Economia

Estrangeiros retornam a mercado brasileiro, derrubam o dólar e levam a Bolsa a fechar em alta

Redação DM

Publicado em 10 de outubro de 2015 às 03:07 | Atualizado há 11 anos

SÃO PAULO – Sem perspectivas de calotes, mesmo no pior dos cenários econômicos, e apesar das incertezas no ambiente político, os ativos brasileiros voltaram a chamar atenção dos investidores estrangeiros em um momento de maior apetite por risco no cenário global. O resultado é o recuo da cotação do dólar em mais de 9% e nove pregões seguidos de ganhos na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Isso não significa que não há cautela em relação aos problemas internos do Brasil. Se um vento desfavorável soprar, esses recursos sairão do Brasil com a mesma velocidade que entraram.

Nesta sexta-feira, o dólar fechou a R$ 3,759, em queda de 0,92%. Desde que atingiu sua cotação máxima de fechamento no ano, os R$ 4,145 de 23 de setembro, a divisa já recuou 9,3%. O câmbio turismo recuou 3% na semana, com o dólar em espécie em torno de R$ 4. Já o Ibovespa chegou aos 49.338 pontos após subir 0,47%, na mais longa sequência de valorizações desde agosto de 2010.

— De fato, está havendo um maior fluxo de recursos. É aquele dinheiro que, quando entra aprecia o real, mas também vai embora com qualquer ventinho desfavorável — afirmou Hideaki Iha, operador da Fair Corretora de Câmbio.

Na avaliação da gestora britânica Ashmore, que tem mais de US$ 55 bilhões em mercados emergentes, esse pode ser o momento de “comprar” o Brasil. “Na nossa visão, o Brasil não dará calote, não terá uma crise no balanço de pagamentos nem precisará de ajuda de instituições como o FMI e Banco Mundial. O Brasil irá reemergir desses problemas atuais, então os investidores, em última análise, devem ver essa fraqueza atual como uma oportunidade”, afirmou, em relatório, Jan Dehn, diretor de pesquisa da gestora.

Essa volta dos estrangeiros é mais visível na Bolsa. Só neste mês, o saldo de aplicações desses investidores é de R$ 1,46 bilhão, após três meses de retiradas líquidas. Eles estão aproveitando para comprar ações de empresas que são consideradas sólidas ou com boas perspectivas de crescimento, mas que estão com preço baixo. A Petrobras, por exemplo, já se recuperou das mínimas registradas em setembro.

O principal motivador para essa mudança de humor é o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que pode deixar a alta de juros nos Estados Unidos para o ano que vem. Isso fez com que os investidores internacionais ficassem mais propensos a investir em ativos de risco maior, direcionando, então, parte de seus recursos para outras economias, em especial os emergentes. Além do real, outras moedas vêm ganhando força frente ao dólar, como as de Colômbia, México e Austrália. Essas divisas também são beneficiadas pela recuperação do preço das matérias-primas – o barril do petróleo tipo Brent, por exemplo, chegou a US$ 42 em agosto e hoje era negociado a US$ 52,65.

A expectativa de mais estímulos monetários no Japão e na Europa também movimenta o capital internacional. Com maior liquidez, os investidores buscam mercados que paguem mais. No Brasil, o juro real está perto de 7%, contra 3% no México e 1,5% no Chile.

— O investidor estrangeiro não está muito preocupado com a questão política. Ele só quer ter certeza de que não haverá uma ruptura a curto prazo. Esse risco, que seria um impeachment, foi descartado por enquanto. Além disso, há uma perspectiva de que algumas medidas do ajuste fiscal sejam aprovadas — explicou Jankiel Santos, economista-chefe do banco chinês Haitong.

Para Santos, o dólar acima de R$ 4,15 não era condizente com a economia brasileira, o que também justifica que, com um cenário global mais favorável, o recuo tenha sido rápido. Além disso, ele lembra que o Banco Central sinalizou que poderia usar as reservas internacionais para conter a volatilidade do câmbio.

Além do dólar e da Bolsa, os (CDS, espécie de seguro para quem investe em títulos da dívida) do Brasil começam a cair. Depois de alcançar mais de 500 pontos após a perda do grau de investimento pela agência Standard & Poor’s, o CDS brasileiro está hoje em 417 pontos. Ainda é uma pontuação elevada (no fim de 2014, estava abaixo dos 200 pontos), mas mostra que o humor do estrangeiro em relação ao Brasil está melhor. Para efeito de comparação, o CDS da Rússia, que enfrenta um embargo econômico, está em 320 pontos.

credit default swaps

Na avaliação de Pablo Spyer, diretor de operações da Mirae Asset Securities, o recuo no CDS poderá ser ainda maior o Brasil indicar uma melhora nas contas públicas. Para isso, é necessária a aprovação de ao menos parte das medidas de ajuste fiscal, bem como a manutenção dos vetos presidenciais, que devem ser votados pelo Congresso na próxima terça-feira.

— A perspectiva fiscal continua sendo o mais importante. Se as medidas saírem, o número do CDS pode cair e voltar a ficar mais próximo de outros emergentes — disse Spyer, lembrando, porém, que o dólar mantém a tendência de fortalecimento frente às de emergentes.

A gestora Pimco, uma das maiores do mundo, também vê oportunidades de compra nos títulos públicos.

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