Brasil

Pedro Ludovico nu

Redação DM

Publicado em 8 de outubro de 2015 às 23:54 | Atualizado há 11 anos

Um dos principais problemas da contemporaneidade, talvez o maior de todos, é que muitas vezes se vê que o rei está nu e evita-se de falar. Falta-nos coragem para agir quando é preciso destoar.

Que pena. São dos erros que nascem os acertos. A história da humanidade está cheia de exemplos de que, para acertar, basta ter bom senso e sentir-se seguro para reconhecer erros e aceitar mudar.

Cheia de exemplos, aliás, não seria bem a expressão. Pois, na verdade, perceber e aceitar mudar quando não se faz a coisa como ela deveria ser feita, é exceção. Não fosse assim, tudo seria diferente e o planeta Terra certamente não seria este caos de desentendimento racional gravitando pelo Universo.

Não é preciso ir tão longe. Agora mesmo está acontecendo diante de nossos olhos a mudança de lugar da estátua de Pedro Ludovico Teixeira, fundador da cidade. Ela sai do anel externo da praça que leva seu nome e vai para seu interior. Local bem mais honroso, diga-se.

O problema é que, mais uma vez, evita-se de falar que é uma peça de proporções falhas, com o tronco do cavaleiro Pedro em visível tamanho agigantado com relação às demais partes do conjunto escultórico.

Mas esta falha, na verdade, é fruto de muita pesquisa. Ela é um toque proposital da artista sua criadora, Neusa Moraes, que infelizmente não está mais entre nós para orientar o correto posicionamento da obra como um de seus detalhes constitutivos determinantes.

O erro em que se persiste não é, portanto, da artista, mas aquele que consiste no fato de que a obra foi feita para ser vista a partir de uma altura de 6 metros do nível do solo, como equacionou sua criadora, e seus instaladores insistem em mantê-la em altura menor.

Se instalada como foi pensada por Neusa Moraes, o observador teria outra percepção de volumes, compensada pelo seu distanciamento da obra, e assim poderia vê-la sem a distorção clara que constatamos quando ela está ao rés do chão.

A praça Pedro Ludovico Teixeira, dita Praça Cívica, a primeira e mais importante da capital, será re-inaugurada festivamente pela Prefeitura daqui a duas semanas, no próximo dia 24, data de aniversário da cidade que o retratado de Neusa idealizou e fundou.

Este é o momento em que, mais uma vez, configura-se a chance de corrigir o que está errado e sanar a percepção estética falha que temos diante da obra que homenageia o até hoje maior político da história de Goiás. No entanto, permanece definido pelos instaladores que a altura do monumento equestre em seu novo local será de apenas 3 metros, ainda muito aquém do projetado pela sua criadora.

Se a artista, conforme depoimento verbal em conversas e entrevistas, dizia abertamente que sua obra era para ser vista de uma altura de 6 metros do chão, o que podemos concluir? Pedro Ludovico está nu. E a Prefeitura de sua cidade finge que não vê e age como se não tivesse a nada a ver com isso.

Px Silveira, Instituto ArteCidadania)

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