Apontamentos de viagem – Singapura
Redação DM
Publicado em 14 de outubro de 2015 às 00:28 | Atualizado há 11 anosEm 1994 o congresso da Sociedade Internacional de Cirurgiões do colo e reto seria realizado em Singapura; Marília e eu não conhecíamos a Ásia, portanto, desde 1993 começamos a nos preparar para esta viagem de sonhos. Naquele congresso eu teria que convencer os delegados de 60 países sobre a minha pretensão de ser um dos próximos presidentes da entidade (International Society of University Colon and Rectal Surgeons) que promove, bianualmente os congressos. Consegui!
Como sempre fazemos, decidimos nossa rota com bastante antecedência, uma vez que teríamos que fazer uma escala e preferimos Paris, onde conseguiríamos um “stopover” (parar por um ou dois dias para descansar), uma vez que é muito desgastante cumprir a rota integral sem ficar extenuado (S. Paulo-Paris – 11 horas e Paris-Singapura – 12 horas).
Pesquisamos aqui em casa, Marília e eu, um pouco da história de Singapura e, como sabíamos, ela é uma cidade estado, localizada na ponta sul da península Malaia, no sudeste asiático, possuindo 63 ilhas; em 1819 o inglês Sir Stamford Raffles assinou um tratado provisório de possessão, em nome da Cia. Britânica das Índias Orientais, com o Sultão Hussein e, em 1824, Singapura tornou-se, de fato, uma possessão inglesa; finalmente, em 1963, tornou-se independente.
É uma república muito organizada e dirigida com mão de ferro pelo parlamento (Unicameral) e, desde a sua independência é dirigida por um único partido (Partido de Ação Popular); na época da nossa viagem era primeiro ministro (desde 1959), o sr. Goh Chok Tong e que permaneceu no cargo até 2004, possui cerca de 5 milhões de habitantes, com 580 km quadrados de área (pouco maior do que a cidade de Florianópolis) e, na procura de espaço vital, passaram a aterrar o mar, utilizando-se de material dragado do seu fundo.
Singapura possui o melhor “IDH” dos países asiáticos, é o 4º centro financeiro do mundo, 2º maior mercado de jogos de cassino, 3º maior centro de refinação de petróleo e é o 5º porto naval de maior movimentação no mundo; as línguas faladas na cidade são o Inglês (praticamente toda a população comunica-se nesta língua, tendo em vista os mais de 140 anos de domínio Inglês), o Mandarim, o Malaio e o Tamil.
Ao descermos no aeroporto de Singapura (Changi) tivemos a primeira surpresa, embora tivéssemos sido alertados: sua bela arquitetura ultrapassa qualquer descrição, é simplesmente maravilhoso; acho ser este o mais bonito aeroporto que conheci até hoje (arranjos de flores para todos os lados, um verdadeiro jardim!) piscinas para uso dos passageiros (demora na escala), salas de ginástica, shopping, etc.
Hospedamos em um confortável hotel, localizado nas imediações do Centro de Convenções (onde iria acontecer o congresso); chama a atenção a educação do povo nas ruas, aliás, sobressai o sistema educacional de Singapura, com ênfase na meritocracia e a sua assistência à saúde.
Para dar uma pálida ideia do nível de educação da população, gostaria de contar um fato que fala por si mesmo: constava da programação científica do congresso uma sessão intitulada – “Palestra para o público”, quando dois professores dos Estados Unidos iriam dar aulas sobre”câncer do intestino”; diante da informação prestada pelo presidente do congresso de que a terminologia a ser empregada nas palestras seria a mesma que empregamos para os médicos fiquei curioso e fui assistir.
Auditório completamente lotado (mais de 1.000 pessoas) e, ao ouvir a palestra, fiquei pensando: acho que a maioria absoluta destas pessoas entenderão muito pouco do que foi dito pelos professores. Quando foi dada a palavra ao público para perguntas, fiquei pasmo, parecia uma sala de conferência médica, com perguntas atinentes ao tema, porém, embasadas em conhecimentos, segundo pensava, muito superiores ao que aquele auditório deveria saber.
Alguns anos depois daquele acontecimento, ao presidir um congresso da minha especialidade aqui em Goiânia (Centro de Convenções) programei uma sessão semelhante àquela, porém, solicitei aos professores que usassem linguagem superponível ao nível cultural do auditório. Foi, também, um sucesso!
A organização Mundial de Saúde considera o sistema de saúde universal (toda a população) de Singapura entre as melhores e mais bem sucedidas do mundo, graças ao comprometimento do setor público e do privado, este último com forte subsídio fornecido pelo governo.
O Ministério da Saúde regula todos os cuidados proporcionados pelo setor público e pelo privado e o atendimento do público funciona como “livre acesso”, onde o paciente pode escolher o médico e o hospital da sua predileção e confiança.
Na época da nossa visita a Singapura um incidente estava sendo divulgado pela imprensa de todo o mundo: um jovem norte-americano, por ter “pichado” carros nas ruas da cidade, foi condenado a quatro “chibatadas” com vara de bambu nas nádegas nuas, como parte da pena a que foi condenado; perguntei a um taxista que nos atendia: você acha justo o que fizeram com este rapaz?
– Na verdade, não achei justo! Fez uma pausa, olhou-me para perceber minha reação e completou: – Penso que ele merecia, pelo menos, umas 10 “chibatadas” no bumbum para crescer com educação!
Cada povo com seus costumes e suas leis, as quais são editadas para serem cumpridas em Singapura, haja vista que na entrada do aeroporto há um enorme aviso, fixado em local impossível de não ser visualizado:
– Se você for surpreendido portando drogas, está sujeito à pena de morte, sem recurso!
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)