Esportes

Uma corrida de 42km rumo à história

Redação DM

Publicado em 10 de outubro de 2015 às 06:22 | Atualizado há 11 anos

Em agosto, praticamente um ano antes das Olimpíadas de 2016, no Rio, e no Ninho de Pássaro, cenáriodos Jogos de Pequim-2008, um jovem fez história no Mundial de Atletismo. Com 2h12m27s, Ghirmay Ghebreslassie, de 19 anos, se tornou o primeiro campeão mundial pela Eritréia, república africana fundada a 24 de maio de 1993, e logo na prova mais tradicional: a maratona.

Teenager (adolescente), como foi chamado no dia da vitória, foi o mais jovem campeão mundial em maratonas. E surpreendeu, pois não era favotiro. Antes disso, a única medalha de um eritreu em mundiais de atletismo fora a prata de Tadese Zersenay nos 10.000m em Berlim-2009.

heroi da eritreia

Ídolo nacional, Ghebreslassie virá ao Brasil tentar repetir o gesto em 2016, no Rio, onde largada e chegada dos míticos 42,1km serão no Sambódromo.

— Sim, eu me considero favorito no Brasil — declarou Ghebreslassie, em entrevista ao GLOBO por e-mail. — Conheço o país por seus jogadores de futebol, e sei que a Copa do Mundo foi aí em 2014.

Com uma área de 117,6 mil metros quadrados e população estimada em 6,380 milhões pessoas, a Eritreia tem por capital Asmara. É uma república uni-partidária e tem três idiomas oficiais, o tigrinya, árabe e inglês. Já passou por domínios italiano e britânico e formou uma federação com a Etiópia, até se tornar independente.

Daquele país de onde têm saído milhares de refugiados que vão tentar uma vida melhor na Europa — juntamente com sírios, afegãos, somalis e nigerianos. No caso da Eritreia, governada com mão-forte desde a independência por Isaias Afworki e apelidada por alguns de Coreia do Norte africana, pela repressão política, a ênfase no serviço militar obrigatório estaria fazendo com que várias famílias se decidissem a emigrar. Calcula-se que 12% dos refugiados que vão para a Europa sejam oriundos desse país.

Indagado sobre a situação política, o fundista foi lacônico, ao dizer que o esporte pode ajudar a melhorar a imagem e auto-estima de seu povo.

— O esporte na Eritreia é ótimo e de grande ajuda a quem quer uma vida melhor — disse ele, torcedor do Manchester United e fã de Cristiano Ronaldo.

Nascido a 14 de novembro de 1995, em Kisadeka, a 115km da capital Asmara, Ghebreslassie contou que a festa pela vitória durou vários dias na capital e também no interior de seu país.

— A celebração da vitória foi realmente incrível e eu não tenho palavras para explicar o que houve. Até agora as pessoas que me veem na cidade vêm me falar o quanto elas estão felizes. Durante a cerimônia de acolhida no aeroporto da capital, todas as ruas da capital estavam lotadas de gente, e todas as mães eritreias estavam tocando e dançando usando tambores tradicionais e alguns dos nossos cantores mais famosos cantavam músicas sobre mim e sobre a minha vitória — relatou.

Ghebreslassie começou sua carreira há pouco mais de três anos, aos 16, em provas de meio-fundo (5.000m e 10.000m). Em 2013, aos 17 anos, obteve a marca de 1h00m09s na meia-maratona de Paderborn, Alemanha, recorde mundial júnior dessa distância. Em sua primeira matarona, a de Chicago, ano passado, atuou como coelho (aquele que acelera na frente para baixar o tempo geral da prova). Terminou em sexto, com 2h09m08s. Em abril deste ano, em sua segunda maratona, em Hamburgo, foi vice-campeão, com 2h07m47s. Em Pequim, superou campeões olímpicos e recordistas mundiais favoritos como Wilson Kipsang e Dennis Kimetto, do Quênia, e Stephen Kiprotich de Uganda, este ouro na prova em Londres-2012.

— O que me chamou a atenção em Ghebreslassie foi exatamente ele ter ficado em segundo em 2013 (Paderborn). A Eritrea vive engolida pela Etiópia, geograficamente, e muitias familias etiopes vivem lá também. Há duas gerações os etiopes trazem grandes recordistas jovens de maratona. Eles conseguiram banalizar o mito de que maratonista bom é maratonista velho. Tem uma garotada boa de cerca de 21 anos correndo muito forte, na Etiópia — analisou Lauter Nogueira, técnico e comentarista de atletismo da Rede Globo e do Sportv. — Espera-se que a marca das 2h baixe em 14 anos. Isso deve ser feito por jovens da Eritreia, Etiopia e Quênia que atualmente correm os 5.000m e os 10.000m em 12m30s e em 26m05, respectivamente. O ideal é correr confortavelmente 2m52s por kilômetro na maratona.

A respeito da maratona dos Jogos do Rio, em agosto de 2016, Lauter observa que tanto os quenianos quanto os etiopes respeitam muito o calor tropical e preferem temperaturas mais frias, na faixa dos 7 a 15 graus.

— Creio que as condições no Rio serão iguais às de Pequim, e por isso, o eritreu é um dos favoritos. O queniano Geofrrey Kamworor (campeão mundial de meia-maratona) pode surpreender, assim como Tadese Zersenay. Eritreus só viajam para fora de seu pais para competir e estão mais acostumados ao calor. Uganda tem o atual campeao olimpico de maratona: Stephen Kiprotich. Já os atletas brasileiros só teriam chances em temperatura muito alta, umidade alta e vento forte — previu.

‎Perguntado sobre o motivo de tantos campeões de meio-fundo, meia-maratona e maratona serem africanos, Gebreslassie destacou alguns fatores, entre os quais a altitude.

— Além disso, a maioria dos sistemas de vida dos africanos depende da criação de gado. Desde a infância, nós crescemos com diferentes atividades em fazendas e outras que são relativas a isso e que tornam os nossos corpos fortes. A nossa cozinha tradicional também tem sua influência — comentou ele, que antes do atletismo não havia praticado esportes mais conhecidos no Ocidente, mas apenas os que são tradicionais naquela região.

Uma dieta rigorosa

Para chegar onde está, ele teve de superar lesões sofridas em três anos seguidos. Tanto que chegou a pensar em mudar de estilo de treinamento e até de distância.

— Embora eu fosse apenas um iniciante, a longa distância é o meu tipo ded prova favorito. Na meia-maratona que corri em 2013, na Alemanha, conseguiu meu melhor tempo e aquela foi uma grande motivação para me concentrar mais nessas provas — afirmou. — Seu eu tiver de me preparar para a meia-maratona, normalmente treino de 20 a 26km por dia, e se for para a maratona, de 30km a 38km por dia. A maior parte das vezes, como comida orgânica, como leite e derivados, mel, furtas, pão e às vezes massa e carne vermelha, além de proteínas como lentilhas, feijões e nozes.

Todo esse regime alimentar e de treinamento valeram a pena na China e poderão valer a pena no Rio. Graças a isso, para o jovem africano, o Ninho de Pássaro, em Pequim, passou a ser um local inesquecível.

— Estou muito feliz com a minha vitória, e ser campeão mundial era um dos meus sonhos. Quando eu consegui fazer isso em Pequim, a minha mente ficou cheia de felicidade, especialmente quando eu ergui minha bandeira. Eu estava chorando muito. Também os meus companheiros de equipe estavam chorando. Para o meu país é a primeira medalha deouro em maratona no Mundial, e é uma vitória especial para a Eritreia e para mim na história do atletismo.

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