Brasil

Que tanto amei, mas não os entendi

Redação DM

Publicado em 12 de outubro de 2015 às 22:22 | Atualizado há 11 anos

Minha filha Marion, quando mocinha, ganhou uma cadelinha york shire e deu-lhe o nome de Luna. Era o motivo de sua alegria e felicidade. Vivia com ela no colo. Mas toda vez que eu passava por elas indo para o escritório, a animalzinha me acompanhava e permanecia ao meu lado. A Marion ficava aborrecida. Queria a Luna junto dela, no entanto, ela preferia a minha companhia. Sabendo que tal atitude desagradava minha filha, também eu não queria a cachorrinha ao meu lado. Pedia à filha que a levasse para junto dela e a impedisse de me acompanhar. — Não tenho tempo para cuidar de cães… Realmente era isso. Porém, ao simples descuido da menina, a cachorrinha, linda, pequenina, estava, de novo, ao meu lado. Ia até onde estava minha filha e entregava a Luna, reclamando:

— Não, não posso cuidar de cãozinho, mesmo porque nada entendo deles. Nem quero!

Minha filha, soluçando, enxugando as lágrimas com as costas das mãos, explicava-me:

— Pai, eu não tenho culpa. Ela não entende o quanto a amo — e tanto! — mas é o senhor passar na porta de casa e ela corre para junto… Ela fica esperando dia e noite as vezes que o senhor passa aqui para correr à sua companhia.

— Fica esperando eu passar?

— O dia inteiro e a noite toda olhando em direção à porta. E soluçava a pobre menina. Eu não a quero mais. Reclamava, chorando, a menina. Fica com ela pro senhor. Ela não me quer, quer o senhor. Dizem uma coisa que é verdade. Explicou a Marion. Não é a gente que escolhe o cachorro, mas ele que escolhe o seu dono. Entre nós dois, a Luna escolheu o senhor… Fique com ela… Não vou gostar dela mais! Numa mais! E soluçava!

— Não, Marion! Sinto muito. Não entendo de cachorrinhos, muito menos se é “mulherzinha”, deve ser complicada como as humanas. E saí deixando minha filha aos soluços. Mas quando cheguei ao escritório, tirei os sapatos sob o birô para aliviar os pés e senti uma lambida, delicada, quentinha, breve, miúda. Era a Luna. — Iih… e agora? Dalí em diante assumi a nova companhia que me seguia aonde quer que eu fosse. Planejei um meio de fazê-la ficar com a Marion. Entanto, lembrei-me da frase de Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”… Vendo que perdia a causa devido a insistência da cachorrinha, assumi a responsabilidade sobre ela. E cuidei enquanto podia. Mas sempre me assustando com surpresas que ela me aprontava.

Alta madrugada eu acordava e sentindo que não iria pegar no sono, botava o pé no chão procurando os chinelos, sentia as lambidas da Luna que dormia debaixo da minha cama. Ia para a varanda repleto de pensamentos, problemas, preocupações e, no sofá, ela subia e se postava ali, bem junto de mim, espiando a noite e eu a noite, espiando. De quando em vez suas orelhinhas empinavam e se moviam para todos os lados, como se ela estivesse atenta aos mínimos movimentos.

De repente ela saltava do assento e corria atrás de um gato, mas não se aquietava nem dormia. Pronto. Pensei. Mais um notívago na família.

Certa noite eu dormia, quando ela me acordou com seus latidos. Estava debaixo da cama e ladrando. Acendi a lâmpada da cabeceira e a olhei. Ela me espiando, latia e corria do quarto para a porta de casa. Repetia sua ida à porta até que minha ficha caísse. Ela queria ir lá fora e me chamava para abrir a porta. Fiz o que ela, talvez, quisesse. Abri a porta de saída e ela saiu em disparada, atravessou longo espaço, e foi para o outro lado da piscina. Então, latia, latia.

Quando lá cheguei, deparei com um cachorrinho afogando dentro da piscina. Retirei-o com a vara de tela, usada para catar folhas e o coloquei no solo. Era um cãozinho pequeno, peludinho, igual à Luna, todo encharcado, tremendo de frio, olhava-me e à Luna. Depois de mirá-la deu uma latida, olhou-me, deu outra, e saiu cabisbaixo, procurando seu rumo no pátio, talvez voltando para o local por onde entrara. Olhei-o até sumir no escuro da noite.

A Luna, tão logo o cãozinho sumiu na escuridão, voltou para casa lenta e tranquilamente. Sua atitude me assombrou: como pôde ela, que dorme sob o meu leito, ouvir, de lá, o cachorrinho afogando na piscina, levando em conta a distância em que nos achávamos do local em que estava o animal? Será que os animais se contataram? Teria ele latido sem que ninguém ouvisse? O mais certo. Não é mesmo? Fiquei com essa versão. Não falarei mais de surpresas que me aprontara a cadelinha. Foram tantas que, a cada uma dessas surpresas, eu a percebia “mais humana”. Conhecia os meus hábitos, meus gestos, até que um dia eu a surpreendi arrastando o traseiro no piso da varanda. Na manhã seguinte levei-a ao Pet Shop e o veterinário apenas riu e disse que a garotinha estava bem, que tal atitude dela era natural. Tinha virado mocinha. Era o tal período “de regra” dela. Sei lá. Não consigo entendê-la. Passados alguns meses, a Marion clamou de novo a ingratidão da Luna, que não a quisera. Mas criei força e dei-a de volta à minha filha.

— Não quero mais saber dela! Não a entendo! É metade humana e metade canina. Sinto muito, Marion, não a quero. Tem momento, atitudes dela, que me assustam. Vendo que eu apanhava mesmo, minha filha lembrou-se que uma coleguinha sua queria a Luna desde há tempos e a levou para a felicidade de sua amiguinha e nunca mais vi a linda e incrível york shire.

Passados tantos anos, dói-me o peito quando me lembro da cachorrinha. Tive que ganhar outro cãozinho para suprir a saudade da Luna, o Dog, porém, muito moleque, brincava demais, assustava muito as crianças que se aproximavam de mim. Atendendo a orientação de pessoas, tive que doar o Dog (um Cofap) a outrem, através do Paulo Sérgio.

Hoje sou um velho São Bernardo com um barrilzinho de arrependimento no pescoço, morrendo de saudade e dó dos meus dois amigos mais queridos e leais. Sou um velho buldogue que não late para não mais se lembrar daqueles lindos amigos que foram mais que amigos — foram os entes queridos que tanto amei — mas não os entendi.

 

(Iron Junqueira, ecritor)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia