têm, não tenho dúvidas!

Sempre que ia anualmente de férias para a fazenda, o vaqueiro matava uma rês para fazer carne-de-sol. E causava dó ouvir o lamento do gado na hora do sacríficio. Todos os bois e vacas mugem como se estivessem chorando, rodeando o local onde o machado impiedoso caiu sobre a nuca da pobre rês condenada.

E o gado que não se encontra naquele momento no local, ao se aproximar dos restos de estrume e folhas estendidas na beira do curral, faz o mesmo lamento, que corta o coração.

Carmo Bernardes, no seu romance “Jurubatuba”, descreve a cena do gado chorando a morte do seu semelhante, de forma tão viva, que é ver o retrato da realidade.

Ainda não soube de um caso em que os irracionais tenham atacado senão tangidos pelo instinto da sobrevivência: é a disputa entre dois marruás para ficar com o rebanho; é o ataque da onça ao gado, para poder alimentar-se; é a zanga da galinha de pinto e da vaca parida de novo para proteger suas crias.

Numa briga entre animais inferiores, não tenho notícia de que uma briga tenha resultado morte como saldo, a não ser em brigas de galo e de exóticas brigas de peixe orientais, assim mesmo porque esses casos têm a cabeça do homem formulando inventivas. Animal mesmo não mata; é privilégio do homem. Animal, que eu saiba, não guarda rancor e não se vinga; quando muito, a gente vê um cachorro que costuma atacar determinada pessoa, mas pode mandar ver, que atrás dessa agressividade está um maltrato qualquer, e a agressividade do cão é mais uma forma de defesa do que uma vingança propriamente dita. O único animal que se vinga é o homem.

Por estas e outras é que acho que os bichos têm sentimento. E com uma vantagem: a não ser para disputar alguma coisa, bicho nenhum briga. E nenhum mata, senão para alimentar-se ou por defesa, pois vingança não é uma coisa que se alinhe nos estatutos dos bichos.

Temos muito – mas muito mesmo – que aprender com os animais, seja de que nação for neste nosso mundo violento.

 

(Liberato Póvoa, Desembargador aposentado do TJ-TO, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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