Brasil

Nomes são nomes

Redação DM

Publicado em 17 de outubro de 2015 às 21:40 | Atualizado há 11 anos

Meu pai teve um grande amigo chamado Circuncisto. Ele era muito agradável, brincalhão e gentil. Nós adorávamos ele. Desde cedo eu sabia seu nome e nunca notei que era uma denominação rara e de difícil pronúncia. Estava acostumado a falar Circuncisto, Circuncisto, Circuncisto.

E alguns anos atrás um médico alto, educado e igualmente cordato examinou uma paciente minha. No seu laudo estava lá: Circuncisto Ribeiro Junior. Fiquei encantado e corri para conhecê-lo naquele momento mesmo. Queria chamá-lo em voz alta:

– Dr. Circuncisto, bom dia!

Entretanto, quando cheguei, a secretária me disse que o Dr. Ribeiro Junior estava aguardando. Ribeiro Junior… qual não foi a minha decepção ao ver que ele era denominado por outro nome. Mesmo assim o saudei efusivamente – mas o chamei apenas de “meu colega” – e agradeci o diagnóstico ultrassonográfico e elogiei seu trabalho tão profissional. Tive vergonha de falar sobre o seu nome, que para mim tanto significava.

Porém um dia desses, eu o encontrei e enchi-me de coragem e perguntei se ele gostava do seu nome: Circuncisto. Contei-lhe o meu apreço e lembranças positivas sobre o seu nome, tão corriqueiro na minha infância. E pedi-lhe que – se possível – quando o encontrasse, pudesse chamá-lo pelo primeiro nome. Não sabia qual seria sua reação, pois o atropelei com minhas palavras e proposta.

E maior ainda foi a minha surpresa ao ver que ele gostou. Fiquei extasiado com isso e o Dr. Circuncisto contou-me histórias e mais histórias sobre seu pai e seu nome. Não poderia ser o amigo do meu pai, pois se vivo fosse, teria mais de cem anos. Saí dali satisfeito com a acolhida e mais admirado ainda com o amigo e colega.

Parei para pensar sobre nomes, batizados, escolhas. Os pais de hoje seguem algumas tendências tais como nome de reis, papas e princesas. São belos e inspirados. Outros colocam grafias diversas, incluindo a letra “y”, ou duplicando “eles” ou “enes”, ou abrasileirando alcunhas de língua inglesa, ou escrevendo foneticamente aquilo que é dito em outra língua. Há uma profusão de neologismo e criatividade linguística. Nomes de origem anglo-saxônica, de outros países, nomes extensos e duplos.

Todos orgulhosamente batizados e registrados. Muitos nomes bíblicos, principalmente dos apóstolos. Cada casal escolhe com esmero e gasta horas de discussão nessa missão. A família dá palpites, às vezes de for menina o pai escolhe, se for menino a mãe escolhe ou vice-e-versa. Só existe um consenso: o nome é o melhor e mais bonito de todos. E a criança já será diferente dos outros a começar pelo nome.

Minha família -coitada- só coloca nomes simples, comuns e na maioria curtos e quando duplos; mais curtos ainda. Como sempre os ouvi e li, aprendi a amar todos os meus parentes e chamá-los pelo nome de maneira natural. E para mim eles são únicos e especiais.

E agora, passando da metade da minha vida de obstetra, que vê nascer um nome diferente a cada dia, chego à conclusão definitiva: cada nome é um nome. Em construção de realizações, fechado em histórias e lembranças. E quem o faz é a pessoa que o carrega. Gostando de si, ela faz o seu nome. E o pronuncia em voz alta, clara e de bom tom. Qualquer um. De qualquer grafia. O segredo é gostar. E se não gostar? Troca, a lei permite e a pessoa agradece.

JB Alencastro  é médico e escritor)

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